E o livro sai quando?

Escrever em si é simples, principalmente, para quem faz disso um hábito há pelo menos duas décadas.

Mas pelo que escrever?

Que rumo e gosto dar às sucessivas correntes que me cortam?

E que propósito agregar a essa vocação?

Aliás, vale a pena ter uma finalidade clara e prática para minhas subjetividades?

Ou seria melhor apenas transmiti-las sem critérios nem ambições?

 

Será que eu tenho assim tanta coisa a dizer que mereça um livro?

Será que meus conteúdos seriam relevantes para os outros?

Que diferença faria mais um livro de mais uma jovem neste mundo tão bem servido de obras boas, ótimas, geniais, medíocres, ruins e péssimas?

Que impacto teria em mim finalmente me tornar uma autora?

Mas, um livro realmente precisa fazer diferença para merecer ser escrito? E se sim, como é que se mede o peso e a ressonância daquilo que nem veio a ser?

Será que as pessoas de ação e História foram tão minuciosamente reflexivas sobre suas biografias ou os fatos em suas vidas se sucederam mais ou menos planejados, mais ou menos atropelados?

Mente, criadouro eterno de problemáticas

que nunca se rendem

que nunca se bastam!

Essas e mais uma vastidão de outras questões me fazem companhia há tempos.

Já foram um tormento espinhoso, hoje apenas me lembram do quão ramificada é a minha relação com a escrita a ponto de eu oscilar entre extremos de pura devoção/ orgulho e de constrangimento/aversão por tudo que já imprimi em linhas.

Isso porque a Aline do texto de ontem não necessariamente é a leitora de hoje.

Isso porque em mim se abrigam entidades variadas que se hostilizam e competem com fúria e deboche.

Para começo de conversa, eu nunca sou a mesma e as manobras que faço raramente obtêm apoio unânime das forças que pensam, desejam e se movimentam dentro de mim.

Então, o livro sai quando?

Ele sai quando for inevitável.

Quando conquistar a maioria elegível dos votos.

Quando a vontade de escrevê-lo superar o acalento de não tê-lo na concretude.

 

Desculpa esfarrapada de gente preguiçosa e pouco arrojada?

Pode ser.

Condição caprichosa de quem vê mais afetos do que praticidade nessa empreitada?

Também.

 

Eu não sei e tenho raiva de quem sabe.

Porque desconfio que é esse jeito assim inacabado e fatalmente contraditório

que projeta no caminho à minha frente os contornos originais do que me define,

os motivos submersos que me propelem.

E assim, vou me contendo para continuar avançando

e me escancarando para não

engolir o último gole

porque me apavoro com o desespero

de um grande desejo saciado

e

prefiro que durem algumas de minhas fomes.

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s