Eu Sei dos Meus Privilégios

Continuo firme na minha escolha de não militar sistematicamente a favor de causa alguma por três motivos básicos:

  1. Não tenho vocação pra luta ideológica, muito menos para o seu marketing.
  2. Não sindicalizo o meu pensamento. Deixo-o selvagem, vadio e autônomo bem do jeito que ele gosta.
  3. Não acho possível que eu, com todas as lacunas e facetas ainda por compreender, caiba em uma ideologia, por mais ampla e complexa que seja. Não porque eu me ache insuperável e sim por entender que o discurso enquadrado pesa e cerceia as aspirações naturais de cada um.

Mas respeito e entendo perfeitamente quem tem suas bandeiras porque:

  1. Conheço meus privilégios. Em grande medida, meu desapego só existe porque eu nunca me senti tolhida, muito menos sabotada por ser quem sou.

    É claro que casos aqui e ali de destrato eu já vivi aos montes, mas nada comparado às vivências humilhantes e desumanas que muitas pessoas passam ao longo de suas vidas por fazerem parte de alguma minoria discriminada ou perseguida;

    E essa falta de hostilidade do mundo até me espanta, já que nasci mulher, pobre, negra e num país subdesenvolvido. Mas que assim permaneça porque #NãoSouObrigada

  2. A luta por um ideal pode servir como uma forma de cura dos traumas sofridos e de integração psíquica e social.
  3. Certos avanços sociais só são alcançados por meio de militância constante e bem estruturada. Sem os sutiãs queimados, as mulheres (nem todas) não seriam  livres como são, sem toda a pressão abolicionista, os negros (nem todos) não estariam onde estão. Porque milhares de mulheres e homens dedicaram (e até perderam) suas vidas em nome de um ideal de justiça e igualdade é que desfrutamos de tantos privilégios ainda negados a bilhões de seres humanos.

E contanto que a bandeira levantada não seja mais um meio de segregação e disseminação de ódio, tá valendo. Se promover mais consciência e conforto social, melhor ainda.

Mas eu permaneço ideologicamente desprendida e acreditando que nós só vingamos de verdade ao ar livre, com a mente escancarada pra vida e suas lições de unicidade a partir da aceitação das diferenças, sem dogmas nem cartilhas.

Que cada um se governe na medida que der

Na direção que quiser

Que cada um se acolha e se honre!

Não militar é a minha militância mais extravagante.

2 comentários sobre “Eu Sei dos Meus Privilégios

  1. Compreendo que quando você escreve sobre militância seja no contexto do feminismo, mas achei fantástico a maneira de se posicionar pois vivemos em tempos de extremismos ideológicos.
    Aplico seu texto a toda forma de pensar que não respeite o próximo e sua opinião, as ideologias que sobrepujam o sentido humano do relacionamento e a vida vivida acima da regras hipócritas.

    Obrigado.

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