Quase Encontro

Na janela do ônibus uma cortina de chuva escorria em frente aos olhos de Clarice que a acompanhava sem muito interesse.

Pausa no ponto e com o abrir das portas, o cheiro de terra molhada se espreme entre a leva de gente que vai se amontoando nas sobras de espaço ao redor da catraca.

O ar abafado contamina-se um tanto mais pelo odor nauseante de casacos ensopados e sombrinhas a pingar. Os olhares de fim de dia embaçam de tédio e gravidade a pequena atmosfera comprimida.

Para distrair-se de si, Clarice mapeia um a um os rostos e corpos a seu alcance.

Um jovem despencado sobre a mochila tomba no ombro da passageira ao lado a cada solavanco do ônibus em um sono profundo e desinformado das paradas por vir; mais adiante, uma dona escora seu cansaço em um dos cantos parecendo ruminar os fatos do dia com certo azedume e resignação, olhos e boca caídos, rosto sugado de rugas desconversam com a calça de lycra e a camiseta colorida.

Mais uma parada e ele entra. Cabelos desgrenhados, camiseta branca por baixo de uma blusa xadrez um pouco maior do que o necessário. Não é exatamente bonito nem feio, mas algo a encanta. Talvez os seus ares de originalidade ou um certo toque de mal-estar com o mundo.

Ele pressente os olhos dela e ignora o celular. Em poucos segundos os dois se encaram levemente constrangidos. Ela vira o rosto, ele abaixa a cabeça.

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