Eu, que sou o centro do universo, merecia muito mais da vida

Na cabeça, um ideal de família; utópico, enfático e apartado dos seres envolvidos; no peito, uma revolta ruminada por anos sem fim nem critério:

Se minha mãe fosse mais competente,

se meu pai fosse menos omisso (ou não tivesse me abandonado),

se meus pais fossem menos protetores,

se eles fossem mais presentes,

se eles se amassem,

se eles não se odiassem,

se eles amassem menos um ao outro e mais a mim,

se eles se ocupassem mais de si e me deixassem em paz,

se eu fosse filha única,

se eu tivesse irmãos,

Se minha família não fosse tão medíocre em relação à grandiosidade da minha própria existência de semideusa erroneamente condenada à vida na Terra (e com esses pobres diabos), tudo seria perfeito!

E eu seria e teria tudo aquilo que “mereço” por direito supremo e soberano.

Como não é bem assim, eu me arrasto pela vida costurada a um pedestal de vítima do mundo, exigindo pateticamente ser ressarcida por cada lágrima, decepção e ofensa sofrida;

porque eu MEREÇO mais da vida!

Porque minha dor e carências são maiores que as deles (os pais) e de todo o resto da humanidade viva, morta, apodrecida desde o início da espécie.

Sem contar que eu, no lugar deles, seria mais amorosa, responsável, provedora, consistente e coerente com meus filhos; ou não cometeria a estupidez de tê-los já que parir é tão cafona e ultrapassado.

Mas se um dia,  meu “eu faraônico” parar de odiar e/ou competir com meus pais, talvez eu me banhe na fonte da sabedoria, que é translúcida, pura, desapaixonada e serena, e volte para o convívio com eles e os outros mais humilde e razoável.

E então, com uma percepção mais panorâmica (e menos egocêntrica) do que é a Vida  cunhada em seres humanos que pensam, amam, odeiam, sangram, ferem, temem e agem sempre à luz da sua própria ignorância/consciência (que é deles e não minha), eu finalmente entenda que cada um (inclusive eu) dá aquilo que tem e nunca o que os outros, por alguma razão legítima ou caprichosa, esperam receber. E que relações vividas a partir de uma negociação realista de demanda/oferta e afinidades são muito mais prazerosas e significativas.

Rótulos, papéis e hierarquias à parte, somos apenas presença humana diante de outras presenças humanas. E o amor só nasce quando essas presenças humanas se notam e se aceitam com clareza de olhos e almas. Em todos os outros casos, tudo não passa de formalidade e cegueira generalizada.

 

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