Privilégios x Liberdade

Dinheiro compra:

a hora/aula de um professor, mas não a libertação do conhecimento;

os serviços de uma empregada doméstica, mas não a independência de saber cuidar de si  e limpar a própria sujeira;

a experiência de um terapeuta, mas não a superação de transpor seus próprios medos, traumas e ilusões.

Ele viabiliza, abre portas, traz conforto, mas há um nível da liberdade humana que nem o dinheiro nem todos os outros marcadores de poder e bem-estar social (juventude, beleza, fama, casamento, cultura etc.) são capazes de conceber:

o amor pela própria existência traduzido

no esforço indissolúvel em se manter saudável e em progresso,

 em se honrar, conhecer e expandir,

no pacto com sua própria verdade em detrimento de todas as aparências e exigências do mundo

e na sede de entrega a si mesmo e às suas demandas

de riso, choro e vigor!

Este patamar, que é íntimo e anônimo,

só se revela para quem o elege,

a despeito de todas as distrações do mundo.

E para subi-lo há de se estar nu

porque liberdade também é transparência

e para que ela avance, o medo do espelho tem que fracassar.

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O que aprendi morando em um país muçulmano

Vivi quase 4 anos na Turquia, país onde mais de 90% da população é muçulmana, e pude traçar na prática um comparativo razoável entre Ocidente e Oriente, o qual compartilho com vocês agora.

Com cultura não se brinca

Ela norteia absolutamente todas as escolhas, valores e pontos de vistas que cada um possui. Portanto, não dá para conviver com um muçulmano sem respeitar e negociar diretamente com seu contexto social.

Sem tolerância recíproca, nada feito!

Ocidentais e orientais muçulmanos podem conviver harmoniosamente sim, contanto que haja muito respeito e ambas as partes saiam da sua zona de conforto para se encontrar num meio termo.

Um dos lados se sacrificando para que o outro prevaleça dificilmente resultará em algo que se aproveite.

 Os limites são concretos

Por mais que haja boa vontade, certas diferenças culturais nunca sairão da categoria “absurdos do outro”, não importa o tamanho do esforço. Em vários aspectos, os muçulmanos nos acham depravados e nós os temos como extremados em sua moralidade.

Outra coisa perigosa é medir o outro com a nossa régua. Uma coisa que muitas brasileiras tentam é inverter a ordem de prioridades de um homem muçulmano, o que quase sempre termina em esforço inútil.

Nos países de origem judaico-cristã, aprende-se que, após o casamento, o foco da vida dos dois é essa nova união. Portanto, os pais do casal passam a ter relevância secundária.

Já na cultura islâmica, a ordem quase sempre não se inverte. Mesmo depois de casadas, as pessoas continuam dando aos pais importância superior ou no mínimo igual àquela dada à nova família, pois foram educadas para isso e é assim que se sentem socialmente coerentes.

Qual modelo é o certo? Qual modelo é o errado?

Bom, eu não acredito em certo e errado em escala tão genérica. Só sei dizer o que funciona para mim e o que não me convém.

Que cada um escolha aquilo que lhe agrade e respeite. E ponto final.

O bem e o mal são democráticos

Há coisas melhores do lado de lá e outras, do lado de cá. Eu amo a comida brasileira, mas o café da manhã turco dá de 7×1 no nosso e a culinária árabe é um caso à parte; o hábito (turco) de presentear noivos e recém-nascidos com medalhas de ouro, as quais podem ser trocadas por dinheiro, é simplesmente genial. Quantas vantagens teríamos se essa moda pegasse por aqui…

No entanto, as liberdades individuais conquistadas pelo Ocidente são um paraíso em comparação à realidade oriental e eu não as troco por nada nesse mundo. Com todos os problemas e, até mesmo excessos resultantes dos nossos valores mais “frouxos”, acho o Ocidente muito mais palatável em termos de diretos e tolerâncias à diversidade humana.

O terrorismo também é democrático

Terrorismo é coisa de qualquer ser humano fanático e canalha. Então, não me venha com a tosquice de associar todos os muçulmanos a essa maldade tão destrutiva. Isso é coisa de gente ignorante e preconceituosa!

Matamos em nome de causas na banda de cá e na banda de lá, infelizmente. A diferença é apenas o modo de se classificar o que é terrorismo e o que não é. Ambos os lados são coniventes com os seus e implacáveis com o outro, e a imprensa de cada um reproduz com fidelidade esse padrão tendencioso.

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Capadócia, Turquia.

Gosto de compartilhar minhas experiências com vocês porque acredito piamente no poder que exemplos concretos têm de substituir ideias dogmáticas por uma visão mais lúcida e experimentada do mundo.

E o que distingue uma pessoa ignorante de alguém consciente não é diploma, dinheiro nem classe social, mas o esforço genuíno para enxergar a realidade tal como ela é ao invés de viver para reforçar suas crenças.

Leia, escute, pondere, desbrave!

O mundo é muito mais rico e múltiplo do que supomos!

A. Oliveira

Padrões de Beleza- Somos Nós que Bancamos

Todo mundo fala da ditadura da magreza, mas poucos ousam mencionar que as mulheres mais fora desse “padrão ideal” são as que sustentam o esquema, seja por indução, seja por vontade própria.

Faça as contas comigo: se no Brasil, a minoria usa manequins 34, 36 e 38, como é que musas fitness e famosas globais têm milhões de seguidoras nas redes sociais?

Quem está endossando esse negócio?

Quem está enchendo o cofre dessas beldades?

Se as mulheres são assim tão passivas nesse sistema opressor, por que as produtoras de conteúdo mais influentes do Youtube Brasil (plataforma supostamente mais democrática que a TV) reproduzem exatamente os mesmos padrões das outras mídias:

pele branca ou pelo menos não tão escura, feições europeias ou pelo menos não tão “africanas”, corpo esbelto ou pelo menos não tão distante dos manequins 36-38, nascidas ou moradoras das regiões sul/sudeste, classe média/média alta?

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Será que o problema está só na sociedade?

Do que mesmo esses veículos sobrevivem?

 Público = Patrocínio = Dinheiro = Poder Social.

Sem o nosso apoio, nada disso se sustentaria. Simples assim.

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Prêmio Geração Glamour
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Casa do Youtube Brasil

Então, precisamos falar com franqueza sobre algumas verdades.

O padrão esbelto e europeu é o mais cobiçado e, portanto, mais rentável socialmente não por força do destino, mas porque nós trabalhamos por isso ao longo da História. Uns impondo, outros acatando. É assim que se estabelece a ilusão de superioridade racial. É assim que continuamos fazendo no Brasil e no mundo. A hegemonia branca continua em pleno vigor e nada mudará até que as pessoas se conscientizem desse absurdo e comecem a fazer escolhas diferentes.

Não há nada de errado em ser branca, magra, rica e famosa. A perversão está na imposição desse perfil em detrimento de todos os outros. O que precisamos é de uma abertura para que os espaços públicos reproduzam com mais coerência a diversidade humana. Só isso.

A mudança só acontece de dentro para fora. Só acabamos com a escravidão porque os indivíduos resolveram dar um basta e se organizaram para isso.

O conceito de beleza é relativo, cultural e elástico. Portanto, quando começamos a nos expor a biotipos mais variados, a nossa opinião sobre o que é belo ou feio se transforma. Então, cuidado com os referenciais de beleza que você anda seguindo.

O mais inteligente é se inspirar em quem lhe serve de espelho mais ou menos imediato.

Ou seja, se você é negra e 90% do conteúdo que consome são de mulheres não negras isso provavelmente vai detonar a sua autoimagem.  O mesmo para as branquinhas que só acompanham mulheres bronzeadas, as mais encorpadas que seguem as magrinhas, as magrinhas que seguem as saradonas. É bom ter cuidado com esses desvios porque a exposição contínua a uma realidade muito distante ou até inalcançável acaba minando a nossa autoconfiança e a sensação de normalidade.

Já existem pesquisas sobre o quão piores as pessoas se sentem ao acompanhar os feeds de seus amigos nas redes sociais. E sabe por quê?

Porque sempre compartilhamos o melhor ou o menos pior de nossas vidas. E todo mundo acaba acreditando que os outros são mais felizes. Um ciclo vicioso que só promove inveja, competição e ressentimento.

O mesmo acontece com a ideia que temos de gente rica e famosa. Inconscientemente, todo mundo julga que a vida dessas pessoas é melhor, o que não necessariamente é verdade.

Então, faça um favor à sua sanidade:

Reveja seus referenciais, hábitos e consumos.

Antes de comprar uma ideia, se pergunte:

Isso vai me ajudar ou atrapalhar?

Isso é saudável para a minha noção de bem-estar e adequação?

Não adianta culpar o mundo e muito menos esperar que ele se conserte para que você possa viver em paz.

Cada um de nós precisa aprender a se gerir de forma autônoma, sábia e realista, ponderando sobre nossos desejos, ideais, frustrações e, principalmente, sobre o rumo que estamos dando para nossa vida.

Quem se sente vítima do mundo precisa de um espelho, precisa de consciência sobre si mesmo e das relações de causa e efeito.

Ou você se governa ou morrerá sendo massa de manobra de qualquer contexto à sua volta.

#NãoSomosObrigados

Homens – Os tipos mais bizarros

O competidor – Long, long time ago, alguém lhe disse que ele é o cara e que a vida é uma versão estendida do desenho Corrida Maluca. A criatura acreditou, agarrou-se à crença e vive para reafirmar seu delírio através dos outros. Enxerga as relações como um jogo de poder em que ele, é claro, tem que estar sempre por cima nem que para isso precise desqualificar, contar vantagens mentirosas, encobrir seus erros ou prejudicar quem lhe pareça uma ameaça.

Dica do bem: Que tal olhar a si e os outros sem desnível nem comparação? Apenas presença humana diante de outra presença humana. Olho no olho e respeito mútuo fazem milagres que manipulação nenhuma jamais fará.

O paquiderme – Com sua tosquice pré-histórica, só falta babar em cima das mulheres, sempre encharcado de obscenidades. Alheio à educação e empatia, não hesita em constranger ou coagir sua presa. Acha que pode tudo só porque nasceu com um pinto. Marca presença ferrenha principalmente em boates, festas de rua, metrô lotado e qualquer lugar que facilite o assédio.

Dica do bem: A coleguinha (ou o coleguinha) NÃO é seu Tamagotchi. Portanto, ao interagir, pergunte, peça licença, negociei. E bem acima do pênis existe um cérebro com bilhões de neurônios. Se você usá-los, tudo ficará mais fácil.

O colecionador – Não sabe apreciar, apenas acumula. Para ele a vida se resume ao seu cercadinho repleto de aquisições, no qual uma mulher é apenas mais um troféu, juntamente com filhos, amigos, carro, perfil no Instagram… Ele não conquista uma companheira, ele a compra. Vive para ostentar e causar inveja.

Dica do bem: Dinheiro compra coisas, serviços e prazeres sociais (inclusive companhia e sexo), mas se por acaso você for assim como o resto da humanidade que depende de afetos sinceros, cumplicidade e confiança para se sentir emocionalmente nutrido, melhor mesmo é se abrir para o corpo a corpo com os coleguinhas sem usar a conta bancária como moeda de troca.

O ditador – O seu hobby é dominar e para isso procura se envolver com mulheres inseguras e dependentes. Sob o pretexto de proteger e agradar, quer decidir tudo por ela. Não suporta uma companheira autônoma e consciente, quer uma súdita que lhe obedeça e venere. Se a parceira for melhor que ele em algo, é guerra na certa.

Dica do bem: Poderoso mesmo é conhecer-se e gerir-se da melhor forma possível, com muito afeto e humildade. Enquanto você tiraniza os outros, quem está vivendo a SUA vida?

O caridoso – O bonitão é tão incrível, tão estonteante que em sua cabeça, ele faz um favor ao deixar que uma reles mortal desfrute de sua presença e maravilhas anatômicas. Tudo gira em torno dele e de suas façanhas. A mulher não passa de plateia. Se pudesse, transava e casava consigo mesmo, já que não há, em toda a extensão do globo terrestre, uma pessoa à atura.

Dica do bem: Você é único exatamente como todo o resto da humanidade. Melhor desmontar o circo e tirar a purpurina.

 Obviamente que esses perfis também se aplicam à mulherada. Mas como eu nunca havia dedicado um post às neuroses masculinas, achei justa a homenagem.

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O que aprendi trabalhando em cruzeiro

Entre o fim de 2010 e início de 2011, lá estava eu dormindo num país, acordando em outro, trabalhando no modo burro de carga e vivendo a experiência mais extremada (no bom e no mau sentido) da minha breve presença neste mundo.

Eu, a garota fresca que só gostava de esforço mental, enfrentando jornadas de 10h diárias sempre em pé e sem NENHUM dia de folga AT ALL, com exceção das 375 mil vezes que fui parar na enfermaria com alguma zica.

Ainda lembro da minha mãe chocada:

– Aline, você não sabe fazer sua cama e vai trabalhar num navio?!!!

Eu: Vou, mãe. Eu dou meu jeito, aprendo. Agora me mostra aí como se faz uma cama direitinho. (A loka!!!)

E as minhas maiores lições desses 3 longuíssimos meses eu compartilho agora com vocês.

Como se desembarca quase 500 passageiros (e suas toneladas de bagagem) num dia e se embarca a mesma quantidade menos de 24 horas depois eficientemente e sem tumulto? Os norte-americanos e qualquer outro povo trabalhado em estratégia, logística, disciplina e consistência têm a resposta. Fazíamos isso toda semana e, por mais que a correria fosse frenética, tudo fluía bem. Eu surtei nos primeiros “embarcation days”, mas depois tirei de letra.

Desenvolver poderes mediúnicos para me locomover dentro de um navio onde todos os corredores são exatamente iguais. Quantas vezes eu me perdi no caminho para minha cabine ou o crew mess (refeitório)? Desisti de contar.

Uma pessoa cujo quarto era um ninho de porco abandonado (antes do navio) pode se transformar num ser evoluído capaz de dobrar mais de 100 toalhas em meia hora sim, senhor (e com o logo na posição certa).

Lavar banheiros é uma das atividades mais terapêuticas que existe. Gosto de fazer isso até hoje. Mas confesso que era ótimo trabalhar para um povo (norte-americanos e canadenses, em sua maioria) avesso a banhos diários, pois lavar e secar quase 20 banheiros em poucas horas não é a coisa mais agradável de se fazer. Houve casos da semana inteira passar e as criaturas só tomarem 1 banho. Sem comentários.

Não há diferença cultural que atrapalhe a boa convivência quando a lei máxima é o respeito. Indianos, europeus, latinos, chineses, africanos, etc. Era lindíssimo de se ver. Ali descobri o quão cosmopolita eu sou, me encanto com heterogeneidades.

Ser simpática e atenciosa abre portas lucrativas. Ganhei gorjetas maravilhosas, casaco, perfume, era tietada por hóspedes, comia horrores. Ê vidão.

Poucas conquistas são mais gratificantes que a superação dos nossos próprios limites. Quanta coisa eu aprendi em tempo recorde e do zero!

arrumar um trolley gigante com toalhas, kits de banho, gelo, produtos de limpeza, aspirar o corredor, levar e buscar roupas na lavanderia, tirar dúvidas dos passageiros, ajudá-los com o colete salva-vidas em dia de drill (simulação de emergência), deixar tudo impecável em qualquer ambiente (incluindo a minha cabine, que era inspecionada regularmente) e sempre trabalhar pela excelência. A experiência num transatlântico 5 estrelas me tornou uma pessoa detalhista e muito mais exigente.

Às vezes, o reconhecimento dos outros faz toda a diferença. Foi por ter ouvido de nativos: “Aly, você morou nos Estados Unidos? Você fala como a gente”, que eu voltei para o Brasil decidida a tentar a carreira de tradutora. Antes disso, achava que não era boa o suficiente.

Viajar e se aventurar pelo mundo é ótimo, mas ter para quem voltar é um privilégio. Amei ver minha família e amigos no porto. Foi uma emoção sem igual. E o orgulho dos meus pais ao me ver falando em inglês com os oficiais não tem preço.

O abismo das desigualdades é profundo. Conviver com o luxo extremo “para os outros” não é a experiência mais acalentadora. Quanta ostentação, quanto desperdício para movimentar uma indústria bilionária.

O desgaste emocional num sistema de confinamento como esse é democrático. Apesar de ter trabalhado no departamento de Housekeeping, tinha contato com alguns dos oficiais e o desespero no olhar deles não era menor que o dos tripulantes em posições menos privilegiadas. Até porque, do capitão ao faxineiro, todos trabalhávamos por 2 ou 3, já que a sobrecarga é um dos pilares desse esquema.

O corpo e o psicológico têm limites bem palpáveis. Era pra eu ficar 6 meses, mas no fim do terceiro, já estava em frangalhos. Meus colegas diziam:

Miss Brazil, você está definhando. Entrou aqui tão bonita…..

Na minha última ida à enfermaria, o médico soltou:

Isso aqui não é pra você, menina. Volta pra casa. Está se acabando.

E eu voltei. Não sem antes passar por um baita susto.

Quinze dias de “Dry Doc” (reforma do navio em que se trocou da fiação ao carpete) em Nápoles (num frio do cacete). O aroma do ambiente era: pó de serra, tinta, verniz e poeira. E eu, nenhum pouco alérgica, sofri desde o primeiro dia. Lá pelo meio do inferno, tive uma crise como nunca. Olhos e garganta queimando, nariz extremamente irritado, puxava o ar e nada. Só lembro de uma colega dizendo:

Você está toda vermelha!

E da minha chefe literalmente me arrastando pelos corredores e esmurrando a porta da enfermaria; fui examinada, me deram uma injeção e eu passei o resto do dia descansando na minha cabine.

Depois disso, trabalhei mais algum tempo até desembarcar no estilo a “Desnutrida do Ano”. Embarquei com os meus 53kg de sempre, voltei com 46. Pra ser magra eu ainda precisava engordar um tanto. Era só testa, cabelo e dente. Hahahaahaha.

Mas valeu cada momento. Conheci lugares incríveis, fiz boas amizades, deixei o nariz empinado de lado e me tornei bem mais humilde e resiliente. Hoje em dia, pouca coisa me intimida porque sei do que sou capaz quando me ponho inteira e determinada. Continuar lendo

Amar é bem melhor que ser amado

Ela chegou no meio de um luto profundo – após meses de luta, seu avô se foi.

Por causa dela, nossa família se uniu, providenciando uma ordenação prática impensável sem sua existência.

Quando soube que seria tia ainda morava fora e só cheguei ao Brasil 1 mês e meio antes do seu nascimento. Mas um único contato bastou. Ganhei uma nova ocupação: ser tia da Ana Júlia.

Na sala de espera da maternidade eu me agitava, ansiosa, desconcertada. Queria ser a primeira da fila, vigiava o relógio na parede e o segurança controlando a passagem.

Um segundo após a liberação, corria desembestada pela rampa, abandonada de mim mesma.

Beijo na irmã, duas ou três palavras e o colo. Sentada na poltrona de amamentação, eu era abrigo e ela, remédio para todas as minhas dores e saudades; pela primeira vez o toque naquele serzinho minúsculo, tão puro de tudo. Eu desejei mais que a eternidade.

Os meses voaram e no fim deste mês Aninha completa seu primeiro ano de vida sendo pra mim exatamente o que foi desde o princípio:

fonte de cura, amor, redenção.

Alívio para os meus cansaços e desgostos existenciais.

E com ela vou aprendendo a amar para além dos meus egoísmos e reivindicações. Namoro suas fotos e vídeos incansavelmente. Choro com seu sorriso sem razão aparente.

Só porque ela existe

Só porque ela desabrocha com vigor e graciosidade

Para os budistas, só é amor se o foco for a felicidade do outro. Caso contrário, não passa de apego.

Então, que seja amor sempre! Que eu aprenda a transbordar na direção de seu bem-estar e que não me falte energia para ser mais um apoio em sua vida até o último momento.

Amar sem pretensões ou correntes

Deixar que o outro se exerça dignamente à sua própria maneira

Amparar e orientar sempre que necessário

Esse é o caminho que escolho todos os dias para mim e para aqueles que amo

porque de todas as maravilhas deste mundo,

o amor é o Bem Supremo

Aquele que nutre, sela e perpetua

a própria vida.

Onde o amor desabrocha,

a luz prevalece.

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A Detenta, o Ditador e a Liberdade

Na tela do metrô a bizarrice de um cientista chinês que se casou com a robô que ele mesmo projetou. À minha direita uma moça abana a cabeça incrédula. Nos olhamos e rimos em seguida.

Conversa banal até que ela revela, toda orgulhosa, que aquele era o seu primeiro dia de liberdade após 5 anos na prisão.

Eu: O que você aprontou, hein menina? (Risos)

Ela: Tráfico. Peguei 9 anos, tô no semiaberto. (Aponta para a tornozeleira eletrônica). Deixei meus meninos pequenos. O menor tinha acabado de começar a falar.

Eu: Mas agora aprendeu, né? Não vai mais fazer isso…

Ela: De jeito nenhum. Aquilo lá não é vida, moça. É muito ruim perder a liberdade.

Descemos juntas na mesma estação. Ela, bem falante e animada. Eu, caladinha, só ouvindo, absorvendo aquele tipo de experiência tão drasticamente distinta da minha realidade. E antes que cada uma seguisse seu caminho, lembrei de dizê-la:

Muito boa sorte e parabéns!

Trocamos sorrisos e um adeus.

O encontro mudou o meu dia. De repente, toda a relevância do que eu tinha pra fazer se esvaiu. Saí da estação remoendo:

“cinco anos presa” “cinco anos sem pôr o pé na rua” “cinco anos de privações de toda a ordem”

CINCO ANOS

Eu morreria!

Livro “A vida privada de Stálin”, uma biografia bem crítica e ousada sobre um dos piores ditadores da História.

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Peguei-o na prateleira de uma livraria por acaso. Minutos depois já havia lido 60 páginas.  As obscuridades humanas me atraem num nível pouco moderado.

Infância pobre, pai alcoólatra e violento. Mãe repressora. Inteligência acima da média, colégio interno, amor pelos livros, obsessão por conhecimento, adoração por Lenin, fome de grandiosidade, idealismo totalitário, devoção sobrenatural à causa para “libertar o povo do czarismo”, crueldade sem limites.

Na juventude, muitas prisões, exílios, fugas e privações. A pior delas durou uns 3 anos no meio da Sibéria, de lá não deu pra fugir.

Combateu o czarismo. Anos mais tarde, bem munido de poder e retórica, assumiu o lugar daquilo que arriscou a vida para combater, fez-se czar, sobrepôs-se a tudo e a todos.

Stálin chegou aonde queria, fundiu seu nome à história da Rússia e do mundo. Mas não sem um custo proporcionalmente desmedido.

Morreu só e vítima do esquema de conspiração, violência e indignidades que ele próprio arquitetou durante anos no poder.

Morreu escravo de si e da causa, sem liberdade e totalmente impermeável à vida comum.

Nenhum inimigo externo é mais vil que as nossas próprias fomes.

Nenhuma ação do meio é mais nefasta que o sim dado por cada um de nós para tudo aquilo que destrói a liberdade humana.

Morremos como vivemos

Colhemos o que plantamos

A tragédia é nunca saber o peso de nossas escolhas até que elas se materializem.

Confira outras resenhas aqui

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O que a minha vaidade odeia admitir

Eu só posso existir em mim, pois é aqui dentro que sinto, penso e desejo.

É a partir da minha dimensão individual e solitária que interajo com as pessoas. Então, a hierarquia é: primeiro eu, depois o outro, o mesmo do lado de lá (eu preciso entender que a prioridade do coleguinha é ele próprio e não eu).  É assim que nasce empatia e compaixão verdadeiras.

Tudo o que eu faço é por conveniência própria, mesmo quando o beneficiário da ação é o outro.

Sempre miramos no prazer. A única coisa que varia é o foco. Quando me dou um presente, todo o benefício está concentrado em mim, quando presenteio alguém, o meu prazer é ver a felicidade do outro.  De qualquer maneira,  estou incluída, não há como ser diferente.

Então, cut the crap!

Essa palhaçada de dizer: faço tudo pelo outro, não me importo comigo é delírio, ausência total de um conhecimento mínimo sobre a própria natureza. A pessoa com esse grau de fantasia raramente será uma boa companhia para si e para os demais.

O meu bem-estar é responsabilidade minha e nunca do outro.

O brasileiro tem dificuldade em entender isso. Se pudesse, exigiria Bolsa-Amor, Bolsa-Sexo, Bolsa-Viagem dos Sonhos e por aí vai. Cada um ganhou da vida uma existência única e intransferível.

A natureza foi clara e contundente: se vira, criatura! Essa lógica burra de “eu me abandono pra lhe servir e você faz o mesmo por mim” é furada. Muito melhor cada um se amparar por conta própria, solicitando ajuda externa quando ela for realmente indispensável (casos de impotência psicológica, material, física, etc.).

A minha liberdade é ampla, porém, finita.

Ninguém pode tudo. O universo tem leis, ordenação, ciclos e todos nós estamos submetidos a esse contexto, sem contar nos impedimentos impostos pela vontade dos outros. Então, o grau de autonomia que uma pessoa conquista na vida está diretamente relacionado ao tanto de esforço que ela aplica nessa direção.

Liberdade é como músculos, precisa ser desejada e desenvolvida, dentro é claro do contexto e gama de recursos de cada um. Desconfie de uma pessoa cheia de desculpas para o seu fracasso pessoal. O que lhe falta não é sorte, mas sim vergonha na cara para enfrentar os inimigos do sucesso: preguiça, vaidade, orgulho, medo dos tombos, ignorância, autoindulgência, falta de boas estratégias, de autoconhecimento etc.

Afeto e vínculos não se compram nem vingam do nada.

Não adianta forçar a barra disferindo elogios falsos aqui e ali nem se iludir com onda do momento de que tudo é efêmero e substituível. O mundo acelerou, a solidez deu lugar a interações muito mais fluidas e dinâmicas, mas o amor continua dependendo de um cenário minimamente sólido para vingar, ou seja, ele precisa de respeito, afinidades e investimento recíproco para se desenvolver.

Não interessa se a nossa geração sobrevive de aplicativos. Continuaremos a mercê do tempo de maturação toda vez que quisermos algo mais aprofundado.

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Desejo(s)

Dane-se qualquer script de linearidade!

A mim a vida toca pela anarquia dos afetos.

Vivo pelo que amo,

Como, compro, convivo, brigo pelo que amo

em mim e nos outros.

Pessoas, lugares, livros, ideias, cheiros, gostos, olhares….

É tudo obra dos afetos,

desejo de tato, boca, abraço

Vontade de suprimir as distâncias

entre o que sou e o que me falta

É tudo afeto, do ódio ao amor

do murro ao beijo

E eu me afeto!

Desculpe pela ausência, pessoal. Maratona de 15 dias com muita tradução, numa rotina de 10-15h diárias. Estava meio oca.

Beijos e feliz Páscoa.

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