Um Domingo na Paulista

Vencido o desafio da minha chegada à terra onde biscoito é bolacha, me vi pronta para zanzar por uma das avenidas mais apinhadas da capital paulista em sua versão “de folga” – sem automóveis, stress e correria. Ou se preferirem, no modo “também sei relaxar”, com patins, bikes, skates, famílias, cachorros e tudo mais de que é feito um dia de domingo agradável.

O sol faz as honras da casa oscilando os termômetros entre 23 e 28 graus, e um morador se exaspera ao telefone:

– Está uma fornalha aqui, mano! MUITO QUENTE!

Como assim?! Consulto minha experiência em matéria de calor vulcânico duramente acumulada em 20 poucos anos de Rio de Janeiro e me escapam risadinhas irônicas.

Se o inferno realmente existe, um dos seus centros de treinamento intensivo está localizado bem ali em solo carioca, com destaque merecido para as bandas da Baixada Fluminense onde brisa de mar é lenda urbana e a quentura do asfalto compete com a de um incinerador.

Exageros meteorológicos à parte,  me atenho agora ao vai e vem das pessoas. O balanço é bonito e bem versátil. Aos poucos toda a sorte de tribos vai se apresentando nas pistas espaçosas da avenida.

Na ala dos atletas, destaque para o pessoal esbelto e com cara de boa saúde. Shorts, tênis e regatas; passadas firmes, corridinhas ou pedaladas pela ciclovia. E então identifico uma nova categoria de trabalho: “bandeirinha de trânsito” – funcionário provavelmente da prefeitura que faz as vias de semáforo humano organizando os cruzamentos com uma bandeira vermelha.

Com cara de tédio, ele se põe resignadamente de pé em frente à faixa de pedestre e de tempos em tempos, suspende a bandeira com firmeza e certo ar de autoridade. Ciclistas e pedestres param ao sinal do rapaz para que as pessoas possam atravessar sem risco de colisão. Está aí uma boa ocupação para quem gosta de tarefas com baixíssimo grau de dificuldade.

Mais à frente uma senhorinha dança animada ao som de um cover tosco de Elvis Presley. Apesar da qualidade duvidosa, ela parece satisfeita e transportada para os tempos de sua juventude.

Crianças eufóricas com o tamanho do seu playground, cãezinhos se abanando de alegria e adultos em conversas animadas vão desfazendo, ou pelo menos atenuando, a imagem do paulistano workaholic e sempre apressado.

O entardecer vai se chegando morosamente e eu me deixo sentar numa das esquinas para assistir ao melhor que os meus olhos e ouvidos capturaram do dia. Um belo show de jazz. Boa música para embalar os corpos, despertar os ouvidos e acima de tudo, afagar a alma de quem por ali passou e ficou.

Aline Oliveira

 

Carolina Zingler & Nunvens

 

 

 

 

 

 

 

 

3 comentários sobre “Um Domingo na Paulista

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