Nos dias em que eu prefiro morrer…

Nos dias em que eu prefiro morrer, me tranco e me escondo nos cantos confusos de um mundo que é próximo e imenso, com túneis e ascendências; que é turvo, oco e mudo.

Nesses dias, outras gentes não fazem falta porque sou nada e com o nada não se conversa, não se achega.

Desencaixada em mil ladrilhos cintilantes, eu sumo pra ser sopro e sem bordas como um rio desgovernado à espreita e por toda a parte, farejando noutras formas inomináveis de gozo e sofrimentos.

Ali eu morro

envergo

expando.

Os dias em que eu prefiro morrer são eternos e circulares, me afundam a alma num redemoinho de raízes minhas e do mundo inteiro; memórias ludibriantes de uma vida que nem sei se vivo ou se invento com os olhos, nervos, pretextos e medos.

Esses dias tão adensados e roucos emergem (a toda hora  e a qualquer preço) à superfície dos poros porque é neles que moro desde o começo

num entendimento de que sou vida em decorrência e finitude.

 

Já os combati com fúria e mágoa

por me roubarem a ingenuidade e me rasgarem em lucidez irreversível.

Já os odiei sem travas

por me lançarem à solidão dos que duvidam em absurda permanência.

Hoje pouco importa o que imprimem em meus sentidos. Eu já não brigo nem me espanto porque sou eles desde o princípio.

Eu, que sou o centro do universo, merecia muito mais da vida

Na cabeça, um ideal de família; utópico, enfático e apartado dos seres envolvidos; no peito, uma revolta ruminada por anos sem fim nem critério:

Se minha mãe fosse mais competente,

se meu pai fosse menos omisso (ou não tivesse me abandonado),

se meus pais fossem menos protetores,

se eles fossem mais presentes,

se eles se amassem,

se eles não se odiassem,

se eles amassem menos um ao outro e mais a mim,

se eles se ocupassem mais de si e me deixassem em paz,

se eu fosse filha única,

se eu tivesse irmãos,

Se minha família não fosse tão medíocre em relação à grandiosidade da minha própria existência de semideusa erroneamente condenada à vida na Terra (e com esses pobres diabos), tudo seria perfeito!

E eu seria e teria tudo aquilo que “mereço” por direito supremo e soberano.

Como não é bem assim, eu me arrasto pela vida costurada a um pedestal de vítima do mundo, exigindo pateticamente ser ressarcida por cada lágrima, decepção e ofensa sofrida;

porque eu MEREÇO mais da vida!

Porque minha dor e carências são maiores que as deles (os pais) e de todo o resto da humanidade viva, morta, apodrecida desde o início da espécie.

Sem contar que eu, no lugar deles, seria mais amorosa, responsável, provedora, consistente e coerente com meus filhos; ou não cometeria a estupidez de tê-los já que parir é tão cafona e ultrapassado.

Mas se um dia,  meu “eu faraônico” parar de odiar e/ou competir com meus pais, talvez eu me banhe na fonte da sabedoria, que é translúcida, pura, desapaixonada e serena, e volte para o convívio com eles e os outros mais humilde e razoável.

E então, com uma percepção mais panorâmica (e menos egocêntrica) do que é a Vida  cunhada em seres humanos que pensam, amam, odeiam, sangram, ferem, temem e agem sempre à luz da sua própria ignorância/consciência (que é deles e não minha), eu finalmente entenda que cada um (inclusive eu) dá aquilo que tem e nunca o que os outros, por alguma razão legítima ou caprichosa, esperam receber. E que relações vividas a partir de uma negociação realista de demanda/oferta e afinidades são muito mais prazerosas e significativas.

Rótulos, papéis e hierarquias à parte, somos apenas presença humana diante de outras presenças humanas. E o amor só nasce quando essas presenças humanas se notam e se aceitam com clareza de olhos e almas. Em todos os outros casos, tudo não passa de formalidade e cegueira generalizada.

 

Não vou fingir que te amo

Não vou fingir que te amo nem esperar que faça o mesmo por mim. Está tudo bem desse jeito bem rústico. E não seríamos os primeiros.

Amor verdadeiro é coisa tão tinhosa e se escora em tantas variantes, que não se mistura a essas cafonices sociais emporcalhadas de fingimentos convenientes.

Ele, o amor, é insubmisso de ponta a ponta e confia sua ternura apenas a encontros verdadeiros, empoderados por afinidades de alma e temperamento.

Ah, esses encontros.

Tão raros, roucos e prontos.

Deixam o juízo desarmado e os afetos positivos em alvoroço, querendo ser livres, querendo ser amplos.

Não se explicam nem se moldam a nenhum cabresto ou roteiro.

Não transbordam só porque somos mãe e filha, irmãs, vizinhas, parentes, amantes ou assíduos nos mesmos ciclos e recortes.

Também não se acanham porque somos de outros mundos, cores, idades, valores ou passaportes.

Esse amor, que em cada vivente se acomoda e engrossa de maneira exclusiva, é singelo, porém, espaçoso.

Não precisa de luxos nem contratos, mas há de se ter o peito largo e rendido, posto que é brasa e asas!