São Paulo, Oscar Freire – pai dos haters, clichês e um mimo

E desce na Consolação, pega a Bela Cintra sentido Jardins até cair na Oscar Freire. Modo camelo devidamente ativado porque o dia está pra longas caminhadas – sem chuva e com um dedinho de sol que mal se achega à pele.

Quero garimpar, perceber detalhes inusitados,

me sentir bem miúda,

afetada.

Só quando estou nesse astral de andarilha é que me ponho às ruas como turista. Nos outros humores, me recolho, pois a visão está rala e carecendo de ânimo para penetrar nas coisas com a devida agudeza.

O que tem na tão falada Oscar Freire?

Nada que meus olhos se assanhassem. Má vontade ou consequência das minhas memórias? Não sei, mas é bem verdade que depois de Paris, ando meio órfã de arrebatamentos e belezas mais extravagantes.

O que vi já havia sido vivido antes pelas ruas da zona sul do Rio, nos bairros posh de Istambul e por outras bandas aqui e ali.

Cafés e restaurantes charmosos, gente bonita ou, pelo menos com a feiura adestrada, concorrentes das senhoras botocadas de Copacabana, cachorrinhos empinando seus privilégios sociais (bem mais abundantes que os meus), mulheres vestidas para um passeio casual como se estivessem na São Paulo Fashion Week (ou quem sabe na versão de Milão, Nova York, Paris), muitos carrões, alguns conversíveis, grifes e mais grifes…

O tédio já ia me agarrando quando escuto uns berros logo à frente e acelero o passo para bisbilhotar.

Ele gritava com os braços alvoroçados no ar, xingando e encarando o garçom. De passagem pelos dois, escuto:

– Não debocha de mim, não! Tá rindo por quê?

O povo à volta se entreolha, constrangido e com aquela ponta de euforia que o bicho homem sempre deixa escapar em face de um belo barraco. Algo em nós sassarica ao ver as baixarias da espécie escancaradas nos outros.

Só faltava a pipoca.

O briguento parecia morador de rua e eu deduzi que o garçom havia lhe destratado de alguma forma. Lamentei mentalmente e segui meu caminho.

Mais tarde, esparramada num banquinho virado pra rua, eu vi o caso de outro ângulo.

O rei do barraco brotou do nada na mesa de umas senhoras, que tagarelavam entre si na mais pura inocência, com uma cusparada de palavrões e acusações absurdas.

Filha da puta, vagabunda! Não mexe comigo que eu te arrebento.

Lá estava eu novamente gargalhando por dentro com a cena.

As amigas acalmavam a senhora. Uns segundos depois, ele pousava no café ao lado e começava tudo de novo.

Observei-o de longe e soltei o meu típico:

É doido!

[Doido e genial] A síntese de todo hater de Internet que odeia, esbraveja, persegue e intimida com 100% de autonomia em relação à vítima. Aliás, nem precisa de alguém específico e, por isso, qualquer um que lhe dê atenção serve.

Quantos doidos e doidas da Oscar Freire não existem na família, no trabalho e, principalmente, na Internet?

Machado de Assis, que não viu a cena, já estava a par de tudo quando escreveu o seu “Alienista”.

Cansada de andar e moscar, entrei num café e provei o melhor do dia, um reencontro com uma das minhas taras da época de Istambul: ev yapamı böğürtlen meyve suyu (suco natural de amora).

Olhinhos vidrados no copo, saudade engolida bem devagar, que é pra esticar o prazer, e o sabor agridoce que tanto venero foi encobrindo pensamentos, canseira, pés inchados e todo o cenário ao redor.

O melhor do dia!

Prometo voltar. Pelo menos, pelo suco de amora.

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