O que aprendi trabalhando em cruzeiro

Entre o fim de 2010 e início de 2011, lá estava eu dormindo num país, acordando em outro, trabalhando no modo burro de carga e vivendo a experiência mais extremada (no bom e no mau sentido) da minha breve presença neste mundo.

Eu, a garota fresca que só gostava de esforço mental, enfrentando jornadas de 10h diárias sempre em pé e sem NENHUM dia de folga AT ALL, com exceção das 375 mil vezes que fui parar na enfermaria com alguma zica.

Ainda lembro da minha mãe chocada:

– Aline, você não sabe fazer sua cama e vai trabalhar num navio?!!!

Eu: Vou, mãe. Eu dou meu jeito, aprendo. Agora me mostra aí como se faz uma cama direitinho. (A loka!!!)

E as minhas maiores lições desses 3 longuíssimos meses eu compartilho agora com vocês.

Como se desembarca quase 500 passageiros (e suas toneladas de bagagem) num dia e se embarca a mesma quantidade menos de 24 horas depois eficientemente e sem tumulto? Os norte-americanos e qualquer outro povo trabalhado em estratégia, logística, disciplina e consistência têm a resposta. Fazíamos isso toda semana e, por mais que a correria fosse frenética, tudo fluía bem. Eu surtei nos primeiros “embarcation days”, mas depois tirei de letra.

Desenvolver poderes mediúnicos para me locomover dentro de um navio onde todos os corredores são exatamente iguais. Quantas vezes eu me perdi no caminho para minha cabine ou o crew mess (refeitório)? Desisti de contar.

Uma pessoa cujo quarto era um ninho de porco abandonado (antes do navio) pode se transformar num ser evoluído capaz de dobrar mais de 100 toalhas em meia hora sim, senhor (e com o logo na posição certa).

Lavar banheiros é uma das atividades mais terapêuticas que existe. Gosto de fazer isso até hoje. Mas confesso que era ótimo trabalhar para um povo (norte-americanos e canadenses, em sua maioria) avesso a banhos diários, pois lavar e secar quase 20 banheiros em poucas horas não é a coisa mais agradável de se fazer. Houve casos da semana inteira passar e as criaturas só tomarem 1 banho. Sem comentários.

Não há diferença cultural que atrapalhe a boa convivência quando a lei máxima é o respeito. Indianos, europeus, latinos, chineses, africanos, etc. Era lindíssimo de se ver. Ali descobri o quão cosmopolita eu sou, me encanto com heterogeneidades.

Ser simpática e atenciosa abre portas lucrativas. Ganhei gorjetas maravilhosas, casaco, perfume, era tietada por hóspedes, comia horrores. Ê vidão.

Poucas conquistas são mais gratificantes que a superação dos nossos próprios limites. Quanta coisa eu aprendi em tempo recorde e do zero!

arrumar um trolley gigante com toalhas, kits de banho, gelo, produtos de limpeza, aspirar o corredor, levar e buscar roupas na lavanderia, tirar dúvidas dos passageiros, ajudá-los com o colete salva-vidas em dia de drill (simulação de emergência), deixar tudo impecável em qualquer ambiente (incluindo a minha cabine, que era inspecionada regularmente) e sempre trabalhar pela excelência. A experiência num transatlântico 5 estrelas me tornou uma pessoa detalhista e muito mais exigente.

Às vezes, o reconhecimento dos outros faz toda a diferença. Foi por ter ouvido de nativos: “Aly, você morou nos Estados Unidos? Você fala como a gente”, que eu voltei para o Brasil decidida a tentar a carreira de tradutora. Antes disso, achava que não era boa o suficiente.

Viajar e se aventurar pelo mundo é ótimo, mas ter para quem voltar é um privilégio. Amei ver minha família e amigos no porto. Foi uma emoção sem igual. E o orgulho dos meus pais ao me ver falando em inglês com os oficiais não tem preço.

O abismo das desigualdades é profundo. Conviver com o luxo extremo “para os outros” não é a experiência mais acalentadora. Quanta ostentação, quanto desperdício para movimentar uma indústria bilionária.

O desgaste emocional num sistema de confinamento como esse é democrático. Apesar de ter trabalhado no departamento de Housekeeping, tinha contato com alguns dos oficiais e o desespero no olhar deles não era menor que o dos tripulantes em posições menos privilegiadas. Até porque, do capitão ao faxineiro, todos trabalhávamos por 2 ou 3, já que a sobrecarga é um dos pilares desse esquema.

O corpo e o psicológico têm limites bem palpáveis. Era pra eu ficar 6 meses, mas no fim do terceiro, já estava em frangalhos. Meus colegas diziam:

Miss Brazil, você está definhando. Entrou aqui tão bonita…..

Na minha última ida à enfermaria, o médico soltou:

Isso aqui não é pra você, menina. Volta pra casa. Está se acabando.

E eu voltei. Não sem antes passar por um baita susto.

Quinze dias de “Dry Doc” (reforma do navio em que se trocou da fiação ao carpete) em Nápoles (num frio do cacete). O aroma do ambiente era: pó de serra, tinta, verniz e poeira. E eu, nenhum pouco alérgica, sofri desde o primeiro dia. Lá pelo meio do inferno, tive uma crise como nunca. Olhos e garganta queimando, nariz extremamente irritado, puxava o ar e nada. Só lembro de uma colega dizendo:

Você está toda vermelha!

E da minha chefe literalmente me arrastando pelos corredores e esmurrando a porta da enfermaria; fui examinada, me deram uma injeção e eu passei o resto do dia descansando na minha cabine.

Depois disso, trabalhei mais algum tempo até desembarcar no estilo a “Desnutrida do Ano”. Embarquei com os meus 53kg de sempre, voltei com 46. Pra ser magra eu ainda precisava engordar um tanto. Era só testa, cabelo e dente. Hahahaahaha.

Mas valeu cada momento. Conheci lugares incríveis, fiz boas amizades, deixei o nariz empinado de lado e me tornei bem mais humilde e resiliente. Hoje em dia, pouca coisa me intimida porque sei do que sou capaz quando me ponho inteira e determinada.

2 comentários sobre “O que aprendi trabalhando em cruzeiro

  1. Confesso que hoje, sou o que sou, porque trabalhei embarcada. Apesar de ter ficado muito mais tempo que você… 🙂 Foram 3 contratos na Royal, 2 na Princess, 5 na Oceania, 1 na SilverSeas – navio NUNCA MAIS, apesar de dizerem que não devemos usar NUNCA.
    Foi um prazer ter participado do Dry Dock do Insignia com vc. 🙂 Te desejo sorte em terra e lembre-se, somos vizinhas agora, venha me visitar!!! Bjs!

    Curtido por 1 pessoa

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