Balaio

De mãos dadas com o breu do dia, que não nascera de todo, Joana expulsa da cama o corpo, odiando o mundo pelo descanso abolido.

Os olhos em brasa pela claridade da lâmpada custam a manter-se abertos. E a cabeça, espremida por faturas vencidas, afazeres e mochila de filha, lateja vagarosa, tentando pousar no quarto e entender-se com a realidade.

Um jato forte do chuveiro e o sono goteja pelo chão, desmanchando-se com a espuma porosa do sabonete e os vestígios do fim de semana.

Uniforme vestido, tênis calçado, mochila nas costas e filha no colo.

No caminho para a sala, detém-se uns minutos olhando a pequena que dorme inocentada de tudo, sem medo nem desejo.

Recostada em um dos braços do sofá e com o corpo em concha, a mãe se abriga na miudeza da filha como que procurando rendição. Naquele agasalho, a vida era macia e os sonhos autorizados.

Aline Oliveira.

2 comentários sobre “Balaio

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