Fêmeas, Mulheres e Moldes

No último dia deste mês faço 3.0 com comemorações bem menos faraônicas do que eu imaginava para a ocasião.

Sim, é uma virada de página importante,  ritual de passagem e tal,

mas num plano alargado, não passa de um dentre milhares de simbolismos que criamos para decorar (ou complicar) a vida.

 

Que haja o essencial, então:

 

saúde, família

amigos

encontros

afeto

(E um pedido secreto atendido)

(E muita comida boa na mesa)

 

A crise dos 30 veio aos 28 porque eu gosto de precocidade.

 

É isso o que eu realmente quero da vida?

O que funciona pra mim?

Onde e com quem quero estar?

Isso vale? Não vale?

E o quanto vale?

 

Carreira divórcio sonhos  pazes com o passado

individualismo

generosidade

os outros

e

eu

LUTOS

choro cuspido

divã com o espelho

meu colo,

meu ninho

 

Hasodot é um filme israelense sobre mulheres e sua dinâmica asfixiada dentro de um mundo de homens.

“Como Nossos Pais” já marca a transição ou coexistência pouco pacífica entre os tempos de submissão e os de empoderamento feminino.

Tradições, feminismo, dramas familiares, sexualidade constrangida, amores,

tabus externos construindo amarras internas aqui,

ou encorajando transgressões ali.

 

Às vezes, a força do social entranha ainda mais correntes e trincheiras na alma das pessoas.

Em outros casos, o incômodo das feridas abertas é o que impulsiona nossos voos mais audaciosos.

 

Difícil saber o que vinga apoiado no quê.

Algumas mulheres são guerreiras por terem essência para isso ou pelo sangrar do chicote?

É uma questão de escolha ou falta dela?

Não faço a menor ideia…

 

Naomi e Michelle se apaixonam.

A primeira, austera e reprimida por fora. Filha exemplar, linda, inteligente, prendada, seca, impessoal, impermeável. Único traço de viço: a religiosidade.

Michelle = Criada na França, desbocada, presunçosa. Moderninha e rebelde por fora, tradicional e romântica por dentro. Quer casar e ter uma família normal. Abandona a amante por isso.

Para mim, a melhor fala do filme sai da boca de um homem – o noivo de Michelle.

“Não que eu seja especialista em assuntos do coração, mas entendo alguma coisa sobre música. Na música, você sempre aprende a tocar do modo tradicional, mas às vezes, o modo não tradicional é o certo”.

Um discreto “você e minha futura esposa podem se pegar à vontade”?

Talvez.

 

Amei esse trecho porque ele tem gosto de vida real e o que foi sugerido para questões amorosas/sexuais vale, na verdade, para tudo.

Quando acatar a hereditariedade dos costumes, normas e desejos?

Quando escrever uma nova história e ser revolucionária?

Está aí um prato cheio para os nossos nervos e neurônios.

 

Mulheres e homens de hoje vivem a angústia da liberdade, com seu mosaico de rotas e consequências que anima, desespera. É o drama do filme Efeito Borboleta vivido cada vez com mais nitidez para quem ousa notá-lo. Para todas as outras mulheres (e homens), a vida continua sendo como a de nossos pais.

 

A Garota Desconhecida

Cada um se cura como pode…

O peso da consciência exigindo justiça, as dores do passado modelando o presente.

Uma médica inconformada com a morte de uma jovem desconhecida que, em certa medida teve sua contribuição; um estagiário fazendo da medicina o antídoto para seus traumas de infância.

O filme não é nenhuma proeza de atuação, fotografia ou roteiro, mas a história prende. O jeito seco, típico do cinema francês, é sentido do início ao fim, inclusive nos momentos de mais emoção.

Eu gosto disso. Acho as presepadas cênicas, muito frequentes na dramaturgia latina, um excesso difícil de engolir. E já notei que todos os atores que mais admiro são sintéticos, sóbrios, porém, muito incisivos em sua atuação.

Como disse a diva, Clarice Lispector, “que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”. Anthony Hopkins e Fernanda Montenegro que o digam.

Voltando à trama, o que mais me intrigou foi a overdose de realismo mostrado em todas as cenas. Saí do cinema cheia de questões:

Como uma simples atitude pode contribuir para uma tragédia…

Não muito raramente, nosso instinto de autopreservação se choca com o senso de justiça. Quem nunca se atormentou entre salvar sua pele e fazer a coisa certa?

E por que fazemos o que fazemos? Somos de fato generosos ou praticamos o bem para nós mesmos através dos outros?

Perguntas, muitas perguntas…

Filmes como este são um ótimo corta-santidade justamente por trazer à tona o humano que nós somos – confuso, vacilante, contraditório – e não aquele que gostaríamos de ser. E pensar nisso me fez lembrar de um documentário, postado aqui, no qual uma das participantes deu uma das declarações mais sinceras e humildes que já ouvi.

Ela, judia salva ainda criança por um soldado alemão, disse algo mais ou menos assim:

“Ele arriscou sua vida, a única que tinha, para salvar a minha. Eu não sei se faria o mesmo no lugar dele. Gostaria de dizer que sim, mas não posso.”

Acho que só uma pessoa muito desavisada de si mesma confia na eficácia absoluta de suas virtudes, todas as outras se vigiam e torcem para que a imprevisibilidade de suas escolhas e os reveses da vida não as arrastem para um lamaçal de dor, remorso e degradação moral.

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Que Tal Pagar Para Morrer?

A dica de hoje é bem incomum – o filme francês La Vanité.

Um senhor com câncer em estágio avançado e sem nenhum laço afetivo que o conforte, resolve contratar uma clínica especializada em eutanásia assistida.

Quando o momento do desapego chega, uma série de confusões e surpresas tornam o procedimento de poucos minutos em uma odisseia que dura a noite toda.

Divertido, inusitado e dramático, o filme me prendeu do início ao fim.

Uma das coisas que mais me fascinam na ficção é a possibilidade de “viver” histórias que em nada se assemelham à minha, e as confusões entre David Miller (o candidato a morto), Esperanza (a funcionária da clínica) e Constantin (um garoto de programa que vira testemunha do ato) atendem muito bem a essa expectativa.

E a pergunta que não pode faltar:

Você teria coragem de pagar para morrer?

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Nahid – Outro Olhar sobre a Mulher Muçulmana

Divórcio, ex-marido drogado, renda insuficiente, filho adolescente em fase rebelde e um novo amor fora dos padrões. Trama bem ocidental, não é? Mas dessa vez, o cenário é bem menos familiar e com um desafio extra – a rigidez da tradição islâmica para acentuar ainda mais o drama.

É claro que a vida da mulher muçulmana continua sendo muito limitada pelos costumes, mas este filme mostra o paradoxo entre a tradição e a modernidade, me fazendo lembrar de imediato da cultura turca.

Morei quase 4 anos em Istambul e pude sentir de várias formas essa mescla entre o conservadorismo e as demandas do século 21 que também ocorre no Oriente.

O filme é denso, mas também com um pouco de humor e uma pitadinha de suspense. Recomendo para quem gosta de fugir dos lugares comuns.

Viva o cinema alternativo. Adoro! 😉

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E Se Eu Fosse Um Deles?

O que uma mulher normal faz para aliviar a selvageria da TPM:

  • Come chocolate
  • Desabafa com alguém
  • Procura algo divertido para fazer
  • Fica quieta no seu mudinho
  • Qualquer coisa que NÃO piore a situação

E o que a Aline resolveu fazer:

  • Decidiu assistir a um documentário nível Jogos Mortais de tanta desgracença com um simples detalhe: NADA era ficção. Dezenas de pessoas reais contando dramas tremendamente reais.

Resultado: Chorei uns 20 baldes em cada olho por quase 3 horas, saí do cinema e continuou o aguaceiro pela Augusta, pela Paulista e foi indo até a faculdade.

Quis gravar um vídeo sobre o tema na época, mas achei mais seguro vir aqui fazer este post, pois o apego à compostura falou mais alto.

Bom, isso me aconteceu há algumas semanas. Não sei exatamente quando porque matemática e memória são minhas deficiências mais extravagantes. Mas a questão é:

  1. O documentário é de cortar o coração de um sanguinário? É.
  2. Você corre o risco de se sentir um lixo desalmado por não tentar salvar o mundo? Sim.
  3. Ele pode soterrar várias crenças que você tem sobre justiça social? Pode.

Mas ainda assim, eu recomendo. Vale a pena confrontar a sua realidade com a de pessoas com vivências, crenças e histórias completamente distintas das suas.

Essa é uma ótima oportunidade para dar mais valor à vida e rever certos conceitos tão comumente propagados como se fossem irrefutáveis.

Algo em mim mudou para sempre depois dessa experiência. Ainda não calculei a magnitude da coisa, mas eu sei que eu me tornei um pouco mais sensível à dor alheia e um tantinho menos mimada e exigente com o que acho que mereço ter para chamar de meu.

Beijos e até a próxima, pessoal!

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Meu Rei, Meu Espelho

Nome original: Mon Roi

País: França

Ano: 2015

Atores principais: Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot

O filme francês “Meu Rei” (Mon Roi) estrelado por Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot (melhor atriz em Cannes) brinca com um dos clichês mais batidos de todos os tempos: o amor conturbado entre uma “mocinha” insegura e um “badboy” sedutor. Alguma semelhança com 50 Tons de Cinza? Felizmente, nem tanto.

A história pode ser lida em duas dimensões diferentes. No modo café-com- leite, onde Tony “cai nas garras” de Giorgio que a envolve em um jogo de submissão psicológica mesclada com bajulações. Uma interpretação perfeita para quem acredita que, dentro de um relacionamento, a mulher é uma donzela indefesa, portanto, isenta da responsabilidade pelos rumos que o envolvimento tomar.

Ou no modo “cheguei à vida adulta e tenho vergonha na cara” que funciona bem melhor para os mais realistas e inconformados com a banalidade que o termo “vítima” ganhou. Olhando desse ângulo, o filme ganha profundidade ao revelar os paradoxos das relações humanas, nas quais razão e emoção se contrapõem o tempo todo, nos arrastando para lados opostos e dificultando o discernimento sobre aquilo que queremos com mais firmeza. Viver intensamente uma atração fatal ou salvar minha sanidade? Esse é um dos dilemas de Tony, que está longe de ser uma pobre coitada e já explico o porquê.

Uma advogada bem-sucedida, amparada por familiares e amigos, é vítima ou coautora de um relacionamento abusivo? Eu aposto na segunda opção por dois motivos básicos: primeiro, ela detém recursos financeiros, intelectuais e de gênero (nascida e criada na França e não no Oriente Médio) suficientes para entender quando está sendo desrespeitada; segundo, ela tem liberdade para terminar tudo a hora que quiser sem que isso lhe custe mais do que uma bela fossa que arranha nossa dignidade por certo tempo, mas que não nos mata.

Por mais que o nosso dicionário seja muito inclusivo ao definir o significado de “vítima”, eu sou bem reducionista nesse sentido, preferindo considerar como tal apenas pessoas de fato privadas da liberdade de escolha ou sujeitas a opções que lhes custariam tão caro do ponto de vista social e/ou psicológico que fica difícil encará-las como um caminho viável, e obviamente, aquelas que são vulneráveis por definição (crianças, idosos, doentes, civis em zona de guerra, vítimas de estupro, de violência física, etc.).

Já uma “Tony” me parece mais vítima de si mesma e, portanto, precisa é de um espelho e não de um lenço. Isso porque ela tem claramente uma tendência a consentir os abusos de seus parceiros (o filme deixa claro que ela é a típica “dedo pobre”), provando que só lei não basta. Também é preciso consciência e colaboração por parte das mulheres para não facilitar a vida dos abusadores. A lei trata do leite derramado, a educação de homens e mulheres dispensa o seu uso.

Não se iluda. Em linhas gerais, toda vez que você se considera uma vítima do mundo, está dando um tiro no próprio pé, sabotando o seu poder de ação e perdendo uma grande oportunidade de refletir sobre si mesmo e tudo que lhe cerca.
Um dos grandes ritos de passagem da infância/puberdade para a vida adulta é justamente a consciência de que tudo é regido por uma lei de causa e efeito e que nós temos participação nisso. Ou seja, a sua vida é, em grande medida, aquilo que você fez dela e não um fenômeno sobrenatural orquestrado por extraterrestres. Dói né? Pois é… Isso explica porque tantas pessoas preferem o discurso de vítima.

Em muitos casos, ser vítima significa “estou livre da responsabilidade quando algo der errado”. O problema desse pensamento, além de criar uma cambada de mimados viciadinhos em chororô, é que ele gera humanos eternamente presos na adolescência, uma espécie de Caverna do Dragão onde voltar para casa equivale retomar o processo de maturação iniciado com o parto.

Voltando ao filme, o que distingue mulheres de meninas não é a vida em si, mas a postura tomada perante ela. Tony é quase tão desequilibrada, insegura e agressiva quanto Giorgio. A maior diferença entre eles é o temperamento, ela é mais reprimida e ele, mais expansivo.

Não se iluda parte II, nós só atraímos para as nossas vidas quem nos serve de espelho, os outros até se aproximam, mas não fazem morada porque não há correspondência para sustentar uma relação duradoura.

Sim, uma mulher madura e bem resolvida poderia se encantar por Georgio (Vincent Cassel não é lá um bonitão, mas tem seu charme), e num caso mais extremo de carência, até se apaixonar por ele, mas ela certamente racharia a conta do problema. E se a decisão fosse “sim, eu vou viver essa história custe o que custar”, ela diria algo do tipo:

– Gente, eu sei que ele não presta, mas eu também não sou lá flor que se cheire. Então, estamos quites.

Nos tempos de hoje, excluindo os países em que liberdade individual é mera utopia romântica, podemos dar o rumo que quisermos para as nossas vidas, e seja lá qual for o itinerário escolhido, que tenhamos sempre a decência de bancá-lo sem mimimi e encenações.

Música tema:

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Prédios Flutuantes – Toda a Vastidão da Sexualidade Humana

Nome em inglês: Floating Skyscraper

País: Polônia

Ano: 2013

Atores principais: Mateusz Banasiuk, Marta Nieradkiewicz e Bartosz Gelner

A aflição do “desajuste social”, temperada por uma paixão faminta que busca no outro a sua própria identidade, compõe o cenário do filme polonês “Prédios Flutuantes”, dando rosto e voz aos dilemas da bissexualidade em escala individual (a autoaceitação) e coletiva (a intolerância dos outros), e humanizando uma questão que, de tão explorada nos espaços públicos atuais, já perdeu parte de seu caráter íntimo.

A narrativa feita em desdobramentos graduais e não como uma mera sucessão de fatos, é sutil, porém, escancarada. Por um lado, sobra zelo em retratar seres humanos e não caricaturas de um perfil sexual menos convencional. Por outro, falta pudor nas cenas de nudez e sexo, o que certamente ofenderá os sentidos dos mais recatados.

E além do crime de homofobia e suas consequências trágicas, há também a denúncia de uma violência bem menos explícita, disfarçada de apreço e encharcada de um egoísmo cego – a luta daqueles que amam para impedir que a natureza do ser amado lhes ataque a vaidade.

Quando fazemos do outro um meio de autovalidação, trocamos a convivência democrática pelo autoritarismo, nos esquecendo de que seres humanos são rios que fluem em direções inesperadas, naturalmente insubmissos à rigidez dos dogmas sociais.

É possível amar o outro e não simplesmente o nosso reflexo nele?

Há espaço para a liberdade quando se ama?

Dúvidas de quem percebe em si e nos demais um jeito torto de amar, capaz dos atos mais aviltantes na tentativa inútil de castrar a impermanência humana.

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