Dicas de Leitura Prática -As Cem Melhores Crônicas Brasileiras

Se você não tem o hábito da leitura e quer ter ou se o seu tempo para ler é escasso, uma boa dica é investir em compilações de contos e crônicas, pois elas são bem mais práticas que um romance.

Você pode ler um conto ou crônica por dia, o que significa em média 2 ou 3 páginas apenas, e levar o tempo que quiser para concluir o livro sem viver a ansiedade pelo fim.

Outra vantagem das coletâneas é a diversidade de referências, já que você entra em contato com autores de quem nunca ouviu falar e pode consultar a obra deles posteriormente.

Eu, por exemplo, nunca tinha lido Rachel de Queiroz e depois da crônica “Talvez O Último Desejo“, que me emocionou profundamente, eu resolvi incluir a escritora na minha lista de leituras futuras.

Também decidi dar mais atenção para outro escritor importantíssimo para a crônica brasileira, que é o João do Rio. Eu já tinha lido um conto dele “O Bebê de Tarlatana” (ótimo por sinal), mas simplesmente esqueci de me aprofundar.

Como se não bastasse tudo isso, neste livro ainda contamos com uma variedade de assuntos para ninguém botar defeito. Você terá 100 histórias com as quais se envolver. Cem!!!Dá para se entediar? Claro que não, né?

Agora, vamos às considerações mais específicas sobre o livro.

Li em voz alta a grande maioria dos textos para “sentir” a melodia de cada um deles, tudo entre gargalhadas, reflexões, garganta engasgada e, em alguns casos, até lágrimas.

Para mim, o melhor do livro encontra-se até a década de 70. Depois desse período, os textos bem escritos e com casos interessantes foram ficando cada vez mais rarefeitos. De qualquer forma, eu amei a leitura e ganhei novos nomes para a minha investida como cronista.

Maiores Vantagens do Livro

  • Riqueza de estilos, temáticas e estética – Ter num único livro nomes como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector, te dá uma visão panorâmica sobre como cada um desses gigantes estruturava a sua escrita. Com isso você acaba desenvolvendo um olhar mais sutil para as diferenças entre o trabalho dos autores, bem como dos temas que eles costumam abordar.
  • Informações extras – A cada passagem de época, há uma pequena descrição sobre o que estava acontecendo com a crônica e o Brasil naquele período. Mais uma vez ganhamos amplitude.
  • Referências bem catalogadas – Nas últimas páginas você pode consultar os autores de duas maneiras: pelo índice de autores (para quem quer saber em quais páginas encontrar o texto de cada um deles) e pela bibliografia (para quem quer rastrear o original onde cada crônica foi publicada).

Minhas Prediletas

De 1850 a 1920

  1. Modern Girls – João do Rio p. 29
  2. O Livreiro Garnier – Machado de Assis p. 41
  3. Um Mendigo Original – João do Rio p. 44
  4. As Cartomantes – Olavo Bilac p. 53
  5. O Dia de Um Homem em 1920 – João do Rio p. 57
  6. Genialidade Brasileira – Alcantra Machado p. 72
  7. Talvez O Último Desejo – Rachel de Queiroz p. 74
  8. Um Milagre – Graciliano Ramos p. 74

Década de 50

  1. Café com Leite – Antônio Maria p. 96
  2. Batizado na Penha – Vinicius de Moraes p. 97
  3. A Moça e a Varanda – Sérgio Porto p. 99
  4. Páginas das Páginas – Marques Rebelo p. 101
  5. Garbo: novidades – Carlos Drummond de Andrade p.115
  6. Complexo de Vira-latas- Nelson Rodrigues p. 118
  7. O Inferninho e o Gervásio – Stanislaw Ponte Preta p. 126
  8. Os Amantes – Rubem Braga p. 129
  9. A Bolsa e a Vida – Carlos Drummond de Andrade p. 137

Década de 60

  1. Conversa de Pai e Filha – Antônio Maria p. 155
  2. Gente – Elsie Lessa  p. 157
  3. Coisas Abomináveis – Paulo Mendes Campos p. 162
  4. Notas de Um Ignorante – Millôr Fernandes p.170
  5. A Última Crônica – Fernando Sabino p. 188

Década de 70

  1. Londres, Novembro de 1972 – Campos de Carvalho p. 193
  2. Herói Morto. Nós – Lourenço Diaféria p.195
  3. Um Lugar Ao Sol – Chico Buarque p. 201
  4. Os Abridores de Bar – João Carlos Oliveira p.213
  5. Morreu O Valete de Copos – João Antônio p. 220
  6. Medo da Eternidade – Clarice Lispector p.223
  7. Ser Gagá – Millôr Fernandes p. 225

Década de 80

  1. Ed Mort e O Anjo Barroco – Luis Fernando Veríssimo p. 233
  2. Zero Grau de Libra – Caio Fernando de Abreu p.255

Década de 90

  1. Sobre o Amor – Ferreira Gullar p.279
  2. Minhas Bunda – Mario Prata p.287

Anos 2000

  1. A Mulher de -Marcelo Rubens Paiva p.319
  2. Meu avô foi um belo retrato do malandro carioca – Arnaldo Jabor p. 331

Dica Final

Antes de começar a ler o livro, escolha uma forma fácil e eficiente para marcar as páginas que você mais gostou. Assim dá para fazer um balanço final sobre os autores de sua preferência ou reler as crônicas que mais lhe chamou atenção.

Eu usei post it. Dê uma olhada no arco-íris! 🙂

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Bom, é isso, pessoal. Espero que tenham gostado das dicas. Quem tiver lido o livro e quiser contribuir com mais informação, por favor deixe nos comentários.

Beijos e até a próxima! 😉

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Por que Escolhi São Paulo – Ou Como São Paulo Me Fisgou?

Uma carioca dizer que se identifica mais com a terra onde biscoito é bolacha soa como um sacrilégio porque como alguém pode trocar as belezas naturais do Rio pela selva de pedra de São Paulo?

Pois é….  Eu continuo amando o meu estado e sempre vou tê-lo guardado em um lugar exclusivo no peito, “but, however, meanwhile”, São Paulo fez bonito em vários quesitos.

  1. Mais variedade cultural – Eu sou fissurada, apaixonada, obcecada em eventos culturais relacionados principalmente a cinema, literatura e música. E aqui eu sei que há sempre muitas coisas acontecendo por toda a parte.
  2. Mais oportunidades de trabalho – Para quem é autônoma como eu e decide voltar para o Brasil bem no meio de uma recessão econômica, nada menos pior do que morar na cidade mais rica do país.
  3. MUUUITO mais opções de cursos livres e acadêmicos – É assombrosa a discrepância de oferta (desde aula de yoga a curso de filosofia) entre Rio e São Paulo nesse sentido. Ainda em Istambul, quando eu já zapeava pela Internet áreas de interesse, não era raro eu me irritar com os resultados de busca. A maioria de tudo que eu me interessava era em São Paulo.
  4. Clima beeem mais ameno e um inverno de verdade – Sim a carioca aqui odeia verão, sol escaldante e excesso de umidade, e para fechar com chave de ouro: eu não ligo para praia. Nada contra, gente. Só não está na lista das 30 primeiras coisas que eu penso em fazer com o meu tempo. Posso ter nascido no Rio, mas minha alma é vampiresca. Fazer o quê?
  5. Uma vibe que combina bem mais com o meu espírito – Esse é um daqueles critérios de seleção meio metafísicos. É como ir ou não com a cara de alguém. Não dá para explicar racionalmente as razões, mas você sente nos pequenos detalhes que está em um lugar com o qual possui uma correspondência profunda.

Bom, eu cheguei aqui literalmente ontem, apesar de já ter vindo outras vezes a passeio e a trabalho. Então, muitas águas ainda vão rolar. Mas independente do que o futuro trouxer, eu já me vejo morando aqui com tranquilidade, assim como em Istambul, o que me leva a crer que eu tenho uma alma bem vadia que se encanta facilmente e logo faz seu ninho.

Seja como for, São Paulo tem muito a me mostrar e eu quero saboreá-la sem pressa e com muito vigor!

Beijos e até a próxima. 😉

 

 

Gentilezas de São Paulo

  • Peço ajuda a um motorista para chegar num endereço, passo a roleta, me distraio e desço um ponto antes do local recomendado. Motorista segue seu caminho tranquilamente? Não. O ser gente boa, camarada manda eu voltar para o ônibus e me deixa exatamente na esquina mais próxima.
  • Mais uma vez estou eu em busca de uma rua. Vejo uma mulher vindo em minha direção e pergunto se ela conhece a bendita. Resposta negativa. Ela encerra o assunto e vai embora? Não. A outra alma iluminada tira o celular do bolso, liga o Google Maps e me mostra como chegar lá.
  • Versão perdida olhando para o mapa das linhas de metrô e trem de São Paulo, tentando descobrir a direção certa para mim. Uma mão toca o meu ombro:

– Moça, você quer ir para onde?

Eu respondo e ele me diz a plataforma e onde fazer baldeação.

Em matéria de experiências, eu sou uma otimista. Acredito piamente que ser gentil compensa porque a vida sempre retribui, e por onde quer que eu ande, Rio, Istambul, Itália, Paris….. e agora São Paulo, NUNCA me falta ajuda. Nunca. Sempre me sinto acolhida.

Eu sou a minha casa e o mundo é meu playground! 😉

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Um Domingo na Paulista

Vencido o desafio da minha chegada à terra onde biscoito é bolacha, me vi pronta para zanzar por uma das avenidas mais apinhadas da capital paulista em sua versão “de folga” – sem automóveis, stress e correria. Ou se preferirem, no modo “também sei relaxar”, com patins, bikes, skates, famílias, cachorros e tudo mais de que é feito um dia de domingo agradável.

O sol faz as honras da casa oscilando os termômetros entre 23 e 28 graus, e um morador se exaspera ao telefone:

– Está uma fornalha aqui, mano! MUITO QUENTE!

Como assim?! Consulto minha experiência em matéria de calor vulcânico duramente acumulada em 20 poucos anos de Rio de Janeiro e me escapam risadinhas irônicas.

Se o inferno realmente existe, um dos seus centros de treinamento intensivo está localizado bem ali em solo carioca, com destaque merecido para as bandas da Baixada Fluminense onde brisa de mar é lenda urbana e a quentura do asfalto compete com a de um incinerador.

Exageros meteorológicos à parte,  me atenho agora ao vai e vem das pessoas. O balanço é bonito e bem versátil. Aos poucos toda a sorte de tribos vai se apresentando nas pistas espaçosas da avenida.

Na ala dos atletas, destaque para o pessoal esbelto e com cara de boa saúde. Shorts, tênis e regatas; passadas firmes, corridinhas ou pedaladas pela ciclovia. E então identifico uma nova categoria de trabalho: “bandeirinha de trânsito” – funcionário provavelmente da prefeitura que faz as vias de semáforo humano organizando os cruzamentos com uma bandeira vermelha.

Com cara de tédio, ele se põe resignadamente de pé em frente à faixa de pedestre e de tempos em tempos, suspende a bandeira com firmeza e certo ar de autoridade. Ciclistas e pedestres param ao sinal do rapaz para que as pessoas possam atravessar sem risco de colisão. Está aí uma boa ocupação para quem gosta de tarefas com baixíssimo grau de dificuldade.

Mais à frente uma senhorinha dança animada ao som de um cover tosco de Elvis Presley. Apesar da qualidade duvidosa, ela parece satisfeita e transportada para os tempos de sua juventude.

Crianças eufóricas com o tamanho do seu playground, cãezinhos se abanando de alegria e adultos em conversas animadas vão desfazendo, ou pelo menos atenuando, a imagem do paulistano workaholic e sempre apressado.

O entardecer vai se chegando morosamente e eu me deixo sentar numa das esquinas para assistir ao melhor que os meus olhos e ouvidos capturaram do dia. Um belo show de jazz. Boa música para embalar os corpos, despertar os ouvidos e acima de tudo, afagar a alma de quem por ali passou e ficou.

Aline Oliveira

 

Carolina Zingler & Nunvens

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Sejam Bem-vindos!

Olá, meu povo! A blogueira aqui está de volta. E pela quinquagésima vez, estou criando um blog novo. Aqui estarão reunidos os meus textos e vídeos do canal NãoSouObrigada

A página #NãoSouObrigada continua, mas eu tive que criar este espaço porque a estrutura de uma fanpage é muito limitada em comparação com a de um blog. Aqui vocês poderão acessar o arquivo de posts, ler por categoria e voltar com muito mais facilidade a algum conteúdo específico.

Espero que gostem do espaço e colaborem com sugestões de temas e melhorias.

Ah, e agora eu também sou moradora de São Paulo. Vim para estudar e desbravar a Terra da Garoa. Aguardem porque haverá muitos posts sobre essa nova aventura minha. 🙂

Beijão!

Aline Oliveira.

Conheçam também meu canal! 🙂

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Meu Rei, Meu Espelho

Nome original: Mon Roi

País: França

Ano: 2015

Atores principais: Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot

O filme francês “Meu Rei” (Mon Roi) estrelado por Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot (melhor atriz em Cannes) brinca com um dos clichês mais batidos de todos os tempos: o amor conturbado entre uma “mocinha” insegura e um “badboy” sedutor. Alguma semelhança com 50 Tons de Cinza? Felizmente, nem tanto.

A história pode ser lida em duas dimensões diferentes. No modo café-com- leite, onde Tony “cai nas garras” de Giorgio que a envolve em um jogo de submissão psicológica mesclada com bajulações. Uma interpretação perfeita para quem acredita que, dentro de um relacionamento, a mulher é uma donzela indefesa, portanto, isenta da responsabilidade pelos rumos que o envolvimento tomar.

Ou no modo “cheguei à vida adulta e tenho vergonha na cara” que funciona bem melhor para os mais realistas e inconformados com a banalidade que o termo “vítima” ganhou. Olhando desse ângulo, o filme ganha profundidade ao revelar os paradoxos das relações humanas, nas quais razão e emoção se contrapõem o tempo todo, nos arrastando para lados opostos e dificultando o discernimento sobre aquilo que queremos com mais firmeza. Viver intensamente uma atração fatal ou salvar minha sanidade? Esse é um dos dilemas de Tony, que está longe de ser uma pobre coitada e já explico o porquê.

Uma advogada bem-sucedida, amparada por familiares e amigos, é vítima ou coautora de um relacionamento abusivo? Eu aposto na segunda opção por dois motivos básicos: primeiro, ela detém recursos financeiros, intelectuais e de gênero (nascida e criada na França e não no Oriente Médio) suficientes para entender quando está sendo desrespeitada; segundo, ela tem liberdade para terminar tudo a hora que quiser sem que isso lhe custe mais do que uma bela fossa que arranha nossa dignidade por certo tempo, mas que não nos mata.

Por mais que o nosso dicionário seja muito inclusivo ao definir o significado de “vítima”, eu sou bem reducionista nesse sentido, preferindo considerar como tal apenas pessoas de fato privadas da liberdade de escolha ou sujeitas a opções que lhes custariam tão caro do ponto de vista social e/ou psicológico que fica difícil encará-las como um caminho viável, e obviamente, aquelas que são vulneráveis por definição (crianças, idosos, doentes, civis em zona de guerra, vítimas de estupro, de violência física, etc.).

Já uma “Tony” me parece mais vítima de si mesma e, portanto, precisa é de um espelho e não de um lenço. Isso porque ela tem claramente uma tendência a consentir os abusos de seus parceiros (o filme deixa claro que ela é a típica “dedo pobre”), provando que só lei não basta. Também é preciso consciência e colaboração por parte das mulheres para não facilitar a vida dos abusadores. A lei trata do leite derramado, a educação de homens e mulheres dispensa o seu uso.

Não se iluda. Em linhas gerais, toda vez que você se considera uma vítima do mundo, está dando um tiro no próprio pé, sabotando o seu poder de ação e perdendo uma grande oportunidade de refletir sobre si mesmo e tudo que lhe cerca.
Um dos grandes ritos de passagem da infância/puberdade para a vida adulta é justamente a consciência de que tudo é regido por uma lei de causa e efeito e que nós temos participação nisso. Ou seja, a sua vida é, em grande medida, aquilo que você fez dela e não um fenômeno sobrenatural orquestrado por extraterrestres. Dói né? Pois é… Isso explica porque tantas pessoas preferem o discurso de vítima.

Em muitos casos, ser vítima significa “estou livre da responsabilidade quando algo der errado”. O problema desse pensamento, além de criar uma cambada de mimados viciadinhos em chororô, é que ele gera humanos eternamente presos na adolescência, uma espécie de Caverna do Dragão onde voltar para casa equivale retomar o processo de maturação iniciado com o parto.

Voltando ao filme, o que distingue mulheres de meninas não é a vida em si, mas a postura tomada perante ela. Tony é quase tão desequilibrada, insegura e agressiva quanto Giorgio. A maior diferença entre eles é o temperamento, ela é mais reprimida e ele, mais expansivo.

Não se iluda parte II, nós só atraímos para as nossas vidas quem nos serve de espelho, os outros até se aproximam, mas não fazem morada porque não há correspondência para sustentar uma relação duradoura.

Sim, uma mulher madura e bem resolvida poderia se encantar por Georgio (Vincent Cassel não é lá um bonitão, mas tem seu charme), e num caso mais extremo de carência, até se apaixonar por ele, mas ela certamente racharia a conta do problema. E se a decisão fosse “sim, eu vou viver essa história custe o que custar”, ela diria algo do tipo:

– Gente, eu sei que ele não presta, mas eu também não sou lá flor que se cheire. Então, estamos quites.

Nos tempos de hoje, excluindo os países em que liberdade individual é mera utopia romântica, podemos dar o rumo que quisermos para as nossas vidas, e seja lá qual for o itinerário escolhido, que tenhamos sempre a decência de bancá-lo sem mimimi e encenações.

Música tema:

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