Prostituição e a Manutenção da Espécie

Numa entrevista para o Bial, o médico Drauzio Varella relata uma cena muito tocante. Depois de ser tratada de uma doença ginecológica e se sentir muito agradecida, a detenta diz:

“Como é que eu vou agradecer esse homem que me ajudou tanto, ele que tem tudo e eu que não tenho nada? Então, eu decidi que daria pro senhor a única coisa que eu tenho pra dar [o corpo]”.

Trecho a partir do minuto 15:30.

Prostituição vai muito além da troca tradicional de sexo por dinheiro, o que nos leva a 2 categorias básicas de prostitutas (o que também se aplica, obviamente, a homens):

1.Prostitutas Comerciais – No Ocidente, são as discípulas de Maria Madalena e atendem em casas de prostituição, ruas ou fazem book rosa , testes do sofá, etc.

Foco principal: dinheiro.

2. Prostitutas Relacionais – São, ou pelo menos devem aparentar ser, propriedade de um homem só, preenchem vagas de amantes, namoradas e esposas abertas por clientes interessados em comprar companhia feminina de um jeito menos tosco e socialmente respeitável.

Foco principal: amparo psicológico e/ou ascensão social/existencial –  Subir na vida, ter filhos legítimos, fugir de uma situação familiar degradante, ganhar liberdades sociais, ter vida sexual ativa sem perseguição, etc.

E aqui chegamos num ponto extremamente crítico. Se prostituição significa prática sexual em troca de algo (e não apenas dinheiro), que mulher, em nível absoluto, escapa ilesa? Quem nunca, jamais?

Hummm, prefiro nem comentar…

Comercializar o corpo, assim como qualquer outra coisa, significa a existência de um contexto padrão:

demanda + oferta

numa ponta = desejo ou necessidade de algo.

no meio = a frustração da escassez. Eu quero ou preciso disso, mas não o tenho à minha disposição.

na outra ponta = uma fonte real ou imaginária contendo exatamente aquilo que eu quero ou desejo.

É preciso que alguém seja (ou pelo menos se sinta) pobre de algum bem de valor material ou imaterial e ao mesmo tempo tenha algum atributo relevante para decidir, consciente ou inconscientemente, se vender.

E como a lista de carências reais e imaginárias do ser humano é tão múltipla quanto a própria vida, e carregamos em nós um impulso imperioso de trocar, dar, receber, o mercado da prostituição explícita e velada está devidamente resguardado e com vigência correspondente à permanência humana sobre a Terra.

Quero Fazer Transição – E agora?

Por onde começar? O que fazer? O que NÃO fazer? O que esperar? O que não esperar?

É óbvio, mas faço questão de frisar que:

CADA CASO É UM CASO

porque

CADA CABEÇA É UMA CABEÇA

E as crenças e rotas que o SEU juízo escolhe é o que dá o tom de todo o processo.

Este post não é um passo a passo da transição em si. Isso você encontra aos montes na Internet. O que eu quero compartilhar aqui são dicas de cuidados psicológicos indispensáveis para uma transição bem feita e sustentável.

Aviso

Transição capilar é coisa delicada e bem radical. Não comece se seus argumentos ainda estiverem fracos porque é preciso um grau razoável de convicção par aguentar todos os contras internos e externos.

Facilitadores da Transição

Mente saudável- Voltar às origens significa libertação e isso não tem NADA a ver com se punir e/ou se submeter ao julgamento dos outros.

Assisti a vários vídeos de meninas que sofreram horrores (vibe “sangue, suor e lágrima”) justamente por não terem preparado bem o psicológico para a transformação.

Não precisa ser da forma mais tortuosa e inconsciente. Você pode chegar lá pelo caminho mais curto, SIM! Basta querer e investir em INFORMAÇÃO E COMPROMETIMENTO.

Minhas Dicas

Cabelo Saudável – Antes de parar com a química, gaste um bom tempo fortalecendo o seu cabelo, caso ele não esteja em bom estado, pois a tendência é a sua raiz crescer toda zoada e, aos poucos, o visual ir se transformando em algo bem bizarro. Tipo isso aqui:

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Fase de antenas biônicas. Que miséria da moléstia!
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Pode usar para espantar as baratas de casa.

Invista em hidratação, reconstrução e umectação ANTES, DURANTE e PRA SEMPRE (inclusive depois de morrer) porque é esse cuidado regular que vai deixar seu cabelo bonito e maleável.

Aceitação Realista – O cabelo da coleguinha é DELA. O seu é o SEU. Não adianta querer que os seus fios tenham a mesma textura daquela blogueira mega famosa, linda e bancada por marcas porque cada um é cada um.

Existem cabelos lisos, ondulados, cacheados com raiz lisa, cacheados crespos e, por fim, crespos com pouco ou nenhum cacho.

Descubra qual é o seu e abrace a ideia!

E se você já sabe, mas tem vergonha, melhor trabalhar a cachola primeiro porque o autopreconceito é uma desgraça. E eu nem preciso dizer que ele vai crescer junto com o seu cabelo e lhe afogar num mar de lágrimas (Ê Maria do Bairro!!!)

Como disse neste post aqui, a transição também é psicológica.

Sabedoria – A transição é demorada, chata e nos coloca em várias saias justas. Portanto, quanto mais paciência e cuca fresca você tiver, melhor. Faça o melhor que puder, supere os transtornos que surgirem e CURTA cada fase porque vale muito a pena! É um mundaréu de descobertas e aprendizados que você levará pra vida.

Ótimas Referências – Siga pessoas SENSATAS que já passaram por essa fase no Youtube, Instagram, Facebook etc., pois esse patrocínio visual ajuda bastante.

Eu mesma já nem me lembrava como era ter cabelo cacheado e estranhei bastante no início da mudança. Até porque não convivo com crespas e cacheadas naturais. Mas à medida que comecei a receber feeds de meninas assumidas, fui naturalizando toda a coisa e me animando com o dia em que chegaria a minha vez também.

E quando a mente está sã, todo o resto flui que é uma beleza.

Hoje vivo a fase do curtinho natural, período pós big chop, e estou amando.

Parecendo até gente. Oh meudeuso!

Semana passada, comprei um lenço aramado e aprendi algumas formas de usá-lo. Nada muito expressivo, pois me falta coordenação motora pra isso, mas eu chego lá.

Ainda tenho uns caminhos de rato nas laterais, não sei muito bem como finalizá-lo, tenho um milhão de dúvidas sobre como será quando o black crescer. Mas para todos os pontos de interrogação na minha mente, dou a mesma resposta:

Quando chegar lá, a gente vê!

Amor é aquilo que prevalece, transpassa e perdura, mesmo com todas as dúvidas, medos e cansaços. E porque eu não sou perfeita, todos os meus “eu te amo” dividem espaço com os meus “apesar de”.

Que venham todas as fases, fáceis e difíceis.

E que eu continue encontrando a rota  certa para acolher o que o espelho me revelar.

O que eu faria sem os “Nãos” da vida?

Eu era bem jovem. Talvez uns 12/13 anos. Queria aprender inglês para morar na Inglaterra e ser escritora bilíngue também, mas minha família não podia pagar por um curso.

Eu poderia ter desistido ou jogado o projeto na gaveta de “coisas que farei quando tiver um emprego/dinheiro”. Mas optei pela rota que as pessoas mais pobres de recursos e não de iniciativa sempre escolhem:

Eu decidi me virar com o que tinha.

Comecei a traduzir as minhas músicas prediletas (do meu jeito, é claro)

Fui a um sebo e comprei uma gramática inglesa da Cambridge (porque eu sou Posh, desculpa aí!!)

Passei a escrever em inglês no meu diário – Levava 10 anos para terminar uma página e meu sexto sentido dizia:

tá uma merda, mas vá na fé que um dia melhora.

Passava horas no quintal de casa cercada de anotações e nem aí para novelas, esmaltes, crushs (que na minha época tinha um nome bem menos gourmet) ou qualquer coisa que, geralmente, ocupa a mente das adolescentes.

Já na era do MSN (sim, estou ficando meio passada), eu parti para os bate-papos com falantes de inglês. Sentava na frente do PC, abria o meu hiper mega blaster dicionário Michaelis (de papel) e fazia o que dava:

praticava o que sabia (ou pensava que sabia), passava vergonha com meu portunhês de raiz, me divertia quando o papo era bom, vibrava com qualquer elogio e me desviava das taradices de uns e outros.

Dessa época, eu guardo um grande amigo inglês que não conheço pessoalmente, mas com quem tenho conversas incríveis até hoje. Na minha crise de 2016, ele era uma das companhias mais preciosas que eu tinha.

Valeu, Dan.

Valeu, WhatsApp! 🙂

Só fui fazer curso de inglês quando estava na faculdade de Letras e no modo relâmpago, já que me nivelaram no último livro e eu peguei meu certificado em 2 meses.

Numa ida à unidade pra fazer sei lá o que, eu descobri que me chamavam de “a mutante” por causa do tempo um tanto apressado em que concluí o curso. Carinhosos, não?

Graduação em Letras, trabalho em transatlântico norte-americano, vida no exterior e TUDO isso por causa do que a Aline adolescente escolheu pra si há quase 20 anos.

Por ter decidido plantar em vez de me lamentar, acabei colhendo frutos muito mais suculentos do que o esperado. E hoje, quando me pego esparramada numa poça de preguiça e corpo mole, eu me lembro dessa menina sem eira nem beira que foi tão confiante, estratégica e disciplinada.

Eu devo à ela tudo que conquistei na fase adulta.

E quando o sonho parece muito distante da minha realidade?

E quando eu desejo algo com toda a minha audácia, mas na hora da prática, empaco?

Bom, nessas horas, digo a mim mesma:

SE JOGA!

Dê o primeiro passo!

Saia do zero a zero!

E quando chegar lá, a gente vê!

 

Dica do Dia

Se você quer muito conquistar algo, comece AGORA, criatura!

Essa coisa de:

amanhã eu faço,

quando eu tiver isso/aquilo, eu começo

Se não fosse por isso/aquilo, eu faria

não passa de fuleragem do demônio preguiçoso, lamuriento e desgraçado que habita as mentes de todos nós.

Não caia nessa senão a vida passa, os sonhos desbotam e todo o viço mingua.

Não vai ser tão fácil quanto se acomodar em qualquer zona de conforto empoeirada, mas se você escolher o que, de fato, lhe enche de entusiasmo, a colheita pagará cada punhado de tempo, energia e vigor investido.

E o que os outros vão pensar?

Quem não vive com essa frase ecoando na cachola que pegue sua carteirinha de iluminado(a) e ascenda ao céu imediatamente!

Somos todos podados pela influência dos outros, somos todos criadouros das vozes do mundo, que surgiram primeiramente na forma de mãe/pai e, com o tempo, foram se multiplicando e adquirindo mais complexidade.

Até certo ponto, essa repressão é positiva e muito saudável. Tenho pavor de imaginar a natureza humana 100% orgânica, extra virgem e cultivada sem nenhum aditivo educador.

Quanta fúria e absurdos não cuspiríamos a torto e a direito?

Quanta gente eu não socaria até a morte?

Não, a nossa caixa de Pandora não deve ser escancarada, pois nos comeríamos vivos em dois tempos, a começar pela própria família. E bye bye humanidade!

Mas toda forma de extremo resvala em doença.

Um ser humano que vive pra não desagradar, almejando tornar-se o suprassumo da adequação e bondade, contraiu uma das demências mais insuportáveis que há.

[Sem contar que não há vida que prospere sem uma ótima dose de autonomia existencial]

Saí de casa aos 19, morei em vários lugares, dei uma boa volta ao mundo, me casei, descasei, quebrei a cara umas 377 mil vezes, vivi momentos incríveis umas 100 mil vezes e cá estou, quase com 30, mais solta e convicta de quê:

vale MUITO a pena ligar a tecla “foda-se” toda vez que as vozes dos outros empatarem o fluir natural do meu bem-viver;

vale MUITO a pena assentar-me debaixo da minha PRÓPRIA consciência e fazer o melhor que eu puder com os recursos disponíveis sem perder tempo me comparando com os demais;

vale MAIS a pena ainda me perceber numa jornada ÚNICA e INTRANSFERÍVEL de descobertas e aprendizados, onde as experiências dos outros servem apenas de inspiração, mas nunca de molde.

E o que os outros vão pensar?

Problema deles

#NãoSouObrigada

Vida de Tradutora Autônoma – trevas e luxos

Em comemoração aos meus quase 7 anos de tradutora, nada mais justo do que discorrer sobre essa caminhada um tanto extensa que não só viabilizou grande parte das minhas aventuras como também moldou a minha visão de mundo.

No começo, eram as trevas

Cortei um dobrado prestando serviço pra agências pequenas. Ganhava mal, trabalhava no limite e pra coroar, levei um baita calote de um cliente que não só faliu como também morreu.

Lembro-me bem daquele aniversário de 24 anos que passei sem um puto no bolso, apesar de ter trabalhado freneticamente o mês todo. Chorei de raiva, nem quis sair pra comemorar e pensei seriamente em desistir. Mas aos poucos o caminho desembaçou e fui me situando.

Minha maior dificuldade sempre foi e continua sendo o mercado – fechado e bem difícil (pelo menos para mim e minhas amigas tradutoras). E com o trauma dos calotes já no início, fiquei mais ressabiada ainda em me arriscar por novos caminhos.

Também sofri com os efeitos colaterais da minha preguiça escandalosamente agravada pela profissão.

Tornei-me ainda mais sedentária, quase desenvolvi tendinite, ganhei uma baita sensibilidade à luz, além da apatia generalizada. Pra eu me tirar de casa, preciso inventar mil e um malabarismos e driblar essa vontade louca de me calcificar na cama sem pensar no amanhã.

Mas os ganhos são fenomenais! Aprendo tanto sobre uma infinidade de assuntos que é impossível não me sentir privilegiada.

Eu me especializei na tradução técnica de patentes de invenção e, nesses anos, raramente tive contato com outros tipos de textos, o que tem seus prós e contras.

O lado negativo é que tenho pouca familiaridade com o inglês coloquial. Passo perrengue com termos comuns e expressões idiomáticas. Pra mim, é muito mais fácil traduzir a estrutura de uma aeronave, um método novo de cateterismo ou as últimas inovações no mundo do TI do que dar conta de um diálogo ou entrevista simples.

Sem contar que o tédio me ronda com muito mais frequência, principalmente quando o assunto em questão é muito abstrato para mim. Consigo me entreter de boa com automobilística, medicina e farmácia. Mas que diabos é geofísica, petróleo e gás, metalurgia?? Dá vontade de chorar ou cometer um assassinato em massa.

E quando o texto está mal escrito? Oh, céus! Aí a raiva  evolui para um desejo mórbido de começar a Terceira Guerra Mundial (ou pelo menos sair correndo pelada na rua).

É triste ter que desenvolver telepatia para fazer seu trabalho sossegada. O lado bom é que hoje, só pelo tipo de mancada no texto, eu sei se ele foi traduzido do alemão, japonês ou de alguma língua latina. Ah, meus poderes mediúnicos! 🙂 🙂

Outra vantagem é uma visão muito mais realista e construtiva. O princípio de toda invenção tecnológica é o avanço. Essas mentes brilhantes que existem por aí (mais especificamente nos países desenvolvidos) trabalham para tornar tudo melhor, mais simples e mais barato. E aos poucos, eu fui incorporando esse arquétipo científico/empreendedor com o qual me envolvo diariamente.

Pra mim, é tudo uma questão de método, rota, planejamento, tratamento de dados, solução de problemas e balanços.

Preciso dizer que sou pragmática até o talo? E que também não acredito em sucesso milagroso?

Mas nem tudo é razão. Há muito de criatividade e variantes peculiares também, pois a vida sempre extrapola os enquadramentos lógicos que nós usamos para manipulá-la. Por isso, meu lema é ter sempre:

método e alma

E de tudo que eu ganho com essa profissão, dois tesouros me enchem de viço:

fonte abundante de conhecimento e desafios – a cada projeto novo, o ciclo de aprendizado recomeça e eu preciso mesclar técnica e sensibilidade para dar ao texto o tratamento necessário.

liberdade e mais amplitude – havendo wifi, tomada, um assento e silêncio, qualquer lugar é lugar para mim neste mundão. Tanto faz o país. Eu me viro!

Mas calma!Não vá pensando que a minha vida é sombra e água fresca!

O negócio é zero glamour e muito esforço.

Encaro jornadas de 10-15 horas diárias quando o projeto é grande, complicado ou com prazo de entrega curtíssimo.

Fim de semana e feriado livres só tenho quando a agenda permite, o que raramente ocorre.

Se tem tradução, eu ganho. Se o momento é de penúria, fico a ver navios. Então, além de ganhar dinheiro, também preciso saber como gastá-lo e fazer minha reserva.

Não tenho direito a férias remuneradas, décimo terceiro, FGTS, auxílio desemprego e NADA dessas benesses da CLT. Contribuo com o INSS e pronto. Se eu não quiser trabalhar até morrer, terei que fazer meu pé de meia. Simples assim. E quando quero dar um break, lá vem a hora do planejamento de gastos e tudo mais.

Resumo da Ópera

Vida de tradutora autônoma não é pra todo mundo, pois o perfil exigido é de alguém capaz de:

viver lendo e aprendendo PARA SEMPRE – Se você é do tipo que sonha em conquistar um diploma e parar por aí, esqueça!

ter iniciativa e MUITA autonomia – Pessoas que precisam de um chefe cobrando e fiscalizando para render, nem tentem. Você é seu patrão e ninguém mais. Se der conta, progride, se furar com os clientes ou entregar uma tradução com baixa qualidade, tchau!

ser organizado e gostar de planejar – Tudo precisa ser calculado: preço da tradução, prazo de entrega, rendimentos mínimos para cobrir as despesas mensais, porcentagem de impostos, grau de dificuldade do texto e umas coisitas mais.

Se penso em largar tudo e ter mais segurança? Claro!

Nem sempre é agradável ter tanta incerteza e responsabilidade nas costas. E de tempos em tempos, sofro uma crise profunda de desencanto com o meu trabalho, o que compenso preenchendo meus dias com novidades, lazer e outros tipos de experiências. Dali a pouco, a pirraça passa e faço as pazes com minha sopa de letrinhas outra vez.

E de uma coisa eu tenho certeza:

Estou e sou tradutora, não só de patentes de invenção, mas de tudo que me detém e intriga, o que inclui impulsos, pessoas, relações, conceitos e toda a sorte de coisas que  há no mundo.

Eu vivo pra traduzir a mim e aos outros

Eu vivo para criar pontes!

Transição Capilar e Psicológica – desafios, recompensas e lições

Passei um bom tempo amadurecendo a ideia para me livrar de uns 16 anos vivendo sob o tormento de:

domar meu cabelo crespo com químicas para não ser estigmatizada,

como se ele fosse o errado….

Eu, como milhões de outras mulheres, nasci e cresci impregnada de conceitos preconceituosos e depreciativos de tudo que contrapõe o padrão europeu de beleza.

Eu, como milhões de outras mulheres, não tinha, na infância, consciência dessa lavagem cerebral tão indecente e, na fase mais crescidinha, não me dei ao trabalho de questionar e superar tanto desrespeito disfarçado de cultura e normalidade.

Até 8 meses atrás, quando decidi ser mais eu e menos a sociedade, com seus valores doentios e extremamente segregadores.

Rio, trinta de setembro de 2016.

Meu aniversário de 28 anos. Terminei uma tradução e passei a tarde no salão fazendo uma  progressiva; a última até o momento. Ali eu já estava quase pronta para o início, só me faltava um pouco mais de orientação prática.

São Paulo, alguns dias depois.

Horas e mais horas assistindo vídeos de transitetes no Youtube, horas e mais horas de conversas comigo mesma. Começava a transição psicológica que serviria de base e abrigo para a transição capilar.

Fui mexer nas minhas crenças, em tudo o que o mundo me ensinou sobre ser negra/crespa; sobre o conceito de belo e feio, rico e pobre, cafona e sofisticado profundamente enraizado na postura:

Dê um jeito nesse cabelo, menina!

Faça um relaxamento, uma progressiva. Vai ficar muito mais “bonito”, “arrumado”, com cara de rica.

Não se engane! Não é só sobre cabelo e estética. É uma questão de saúde psicológica e intelectual também.

Desafios

Como vai ser meu cabelo 100% natural?

Como vou cuidar dele?

Será que vou achá-lo bonito?

E se me ofenderem nas ruas?

E se eu pensar em desistir?

E se…..

Ansiedade e muito medo de não dar conta. Mas comigo o negócio é o seguinte:

missão dada, missão cumprida porque nasci metida a besta! 😉

No início, achava a coisa mais linda aqueles centímetros minguados de cabelo meu (só meu, sem um dedinho de química). Com o passar do tempo, fui me horrorizando com a cena. Eu parecia um demônio ao avesso com aquele tantão de raiz natural e todo o comprimento esticado, sem força e sem vida. Mas para cada choque, um gás extra de iniciativa, informação e produtos de qualidade; mais eu me esforçava para encontrar suporte psicológico e estratégico para atenuar o estrago.

Foi tudo muito ambíguo….

Houve momentos de me sentir a segurança em pessoa, me achando bonita e muito corajosa; noutros, nem passava na frente de um espelho pra não morrer de susto. 🙂

Vivi a fase zero escova e chapinha, depois fui cedendo nos momentos em que tinha algum lugar para ir. E para dar tempo de eu digerir tanta mudança e não me torturar desnecessariamente, dividi o meu big chop em 3 cortes.

Enfim, eu me poupei e respeitei o máximo que pude para que o processo fosse tranquilo e predominantemente positivo.

Todo desafio nos exige um preço a ser pago, mas isso não significa que precisamos vivê-lo sob a cultura cafona do “sangue, suor e lágrima” tão valorizada por estas bandas.

Sem dramas, sem problematização inútil. Mas com muita força de vontade, franqueza, paciência e sabedoria para passar por todas as fases sem surtar nem torná-las um fardo.

Aprendi horrores nesses meses e de todas as lições, a mais valiosa foi o AMOR!

Amor pelo meu cabelo tal como ele é e não como os outros esperam que seja;

amor pelos momentos de intimidade que cultivei cuidando dele;

amor pela minha origem africana (que já admirava antes, mas que agora é muito mais honrada);

amor pelo que a natureza escolheu para ser meus contornos externos.

Seja lá o que lhe ensinaram sobre você, não cometa o despropósito de acatar. Não sem antes investigar a fundo se essa história acolhe e respeita a sua essência e livre arbítrio.

#NinguémÉObrigado

Melancólica, eu?

Não que eu alimente meu lado sombrio e temperamental. Muito pelo contrário. Mas já não ponho energia em escondê-lo, pois decidi transpô-lo com mais franqueza e desprendimento, tirando o maior proveito possível de suas causas.

Para mim, num mundo tão cheio de feiuras e sofrimentos, a ausência de arroubos melancólicos só seria viável pela força de um milagre ou da mais completa alienação; ou, quem sabe, por uma transcendência espiritual definitiva, a qual estou muito longe de possuir…

Minhas fontes de desgostos pessoais, todas associadas a momentos difíceis e idealizações infantis sobre mim mesma e os outros, andam à míngua desde que me pus determinada a curá-las, mas e os outros?

E essa horda de misérias humanas infiltrada por toda a parte, engendrada em todas as classes?

São tantas fomes, tantas dores

infligidas e sofridas…

Somos tão vulneráveis a tudo que corta e sangra

e tão inclinados a mágoas e vinganças….

No discurso abaixo, Angelina Jolie fala do grande dilema que vive ao se perceber tão privilegiada enquanto outras pessoas, com potencial e habilidades semelhantes ou até superiores aos dela não encontram a mesma chance.

O vídeo está em inglês e não tem legenda, pois não achei outra versão.

Meu temperamento melancólico não é recente e sempre dividiu espaço com uma dimensão mais alegre e otimista, talvez por eu ter sido inundada, ainda criança, por duas constatações antagônicas:

a vida é bela e merece ser desfrutada com muito vigor, entrega e autenticidade;

a vida é doída nas mais variadas formas e é preciso coragem para suportar seus momentos dilacerantes sem perder o brilho no olho e a esperança por dias melhores.

Dualidade, ambivalência….

 Abrigo para a luz e a escuridão

para a dor e a alegria.

E para os dias de tristeza, eu intensifico meu coro de gratidão por tudo aquilo que me torna, assim como a Angelina Jolie (só que em escala infinitamente mais modesta rsrs), privilegiada:

vida

saúde

afetos

liberdade

recursos materiais

horizontes contundentes para que eu me exerça e expanda com fluidez e amparo.

E seja lá o que me aconteça no transcorrer dos meus dias, que eu nunca, em hipótese alguma, me desvie da rota que multiplica e preserva todas as formas de bem-viver, posto  que a única maneira sustentável de se erradicar a miséria é cultivando a riqueza.

Idealizar é um Inferno!

O outro

não lê mentes,

não é servente

e

MUITO MENOS

capataz dos scripts que a nossa mente estipula.

[Mas algo dentro do homem acha que sim]

[E se mobiliza para viver de imperialismos]

Quer possuir dominar

submeter

Como se fosse possível

Como se fosse

decente…

VOCÊ tem que me amar

VOCÊ tem que me amparar

VOCÊ tem que me validar

VOCÊ tem que concretizar os sonhos

que EU sonhei (sem o SEU consentimento) para NÓS dois

VOCÊ tem que ME fazer feliz…

Como se fosse possível

Como se fosse

decente…

E lá se foi toda a beleza dos afetos

e o frescor da liberdade.

E aqui fincou-se uma podridão de desgostos

delirantes, caprichosos.

Muitos querendo MULETAS

Poucos se fazendo de ABRIGO

Todos amargando

o VAZIO!