Vida de Tradutora Autônoma – trevas e luxos

Em comemoração aos meus quase 7 anos de tradutora, nada mais justo do que discorrer sobre essa caminhada um tanto extensa que não só viabilizou grande parte das minhas aventuras como também moldou a minha visão de mundo.

No começo, eram as trevas

Cortei um dobrado prestando serviço pra agências pequenas. Ganhava mal, trabalhava no limite e pra coroar, levei um baita calote de um cliente que não só faliu como também morreu.

Lembro-me bem daquele aniversário de 24 anos que passei sem um puto no bolso, apesar de ter trabalhado freneticamente o mês todo. Chorei de raiva, nem quis sair pra comemorar e pensei seriamente em desistir. Mas aos poucos o caminho desembaçou e fui me situando.

Minha maior dificuldade sempre foi e continua sendo o mercado – fechado e bem difícil (pelo menos para mim e minhas amigas tradutoras). E com o trauma dos calotes já no início, fiquei mais ressabiada ainda em me arriscar por novos caminhos.

Também sofri com os efeitos colaterais da minha preguiça escandalosamente agravada pela profissão.

Tornei-me ainda mais sedentária, quase desenvolvi tendinite, ganhei uma baita sensibilidade à luz, além da apatia generalizada. Pra eu me tirar de casa, preciso inventar mil e um malabarismos e driblar essa vontade louca de me calcificar na cama sem pensar no amanhã.

Mas os ganhos são fenomenais! Aprendo tanto sobre uma infinidade de assuntos que é impossível não me sentir privilegiada.

Eu me especializei na tradução técnica de patentes de invenção e, nesses anos, raramente tive contato com outros tipos de textos, o que tem seus prós e contras.

O lado negativo é que tenho pouca familiaridade com o inglês coloquial. Passo perrengue com termos comuns e expressões idiomáticas. Pra mim, é muito mais fácil traduzir a estrutura de uma aeronave, um método novo de cateterismo ou as últimas inovações no mundo do TI do que dar conta de um diálogo ou entrevista simples.

Sem contar que o tédio me ronda com muito mais frequência, principalmente quando o assunto em questão é muito abstrato para mim. Consigo me entreter de boa com automobilística, medicina e farmácia. Mas que diabos é geofísica, petróleo e gás, metalurgia?? Dá vontade de chorar ou cometer um assassinato em massa.

E quando o texto está mal escrito? Oh, céus! Aí a raiva  evolui para um desejo mórbido de começar a Terceira Guerra Mundial (ou pelo menos sair correndo pelada na rua).

É triste ter que desenvolver telepatia para fazer seu trabalho sossegada. O lado bom é que hoje, só pelo tipo de mancada no texto, eu sei se ele foi traduzido do alemão, japonês ou de alguma língua latina. Ah, meus poderes mediúnicos! 🙂 🙂

Outra vantagem é uma visão muito mais realista e construtiva. O princípio de toda invenção tecnológica é o avanço. Essas mentes brilhantes que existem por aí (mais especificamente nos países desenvolvidos) trabalham para tornar tudo melhor, mais simples e mais barato. E aos poucos, eu fui incorporando esse arquétipo científico/empreendedor com o qual me envolvo diariamente.

Pra mim, é tudo uma questão de método, rota, planejamento, tratamento de dados, solução de problemas e balanços.

Preciso dizer que sou pragmática até o talo? E que também não acredito em sucesso milagroso?

Mas nem tudo é razão. Há muito de criatividade e variantes peculiares também, pois a vida sempre extrapola os enquadramentos lógicos que nós usamos para manipulá-la. Por isso, meu lema é ter sempre:

método e alma

E de tudo que eu ganho com essa profissão, dois tesouros me enchem de viço:

fonte abundante de conhecimento e desafios – a cada projeto novo, o ciclo de aprendizado recomeça e eu preciso mesclar técnica e sensibilidade para dar ao texto o tratamento necessário.

liberdade e mais amplitude – havendo wifi, tomada, um assento e silêncio, qualquer lugar é lugar para mim neste mundão. Tanto faz o país. Eu me viro!

Mas calma!Não vá pensando que a minha vida é sombra e água fresca!

O negócio é zero glamour e muito esforço.

Encaro jornadas de 10-15 horas diárias quando o projeto é grande, complicado ou com prazo de entrega curtíssimo.

Fim de semana e feriado livres só tenho quando a agenda permite, o que raramente ocorre.

Se tem tradução, eu ganho. Se o momento é de penúria, fico a ver navios. Então, além de ganhar dinheiro, também preciso saber como gastá-lo e fazer minha reserva.

Não tenho direito a férias remuneradas, décimo terceiro, FGTS, auxílio desemprego e NADA dessas benesses da CLT. Contribuo com o INSS e pronto. Se eu não quiser trabalhar até morrer, terei que fazer meu pé de meia. Simples assim. E quando quero dar um break, lá vem a hora do planejamento de gastos e tudo mais.

Resumo da Ópera

Vida de tradutora autônoma não é pra todo mundo, pois o perfil exigido é de alguém capaz de:

viver lendo e aprendendo PARA SEMPRE – Se você é do tipo que sonha em conquistar um diploma e parar por aí, esqueça!

ter iniciativa e MUITA autonomia – Pessoas que precisam de um chefe cobrando e fiscalizando para render, nem tentem. Você é seu patrão e ninguém mais. Se der conta, progride, se furar com os clientes ou entregar uma tradução com baixa qualidade, tchau!

ser organizado e gostar de planejar – Tudo precisa ser calculado: preço da tradução, prazo de entrega, rendimentos mínimos para cobrir as despesas mensais, porcentagem de impostos, grau de dificuldade do texto e umas coisitas mais.

Se penso em largar tudo e ter mais segurança? Claro!

Nem sempre é agradável ter tanta incerteza e responsabilidade nas costas. E de tempos em tempos, sofro uma crise profunda de desencanto com o meu trabalho, o que compenso preenchendo meus dias com novidades, lazer e outros tipos de experiências. Dali a pouco, a pirraça passa e faço as pazes com minha sopa de letrinhas outra vez.

E de uma coisa eu tenho certeza:

Estou e sou tradutora, não só de patentes de invenção, mas de tudo que me detém e intriga, o que inclui impulsos, pessoas, relações, conceitos e toda a sorte de coisas que  há no mundo.

Eu vivo pra traduzir a mim e aos outros

Eu vivo para criar pontes!

3 comentários sobre “Vida de Tradutora Autônoma – trevas e luxos

  1. Adorei o texto. Ri e me lembrei de um breve período em que fui tradutora de desenhos animados. Também levei calote, mas, na época, deixei de traduzir por outros motivos. É uma profissão pela qual tenho admiração. Ótimo post! Bjo!

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