Dá ou não dá pra defender?

As pessoas são o que são. Eu sou o que sou dentro deste núcleo primordial e formador.

O estilo da roupa, eu mudo. O jeito de contornar a linha d’água do olho também, mas o modo de existir no sentido mais íntimo da coisa, aquele lado de dentro tão dentro que os outros nem notam, me é eterno ou pelo menos tão firmemente entranhado que só sairia de mim levando consigo pele e sangue juntos;

Não quero dizer que não mudo. Mudo sim e muito. Desde o dia da gravidez consumada até agora quase tudo se transformou veementemente, mas é um mudar previsto e coerente com algo anterior à própria mudança. É o mudar do meu código genético específico somado à rua onde cresci, ao colégio onde estudei e a todas as brigas, paixonites, crises, rupturas, encontros, desencontros, joelhos ralados, dores de barriga, menstruação, peitinhos crescendo e um tantão a mais, tão amplo e abarrotado que a memória até emperra.

E com eles (todo o restante da humanidade) acho que acontece o mesmo só que diferente rsrsrs. São da mesma espécie que eu, não são? Às vezes, tenho lá minhas dúvidas dado os absurdos biográficos e ideológicos que nos confrontam, mas partirei do princípio um tanto conciliador de que somos parentes, todos, absolutamente todos (inclusive a galera do Estado Islâmico, os violadores de criancinhas, estupradores, assassinos e amantes de sertanejo).

Todos parentes? Inclusive os piores, os menos ajustados a um código virtuoso de preservação da dignidade grupal? Sim. Todos e isso é no mínimo estarrecedor, o que me leva a concluir que não somos muito de confiança. Um bicho a se temer as paixões e os ódios inatos porque sabe matar com uma eficiência cirúrgica.

Ah como a gente odeia, ama, odeia de novo e ama mais um pouco!

Como a gente tem foco para erguer monumentos e também reduzir ao pó o  que outro coleguinha produziu motivado por essas mesmas pulsões.

Somos ridículos, eu sei. Não dá pra defender a nós mesmos assim com muita força, mas se somos o que somos e alguns de nós conseguem trilhar um caminho mais luminoso que os demais, então que o restante se inspire, se agarre de unhas cravadas a esse parentesco mais arrumadinho, tipo Jesus Cristo, Buda, Mahatma Gandhi, ou aquela senhora simpática que costura roupinhas para crianças carentes, o pai que suporta um trabalho de merda para que seus filhos prosperem mais do que ele, a mãe que dá a vida todo santo dia (e não apenas no momento do parto) pra que sua cria floresça levando adiante esse despropósito de mistério e caos que é a raça humana.

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É Dia dos Pais Outra Vez

É seu este humor meio sarcástico, meio abobalhado que tenho, e também minha loucura por boa música. Como eu poderia amar Streets of Philadelphia e Bolero de Ravel? Como?

Toda vez que penso criticamente é a sua voz ecoando:

“Usa a cabeça que ela não foi feita só pra separar as orelhas!”

E talvez cada elogio que faço a uma pessoa querida seja uma réplica do seu orgulho confessado em palhaçadas e piadinhas sem graça.

Passei na Cefeteq e escutei:

“Agora vai aprender a fazer sabão, né? Já descobriu a fórmula da Coca-Cola?”

Saí de casa sabendo menos zero sobre cozinha e lá veio você com um pacote de arroz de saquinho Uncle Bens e strogonoff pronto debaixo do braço. “De fome não morre”.

Fui morar na Turquia e só ouvia:

“Já comprou sua burca? Vai ficar bonitinha”.

Memórias. São tantas, tantas.

Como eu queria ter tido mais tempo!

Se eu não fosse tão desgarrada haveria um tantinho a mais, não é? Mas como saber se a vida é sempre este maldito cheque em branco? Eu jurava que a sua ausência se adiaria por pelo menos mais 10, 20 anos. Jurava!

Revirando o que se passou nesses quase 3 anos, o único consolo que encontro foi ter conseguido te dar uma última alegria:

“Você voltou ao Brasil só pra me ver, só pra me ver”.

Sim! E voltaria quantas vezes pudesse.

Meu primeiro livro eu nem sei quando e como sai, mas com certeza o teu nome, José Médici, (vulgo meu velhinho) estará bem ali ao fim de uma dedicatória fatalmente insuficiente junto com uma dúvida:

Que gaiatice ele diria desta vez?

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Nossos Atravessamentos Mais Preciosos

Eu não sabia.
Não fazia a menor ideia de que aqui dentro se escondia tanta coisa perniciosa…

 

Quanta raiva sufocada dos tempos de criança em que eu não conseguia processar o mal que me faziam; quanto choro engolido só pra fingir que não estava doendo até que tudo ruiu, ou melhor, implodiu sem pudor nem barreiras.

Às vezes, eu me pergunto:

Será que é só comigo? Será que foi mais fácil e fluido para os outros?

Não sei, mas sigo meu caminho de atravessamento desse rio enlameado na esperança de que aos poucos a água turva e opaca vá se transformando em transparência outra vez. Aliás, eu já vejo os meus pés tocando o fundo com tudo se renovando ao meu redor. Eu já sinto que o que se expande dentro de mim é predominantemente bom e saudável.

Três anos abrindo a caixa de Pandora, sentada em silêncio

Três anos meditando disposta a revirar meu estofo pra limpar as costuras emboloradas. Agora eu entendo porque a maioria se anestesia com mil e uma ocupações e dramas domésticos. Eles fogem desse silêncio que esfrega tudo na nossa cara, destruindo os muros e muletas que construímos pra que a gente se veja nu e sem máscaras.

Enquanto o barulho do mundo estronda lá fora conseguimos ignorar o desespero de dentro porque ninguém quer deixar doer e doer e doer. Ninguém quer se ver chorar até o ponto de secarem as lágrimas e se esvaírem as forças junto com a ilusão de grandiosidade. Mas a gente precisa parir, literalmente parir todo esse abismo de memórias represadas. Faz parte da vida, é o nosso percurso natural de amadurecimento.

E o mais belo de tudo isso é descobrir que aquele medo de não dar conta é pura bobagem. A gente aguenta sim! E como!

Não vai ser uma viagem à Disney, tá mais para um filme de terror meio trash com pitadas de dramalhão mexicano, mas depois que passa a gente até dá risadas.

É como voltar da guerra tendo feio a lição de casa sem pular nenhuma etapa. Ninguém retorna ileso e tendo gabaritando todas as provas, mas chega ironicamente inteiro pela primeira vez.

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Tudo é Leitura

Tudo no mundo interno e externo precisa ser lido, processado e expresso.

 

  • Quem sou, o que sinto, quero e preciso;
  • Quem são os outros, o que sentem, querem e precisam;
  • Qual o meu lugar na família, na cidade, no trabalho e no mundo em que habito;
  • Quais são os meus limites, recursos e contingências;
  • Onde estou e para onde quero ir.

 

TUDO, absolutamente TUDO depende da minha capacidade de leitura e digestão.

Quem não se desenvolve nesse quesito vive à margem da vida propriamente dita, numa névoa diáfana e sem entendimento profundo do que se passa dentro de si e à sua volta. E essa é uma forma muito mais empobrecida e angustiante de existir.

Nunca se escreveu tanto, tão errado e se interpretou tão mal

O dia em que o rio jorrar

Por milênios se ensinou:

 

  1. Homens, as mulheres lhes pertencem!

 

É sua obrigação ampará-las, mas vocês também podem trancá-las, usá-las, domesticá-las, penetrá-las à força, despojá-las de toda autonomia e autoestima, impedi-las de conquistar o que quer que seja sem a sua supervisão e/ou consentimento.

 

  1. Mulheres, se curvem!

 

Abaixem os olhos e a alma até onde o seu senhor lhes disser que é o bastante.

Obedeçam, disputem umas com as outras, se vigiem, engolindo sua fome por liberdade a seco e em silêncio!

Que um dia tudo isso passe para que homens e mulheres não mais se rotulem e se espremam em modelos pouco abrangentes de masculinidade/feminilidade para que haja apenas presenças humanas das mais variadas formas, temperamentos, sexos, gêneros e vocações convivendo o tanto que der, do jeito que der sem a necessidade de um oprimido e um opressor.

 

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Minhas Bodas de Lã com a Tradução Técnica

Em setembro agora eu completo 7 anos traduzindo invenções.

Sete longos anos “lidando” com algumas das mentes mais brilhantes do mundo capazes de inventar e/ou aprimorar sistemas, aparelhos, software. Enfim, tecnologia de ponta que reconfigura a maneira como você e eu vivemos, comemos, somos operados, nos locomovemos.

Tenho preferência pelos textos da área médica que inovam em cirurgias minimamente invasivas, medicina diagnóstica e afins porque ser paciente às vezes dói, dói muito, na pessoa tratada e nos familiares que sofrem junto. Então, eu vibro em saber que há gente por aí se dedicando em nos operar sem cortes profundos e com menos riscos de complicações no pós-operatório.

Também gosto das novidades na indústria automotiva, de telefonia e TI. De alguma forma, estou fazendo parte desse mundão de avanço que temos por aqui mesmo sendo aquela que desmonta uma caneta e não consegue montar de volta e faz conta com um grau de dificuldade pouco recomendado.

Mas o que eu mais amo sem sombra de dúvidas é o que a mentalidade científica/pragmática/empreendedora desses engenheiros fez por mim, Aline, ser humaninho da área de Letras meio avoado.

Eles querem tudo melhor, menor, mais barato e simples. Eles querem a potência do universo condensada num grão de arroz! E eu apliquei esses valores na minha vida prática.

– Não tenho mais sonhos, só objetivos claramente traçados;
– Trabalho com prazos e metas;
– Evito desperdícios de recursos, tempo e energia.
– Invisto em conhecimento específico pra chegar lá.
– E aceito o preço inerente a toda conquista.

Ou seja, não é porque eu quero algo que ele vai despencar do céu bem no meu colo. Há desafios, erros de cálculos, imprevistos, escassez, contextos desfavoráveis pelo caminho e tudo bem. São essas pedras que me fortalecem e conscientiza.

Muito obrigada, Dannemann Siemsen pela oportunidade única. Eu simplesmente AMO prestar serviços pra vocês e ser ex-estagiária também. Essa oportunidade primeira, lá em 2008, mudou a minha vida pra melhor num grau que eu nem poderia mensurar. Que vocês continuem sendo esse gigante da área de patentes e marcas. Continuar lendo

Uma Tarde de Abril

Enche o peito e se desmonta no banco do canto com o rosto prensado no vidro.

Nos outros com seus momentos, ela nem repara.

Para pensar no que foi bom, apenas o chiar do ar se esgueirando pelo lado de dentro da pele, querendo sobrar bem no centro do corpo. A cena passada a limpo fala a fala, gesto a gesto e tremor – um susto gelado na boca do estômago bem quando tudo começou.

– Não quero que morra! Não posso com isso!

Deixa estar aqui por perto, rondando à minha volta para eu gastar até minguar como roupa surrada de tanto se amar.

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Blues and Beats

Você bem que podia ainda estar vivo pra eu te saudar pessoalmente e ouvir esses solos espichados de quem tem manha, de quem sabe o que faz, oh se sabe!

Eu te dançaria até encharcar a roupa e ver o suor escorrendo espinha abaixo com uma bebida qualquer na mão só pra molhar a garganta.
E quando o corpo cansasse, meu bem, eu pararia escorada num canto sorrindo o meu muito obrigada pelo seu gingado simpático tão rente, tão largo!

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I Believe To My Soul – BB King

Sabe-se lá no fundo

Da porta pra dentro, o que me engrandece é esta subjetividade bem construída e

amparada no que me parece genuíno.

Saber-me indivíduo solto e às vezes descontinuado da cultura, com vontades e demandas

próprias antes de seguir a manada porque o mundo e as ideias dos outros nem sempre

coincidem ou favorecem meu rumo.

Ah, este rumo que até eu desconheço, mas que num cessar de ruídos à volta, se agiganta

e me indica

É por aqui, Aline. Pode vir.

E eu vou desavisada do preço ou dos dedos apontados.

Eu vou de olhos cerrados e poros abertos, lançada ao que nem sei nomear, mas que intuo

ser meu, só meu.

Aprendi a viver assim, assentada em mim mesma

na alegria e na tristeza,

nos acertos e nas burradas (que não são poucas),

absorta em processos que me talham e estremecem;

compreendendo que por fim já bastam as delícias e tragédias que este corpo, mentalidade e desejos me permitem viver.