A Garota Desconhecida

Cada um se cura como pode…

O peso da consciência exigindo justiça, as dores do passado modelando o presente.

Uma médica inconformada com a morte de uma jovem desconhecida que, em certa medida teve sua contribuição; um estagiário fazendo da medicina o antídoto para seus traumas de infância.

O filme não é nenhuma proeza de atuação, fotografia ou roteiro, mas a história prende. O jeito seco, típico do cinema francês, é sentido do início ao fim, inclusive nos momentos de mais emoção.

Eu gosto disso. Acho as presepadas cênicas, muito frequentes na dramaturgia latina, um excesso difícil de engolir. E já notei que todos os atores que mais admiro são sintéticos, sóbrios, porém, muito incisivos em sua atuação.

Como disse a diva, Clarice Lispector, “que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”. Anthony Hopkins e Fernanda Montenegro que o digam.

Voltando à trama, o que mais me intrigou foi a overdose de realismo mostrado em todas as cenas. Saí do cinema cheia de questões:

Como uma simples atitude pode contribuir para uma tragédia…

Não muito raramente, nosso instinto de autopreservação se choca com o senso de justiça. Quem nunca se atormentou entre salvar sua pele e fazer a coisa certa?

E por que fazemos o que fazemos? Somos de fato generosos ou praticamos o bem para nós mesmos através dos outros?

Perguntas, muitas perguntas…

Filmes como este são um ótimo corta-santidade justamente por trazer à tona o humano que nós somos – confuso, vacilante, contraditório – e não aquele que gostaríamos de ser. E pensar nisso me fez lembrar de um documentário, postado aqui, no qual uma das participantes deu uma das declarações mais sinceras e humildes que já ouvi.

Ela, judia salva ainda criança por um soldado alemão, disse algo mais ou menos assim:

“Ele arriscou sua vida, a única que tinha, para salvar a minha. Eu não sei se faria o mesmo no lugar dele. Gostaria de dizer que sim, mas não posso.”

Acho que só uma pessoa muito desavisada de si mesma confia na eficácia absoluta de suas virtudes, todas as outras se vigiam e torcem para que a imprevisibilidade de suas escolhas e os reveses da vida não as arrastem para um lamaçal de dor, remorso e degradação moral.

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