Um copo de paz por três goles de ar

Livre!

É assim que eu me sinto ao ficar num silêncio prolongado, esticando a respiração no limite que aguento pra depois soltá-la junto com as maluquices da mente. Eu penso um monte de lixo quase o tempo todo. IMPRESSIONANTE! Mas já foi pior, bem pior.

Lembro da época em que não meditava. A cabeça me enlouquecia dia e noite, sem trégua nem razão. Agonias neuroses achismos fantasias medo disso e daquilo taras por isso e aquilo. Zona! Pura zona!

Três anos meditando praticamente todo santo dia…

Se ainda sinto vontade de esfregar a cara de uns e outros no asfalto? Claro.

Se ainda tenho uns surtos de estremecimento por motivos fúteis e absurdos? Claro de novo. Mas tá tudo igual só que diferente rsrsrs.

Antes eu me enfurnava de verdade nessas loucuras, jurando que era preciso tomar providências por causa dos chiliques. Agora tu vê! Tomar providências movida por um monte de papagaiada que nem sei de onde vem muito menos pra que serve.

Mas com o tempo fundei a CCN (Central de Controle de Neuras) que é pra desfazer o furdunço a tempo e estender a vibe “paz, amor, nada me abala”. Ela opera com comandos extremamente amorosos e didáticos do tipo:

– Parô com a palhaçada!

– Chega de frescura!

– Amanhã a gente vê isso.

– Não é o fim do mundo.

– Calma! Vai passar por que tudo passa mesmo. 

E se persistirem os sintomas, vá meditar, DEMÔNIA! Continuar lendo

Linha Reta

A gente vai se contraindo e se rifando

num transpor e (re)transpor de micos furadas acertos chamegos tapinhas nas costas, tapinhas na cara.

Fazendo das crendices abrigo contra o tanto de voltas e mais voltas que sacodem a boca do estômago e avacalham as certezas da mente tão ensimesmada, tão indiferente ao que se passa no mundo dos outros.

Não!

Eu não vivo em linha reta nem por um segundo!

Hoje mesmo sai na intenção de um suco de laranja, acabei tomando um de amora com pimenta de cheiro. Fiquei com um ardidinho na boca que durou até o metrô. Continuar lendo

Nossos Atravessamentos Mais Preciosos

Eu não sabia.
Não fazia a menor ideia de que aqui dentro se escondia tanta coisa perniciosa…

 

Quanta raiva sufocada dos tempos de criança em que eu não conseguia processar o mal que me faziam; quanto choro engolido só pra fingir que não estava doendo até que tudo ruiu, ou melhor, implodiu sem pudor nem barreiras.

Às vezes, eu me pergunto:

Será que é só comigo? Será que foi mais fácil e fluido para os outros?

Não sei, mas sigo meu caminho de atravessamento desse rio enlameado na esperança de que aos poucos a água turva e opaca vá se transformando em transparência outra vez. Aliás, eu já vejo os meus pés tocando o fundo com tudo se renovando ao meu redor. Eu já sinto que o que se expande dentro de mim é predominantemente bom e saudável.

Três anos abrindo a caixa de Pandora, sentada em silêncio

Três anos meditando disposta a revirar meu estofo pra limpar as costuras emboloradas. Agora eu entendo porque a maioria se anestesia com mil e uma ocupações e dramas domésticos. Eles fogem desse silêncio que esfrega tudo na nossa cara, destruindo os muros e muletas que construímos pra que a gente se veja nu e sem máscaras.

Enquanto o barulho do mundo estronda lá fora conseguimos ignorar o desespero de dentro porque ninguém quer deixar doer e doer e doer. Ninguém quer se ver chorar até o ponto de secarem as lágrimas e se esvaírem as forças junto com a ilusão de grandiosidade. Mas a gente precisa parir, literalmente parir todo esse abismo de memórias represadas. Faz parte da vida, é o nosso percurso natural de amadurecimento.

E o mais belo de tudo isso é descobrir que aquele medo de não dar conta é pura bobagem. A gente aguenta sim! E como!

Não vai ser uma viagem à Disney, tá mais para um filme de terror meio trash com pitadas de dramalhão mexicano, mas depois que passa a gente até dá risadas.

É como voltar da guerra tendo feio a lição de casa sem pular nenhuma etapa. Ninguém retorna ileso e tendo gabaritando todas as provas, mas chega ironicamente inteiro pela primeira vez.

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Tudo é Leitura

Tudo no mundo interno e externo precisa ser lido, processado e expresso.

 

  • Quem sou, o que sinto, quero e preciso;
  • Quem são os outros, o que sentem, querem e precisam;
  • Qual o meu lugar na família, na cidade, no trabalho e no mundo em que habito;
  • Quais são os meus limites, recursos e contingências;
  • Onde estou e para onde quero ir.

 

TUDO, absolutamente TUDO depende da minha capacidade de leitura e digestão.

Quem não se desenvolve nesse quesito vive à margem da vida propriamente dita, numa névoa diáfana e sem entendimento profundo do que se passa dentro de si e à sua volta. E essa é uma forma muito mais empobrecida e angustiante de existir.

Nunca se escreveu tanto, tão errado e se interpretou tão mal

O dia em que o rio jorrar

Por milênios se ensinou:

 

  1. Homens, as mulheres lhes pertencem!

 

É sua obrigação ampará-las, mas vocês também podem trancá-las, usá-las, domesticá-las, penetrá-las à força, despojá-las de toda autonomia e autoestima, impedi-las de conquistar o que quer que seja sem a sua supervisão e/ou consentimento.

 

  1. Mulheres, se curvem!

 

Abaixem os olhos e a alma até onde o seu senhor lhes disser que é o bastante.

Obedeçam, disputem umas com as outras, se vigiem, engolindo sua fome por liberdade a seco e em silêncio!

Que um dia tudo isso passe para que homens e mulheres não mais se rotulem e se espremam em modelos pouco abrangentes de masculinidade/feminilidade para que haja apenas presenças humanas das mais variadas formas, temperamentos, sexos, gêneros e vocações convivendo o tanto que der, do jeito que der sem a necessidade de um oprimido e um opressor.

 

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Miss Fêmea Existe?

Assisti a um debate curioso entre uma ex-feminista e uma feminista vereadora.

Esperava mais das duas e também da mediadora.

Achei a conversa um pouco rasa e desorganizada. Mas já é um começo e nada nasce pronto.

Não faz muito tempo que tudo sobre nós era quase que exclusivamente pensado e divulgado por homens.

Da nossa alma ao que temos entre as pernas, eram eles a nos dizer e apontar peculiaridades, pequenez e/ou serventia.

Eram eles a nos estipular um caminho e também a delimitar os espaços geográficos e sociais por onde circularíamos, devidamente de acordo com a cor de nossa pele e o status da nossa casta, o que de certa forma, continua ainda vigente, porém, vem perdendo sua aura de sagrado.

Há muitos exageros e delírios nos discursos feministas que ando ouvindo por aí, assim como um mundaréu de disputas e acusações entre alas divergentes dentro e fora da mentalidade feminista.

Pra que essa gaiatice?

Faz-se muito mais por si e pelas outras no âmbito da prática e de debates não inflamados.

Mas acho importante esse fuzuê de pontos de vista e quero todas no balaio:

A dona de casa, mulher de um homem só

A solta no mundo com um milhão de aventuras e romances

A que gosta de macho

A que gosta de fêmea

A que curte qualquer ser humano que lhe encante

A que nasceu com xana

A que é mulher de alma…

E também os homens porque não acho graça em revanche e alternância de opressões.

Pra mim só não vale a estupidez da mentalidade estreita que julga como certo só o que cabe na sua própria cartilha e não estuda nem troca com o contraponto.

E muito bem me faz conviver com estilos mais à esquerda e à direita da minha própria trajetória porque num planeta com 7 bilhões de possibilidades existenciais, é uma burrice pensar que todos fluem de um mesmo leito e para um só destino.

 

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Não é só cabelo

Como teve coragem de cortar o cabelo tão pequeno?”

Pesquisando bastante no YouTube, seguindo meninas sensatas que já tinham passado pela transição e respeitando o meu próprio tempo.

“Deve dar um baita trabalho cuidar de um cabelo cacheado assim, né?” 

De jeito nenhum. Só tive que ter um pouco de paciência pra descobrir do que ele gosta/precisa em termos de shampoo, hidratação e óleos.

“Você já sofreu discriminação?” Não que eu tenha notado, mas alguns olhares curiosos e insistentes sim, principalmente quando estou de turbante.

Se arrependeu?

Nem por um milésimo de segundo!

Não faço nem farei militância contra as alisadas ou relaxadas porque acho isso uma falta de respeito e um certo jeito cafona de tirania.

Mas deixar que meu cabelo cresça à sua maneira é um decidir me sentir bela na minha própria etnia;

Um dar de ombros para o que não me é naturalmente pulsante e que por isso agride minha SOBERANIA! Continuar lendo

Era tão importante. Preferi que calasse

 

Ontem à tarde escrevi à mão num café qualquer me lembrando que nem tudo é

 

control+C, control+V

fast-food

fast-fashion

aplicativos

algoritmos.

 

Há muito de analogicamente orgânico pulsando por aí sem querer ser lido nem compartilhado. Como ecos de uma intimidade que dispensa plateia.

 

O lado de dentro da porta

a senha do banco

a roupa

de

baixo.

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Temos Smart Phones, Mas e o Tato?

“As pessoas não se olham mais no metrô, nas ruas.”

Ouvi essa frase de uma senhora uns meses atrás e na época achei meio exagero. Que tonta, eu!! Ela estava coberta de razão.

O pessoal parece um zumbi hipnotizado pelo efeito smart phone, com a cara enterrada na tela como se o barato da vida se resumisse a notificações, mensagens e feeds na timeline.

Está aí a demência da nossa época. A tragédia dos nossos vínculos.

 

É tão gostoso marcar presença no agora…

Entrar num ambiente e senti-lo sem pressa, do cheiro aos sons, dos móveis às pessoas;

correndo os olhos pelo conjunto da obra, se fixando em um ponto singular para depois seguir adiante.

São nesses passeios que a gente percebe os detalhes de tudo e vai penetrando cada vez mais rente nas gradações de sentido, intenção e possibilidades do mundo.

 

Estamos intolerantes, polarizados, agressivos e mimados?

Em vários casos sim, talvez seja pela pressa em

  • consumir, descartar
  • curtir, repudiar
  • seguir, não mais seguir
  • amar, odiar

que passou a ser a tônica do momento.

Mas nada concretamente robusto brota da superficialidade de um clique.

É preciso que haja tempo investido, momentos sobrepostos e visão aguçada para assimilar o que quer que seja.

É preciso que haja TEMPO e que aprendamos a LER o entorno e o lado de dentro também. A nossa subjetividade depende disso para se desenvolver de um jeito saudável e atrelado às múltiplas realidades existentes.

Que essa histeria passe logo e a gente tome gosto em desfrutar em vez de simplesmente consumir.

Quem sabe um exílio no deserto do Saara ou numa jaula sem WiFi não ajude! 😉