Um ano de São Paulo – Que venham os próximos!

Na fila da memória eu cheguei com 1 semana de atraso achando que estava na disciplina. 🙂 🙂

Neste mesmo mês, em algum momento depois do dia 10, eu chegava à Sampa para estudar e fazer um test drive, em 2016.

 

A intuição dizia

Você vai amar

 

O juízo cobrava

  • Experimente primeiro
  • Reúna bons motivos concretos
  • E então, se decida de vez

 

Meu sexto sentido ganhou.

Por mais que os primeiros meses tenham sido desafiadores, eu nunca cogitei a possibilidade de ir embora.

Quando me sentia exageradamente só ou tinha algum problema mais tenso pra resolver, a voz de fundo era sempre a mesma:

 

Volta pro Rio.

O que você está fazendo aí?

 

Eu respondia:

Mas eu me sinto tão bem aqui.

Não quero ir embora!

 

Quem disse que para valer a pena tem que ser perfeito e sem transtornos?

Quem disse que a cota de dúvidas e inseguranças desaparece um dia?

 

Amo São Paulo principalmente pelo oceano de possibilidades que ela me apresenta porque eu preciso me sentir minúscula e rendida às sucessões de caminhos e filtros.

Não nasci para excesso de rotinas e âncoras,

me sufoco com a tragédia das repetições agendadas

e a certeza de que tudo será como antes.

 

Para mim

cidade pequena, onde todo mundo se conhece e o tempo se arrasta sem pudores, só a passeio;

Comunidades homogêneas, condensadas na monotonia de tons e contornos, só para fins de curiosidade.

 

Gosto mesmo é do furdunço de caras e rotas destoantes,

exóticas.

 

Uma Paulista de domingo, com todas as tribos reunidas

o zanzar barulhento da 25,

as escadarias descoladas da Vila Madá

as galerias da Augusta,

o fuzuê do Brás

as quinquilharias da praça Benedito Calixto

padarias

shoppings

cinemas

centros culturais

o verdão dos parques oxigenando esta selva de pedra.

 

Muito obrigada, São Paulo pela hospitalidade de sempre.

Que venham os outros anos e que nunca nos falte pretextos para continuar nossa história juntas! 😉

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Com a casa nas costas

Já me corroeu perceber que em parte alguma há um lar derradeiro;

aquele que me conteria com autoridade e esperança na infinitude.

 

Mas será que minhas noções de pertencimento podem ser assim tão convictas?

Se eu arranhar o topo dos afetos físicos e sutis que sinto a ponto de expô-los e revirá-los, o que sobraria?

 

Por que eu amo quem amo?

Por que eu volto para quem volto?

Por que ignoro certos caminhos e me lanço em outros?

O que sedimenta meus vínculos?

O que desmantela meu interesse?

 

É mais fácil apreender o que flui e agrega do que decifrar as trajetórias e critérios do que me causa repelência ou aproximação.

E por isso eu mudo e permaneço no mesmo lugar (sigo do mundo e continuo provinciana)

para que minhas andanças nunca me apartem de vez dos tesouros que já encontrei

e minhas permanências não me atrofiem numa jaula de marasmo e obsolescência

pois eu preciso

de

âncoras e asas

para me sentir

atada

e

diluída.

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Que cabelo é esse?!

“Agora prepare-se para as hostilidades, menina”

Foi o que eu disse à mim mesma depois de tosar a juba meio crespa, meio alisada.

Até entrar em transição, eu nunca tinha parado para analisar essa peculiaridade da cultura brasileira:

O cabelo que cresce cacheado ou crespo na cabeça de uma enorme parcela das brasileiras é adestrado e escondido por baixo de químicas drásticas e do calor de chapinhas

pra que ninguém nos perceba mestiças,

pra que todos nos julguem

mais brancas do que de fato nós somos.

 

E de onde vem esse tratar tão envergonhado e ressentido daquilo que enxergamos no espelho e carregamos no sangue?

 

Será que é da nossa TV artificialmente esbranquiçada?

Das favelas predominantemente escurecidas?

Das famílias e escolas, muitas vezes, resignadas?

 

Em que momento faltou um “não” às ofensas?

Em que lugar desovamos o “sim” ao nosso amor próprio e que transpõe as hierarquias falsamente construídas e preservadas entre negros/índios e brancos?

Que cabelo é esse, menina?!

É o que cresce naturalmente na minha cabeça com vigor e liberdade para ser o que ele tem pra ser.

Por que você cortou aquele cabelão liso lindo?

Para ter um cabelão crespo igualmente lindo!

 

Nossa, e se ele crescer pra cima?

Eu deixo! 😉

 

Cabelo liso, ondulado, cacheado, crespo….

Pele branca, negra, amarela ….

Altos, baixos, magros, gordos….

Somos todos diversos

Somos todos humanos à nossa própria maneira e contornos.

 

Pra que esse pensamento retardado de que a beleza se restringe à meia dúzia de tipologias?

Por que tapar nossos olhos para a vastidão do humano, que é único, diverso e obrigatoriamente heterogêneo?

 

Deus me livre me achar puramente alguma coisa!

Eu sou preta, branca, índia, latina, portuguesa….

Eu sou HUMANA.

 

You Gotta Be

 

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E o livro sai quando?

Escrever em si é simples, principalmente, para quem faz disso um hábito há pelo menos duas décadas.

Mas pelo que escrever?

Que rumo e gosto dar às sucessivas correntes que me cortam?

E que propósito agregar a essa vocação?

Aliás, vale a pena ter uma finalidade clara e prática para minhas subjetividades?

Ou seria melhor apenas transmiti-las sem critérios nem ambições?

 

Será que eu tenho assim tanta coisa a dizer que mereça um livro?

Será que meus conteúdos seriam relevantes para os outros?

Que diferença faria mais um livro de mais uma jovem neste mundo tão bem servido de obras boas, ótimas, geniais, medíocres, ruins e péssimas?

Que impacto teria em mim finalmente me tornar uma autora?

Mas, um livro realmente precisa fazer diferença para merecer ser escrito? E se sim, como é que se mede o peso e a ressonância daquilo que nem veio a ser?

Será que as pessoas de ação e História foram tão minuciosamente reflexivas sobre suas biografias ou os fatos em suas vidas se sucederam mais ou menos planejados, mais ou menos atropelados?

Mente, criadouro eterno de problemáticas

que nunca se rendem

que nunca se bastam!

Essas e mais uma vastidão de outras questões me fazem companhia há tempos.

Já foram um tormento espinhoso, hoje apenas me lembram do quão ramificada é a minha relação com a escrita a ponto de eu oscilar entre extremos de pura devoção/ orgulho e de constrangimento/aversão por tudo que já imprimi em linhas.

Isso porque a Aline do texto de ontem não necessariamente é a leitora de hoje.

Isso porque em mim se abrigam entidades variadas que se hostilizam e competem com fúria e deboche.

Para começo de conversa, eu nunca sou a mesma e as manobras que faço raramente obtêm apoio unânime das forças que pensam, desejam e se movimentam dentro de mim.

Então, o livro sai quando?

Ele sai quando for inevitável.

Quando conquistar a maioria elegível dos votos.

Quando a vontade de escrevê-lo superar o acalento de não tê-lo na concretude.

 

Desculpa esfarrapada de gente preguiçosa e pouco arrojada?

Pode ser.

Condição caprichosa de quem vê mais afetos do que praticidade nessa empreitada?

Também.

 

Eu não sei e tenho raiva de quem sabe.

Porque desconfio que é esse jeito assim inacabado e fatalmente contraditório

que projeta no caminho à minha frente os contornos originais do que me define,

os motivos submersos que me propelem.

E assim, vou me contendo para continuar avançando

e me escancarando para não

engolir o último gole

porque me apavoro com o desespero

de um grande desejo saciado

e

prefiro que durem algumas de minhas fomes.

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