Pra que servem os homens?

Para preencher carnalidades pulsantes e pouco refutáveis;

violar nossas fachadas de santas imaculadas;

sucumbir à tentação convincente

de

tetas

coxas

quadris

vagina

e

lábios pintados?

 

Ou

para serem filhos amansados no quentinho de um amor naturalmente zeloso e vigilante?

 

São eles pais, tecedores de abrigos físicos e simbólicos contra os medos que sentimos de um abandono literal ou metafórico?

São eles amantes indiferentes às nossas carências mais ameninadas e desejosas de confirmações de fidelidade?

 

Eles nos amam? Nos odeiam?

Nos amam/odeiam?

Nos veneram? Nos usam?

Nos veneram/usam?

 

Melhor que sejam fortes para compensar nossas fragilidades

ou

inseguros para nos fazer suas donas incontestáveis?

Melhor que agucem nossas inseguranças mais histéricas e libidinosas ao cobiçarem as outras

ou

que nos pertençam em

olhos

peito

pau

e

se acabe então

a história

de

sedução

conquista

poder

e

disputas amorosas?

 

Para que servem os homens?

 

 

 

Fêmeas, Mulheres e Moldes

No último dia deste mês faço 3.0 com comemorações bem menos faraônicas do que eu imaginava para a ocasião.

Sim, é uma virada de página importante,  ritual de passagem e tal,

mas num plano alargado, não passa de um dentre milhares de simbolismos que criamos para decorar (ou complicar) a vida.

 

Que haja o essencial, então:

 

saúde, família

amigos

encontros

afeto

(E um pedido secreto atendido)

(E muita comida boa na mesa)

 

A crise dos 30 veio aos 28 porque eu gosto de precocidade.

 

É isso o que eu realmente quero da vida?

O que funciona pra mim?

Onde e com quem quero estar?

Isso vale? Não vale?

E o quanto vale?

 

Carreira divórcio sonhos  pazes com o passado

individualismo

generosidade

os outros

e

eu

LUTOS

choro cuspido

divã com o espelho

meu colo,

meu ninho

 

Hasodot é um filme israelense sobre mulheres e sua dinâmica asfixiada dentro de um mundo de homens.

“Como Nossos Pais” já marca a transição ou coexistência pouco pacífica entre os tempos de submissão e os de empoderamento feminino.

Tradições, feminismo, dramas familiares, sexualidade constrangida, amores,

tabus externos construindo amarras internas aqui,

ou encorajando transgressões ali.

 

Às vezes, a força do social entranha ainda mais correntes e trincheiras na alma das pessoas.

Em outros casos, o incômodo das feridas abertas é o que impulsiona nossos voos mais audaciosos.

 

Difícil saber o que vinga apoiado no quê.

Algumas mulheres são guerreiras por terem essência para isso ou pelo sangrar do chicote?

É uma questão de escolha ou falta dela?

Não faço a menor ideia…

 

Naomi e Michelle se apaixonam.

A primeira, austera e reprimida por fora. Filha exemplar, linda, inteligente, prendada, seca, impessoal, impermeável. Único traço de viço: a religiosidade.

Michelle = Criada na França, desbocada, presunçosa. Moderninha e rebelde por fora, tradicional e romântica por dentro. Quer casar e ter uma família normal. Abandona a amante por isso.

Para mim, a melhor fala do filme sai da boca de um homem – o noivo de Michelle.

“Não que eu seja especialista em assuntos do coração, mas entendo alguma coisa sobre música. Na música, você sempre aprende a tocar do modo tradicional, mas às vezes, o modo não tradicional é o certo”.

Um discreto “você e minha futura esposa podem se pegar à vontade”?

Talvez.

 

Amei esse trecho porque ele tem gosto de vida real e o que foi sugerido para questões amorosas/sexuais vale, na verdade, para tudo.

Quando acatar a hereditariedade dos costumes, normas e desejos?

Quando escrever uma nova história e ser revolucionária?

Está aí um prato cheio para os nossos nervos e neurônios.

 

Mulheres e homens de hoje vivem a angústia da liberdade, com seu mosaico de rotas e consequências que anima, desespera. É o drama do filme Efeito Borboleta vivido cada vez com mais nitidez para quem ousa notá-lo. Para todas as outras mulheres (e homens), a vida continua sendo como a de nossos pais.

 

Com a casa nas costas

Já me corroeu perceber que em parte alguma há um lar derradeiro;

aquele que me conteria com autoridade e esperança na infinitude.

 

Mas será que minhas noções de pertencimento podem ser assim tão convictas?

Se eu arranhar o topo dos afetos físicos e sutis que sinto a ponto de expô-los e revirá-los, o que sobraria?

 

Por que eu amo quem amo?

Por que eu volto para quem volto?

Por que ignoro certos caminhos e me lanço em outros?

O que sedimenta meus vínculos?

O que desmantela meu interesse?

 

É mais fácil apreender o que flui e agrega do que decifrar as trajetórias e critérios do que me causa repelência ou aproximação.

E por isso eu mudo e permaneço no mesmo lugar (sigo do mundo e continuo provinciana)

para que minhas andanças nunca me apartem de vez dos tesouros que já encontrei

e minhas permanências não me atrofiem numa jaula de marasmo e obsolescência

pois eu preciso

de

âncoras e asas

para me sentir

atada

e

diluída.

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Que cabelo é esse?!

“Agora prepare-se para as hostilidades, menina”

Foi o que eu disse à mim mesma depois de tosar a juba meio crespa, meio alisada.

Até entrar em transição, eu nunca tinha parado para analisar essa peculiaridade da cultura brasileira:

O cabelo que cresce cacheado ou crespo na cabeça de uma enorme parcela das brasileiras é adestrado e escondido por baixo de químicas drásticas e do calor de chapinhas

pra que ninguém nos perceba mestiças,

pra que todos nos julguem

mais brancas do que de fato nós somos.

 

E de onde vem esse tratar tão envergonhado e ressentido daquilo que enxergamos no espelho e carregamos no sangue?

 

Será que é da nossa TV artificialmente esbranquiçada?

Das favelas predominantemente escurecidas?

Das famílias e escolas, muitas vezes, resignadas?

 

Em que momento faltou um “não” às ofensas?

Em que lugar desovamos o “sim” ao nosso amor próprio e que transpõe as hierarquias falsamente construídas e preservadas entre negros/índios e brancos?

Que cabelo é esse, menina?!

É o que cresce naturalmente na minha cabeça com vigor e liberdade para ser o que ele tem pra ser.

Por que você cortou aquele cabelão liso lindo?

Para ter um cabelão crespo igualmente lindo!

 

Nossa, e se ele crescer pra cima?

Eu deixo! 😉

 

Cabelo liso, ondulado, cacheado, crespo….

Pele branca, negra, amarela ….

Altos, baixos, magros, gordos….

Somos todos diversos

Somos todos humanos à nossa própria maneira e contornos.

 

Pra que esse pensamento retardado de que a beleza se restringe à meia dúzia de tipologias?

Por que tapar nossos olhos para a vastidão do humano, que é único, diverso e obrigatoriamente heterogêneo?

 

Deus me livre me achar puramente alguma coisa!

Eu sou preta, branca, índia, latina, portuguesa….

Eu sou HUMANA.

 

You Gotta Be

 

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E o livro sai quando?

Escrever em si é simples, principalmente, para quem faz disso um hábito há pelo menos duas décadas.

Mas pelo que escrever?

Que rumo e gosto dar às sucessivas correntes que me cortam?

E que propósito agregar a essa vocação?

Aliás, vale a pena ter uma finalidade clara e prática para minhas subjetividades?

Ou seria melhor apenas transmiti-las sem critérios nem ambições?

 

Será que eu tenho assim tanta coisa a dizer que mereça um livro?

Será que meus conteúdos seriam relevantes para os outros?

Que diferença faria mais um livro de mais uma jovem neste mundo tão bem servido de obras boas, ótimas, geniais, medíocres, ruins e péssimas?

Que impacto teria em mim finalmente me tornar uma autora?

Mas, um livro realmente precisa fazer diferença para merecer ser escrito? E se sim, como é que se mede o peso e a ressonância daquilo que nem veio a ser?

Será que as pessoas de ação e História foram tão minuciosamente reflexivas sobre suas biografias ou os fatos em suas vidas se sucederam mais ou menos planejados, mais ou menos atropelados?

Mente, criadouro eterno de problemáticas

que nunca se rendem

que nunca se bastam!

Essas e mais uma vastidão de outras questões me fazem companhia há tempos.

Já foram um tormento espinhoso, hoje apenas me lembram do quão ramificada é a minha relação com a escrita a ponto de eu oscilar entre extremos de pura devoção/ orgulho e de constrangimento/aversão por tudo que já imprimi em linhas.

Isso porque a Aline do texto de ontem não necessariamente é a leitora de hoje.

Isso porque em mim se abrigam entidades variadas que se hostilizam e competem com fúria e deboche.

Para começo de conversa, eu nunca sou a mesma e as manobras que faço raramente obtêm apoio unânime das forças que pensam, desejam e se movimentam dentro de mim.

Então, o livro sai quando?

Ele sai quando for inevitável.

Quando conquistar a maioria elegível dos votos.

Quando a vontade de escrevê-lo superar o acalento de não tê-lo na concretude.

 

Desculpa esfarrapada de gente preguiçosa e pouco arrojada?

Pode ser.

Condição caprichosa de quem vê mais afetos do que praticidade nessa empreitada?

Também.

 

Eu não sei e tenho raiva de quem sabe.

Porque desconfio que é esse jeito assim inacabado e fatalmente contraditório

que projeta no caminho à minha frente os contornos originais do que me define,

os motivos submersos que me propelem.

E assim, vou me contendo para continuar avançando

e me escancarando para não

engolir o último gole

porque me apavoro com o desespero

de um grande desejo saciado

e

prefiro que durem algumas de minhas fomes.

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Se é pra viver que seja à queima roupa

Não muito raro, me pego às voltas com uns desejos que tenho há tempos e que ainda não vingaram. Rodo daqui, rumino dali…

 

Por que ainda não aconteceu?

Será que não é pra ser?

O que tem de errado?

Mas que inferno!

 

Quando o mi mi mi acaba e a vergonha na cara volta, eu me pergunto:

 

Mas o que você anda fazendo para realizar esse desejo?

Você já tentou todas as rotas?

Já usou todas as cartas?

Já ponderou sobre todos os erros?

Enfim, a clareza sobre o que você quer e o plano para chegar lá estão em dia e em curso?

 

É CLARO QUE NÃO, NÉ?!!

 

Se VOCÊ estivesse na disciplina e atividade, não estaria passando raiva nem se fazendo de injustiçada- sofredora -Maria do Bairro – desfavorecida pelo universo.

 

É muito mais cômodo pensar que existe uma conspiração invisível para que tudo dê errado, mas eu me recuso a acreditar nisso simplesmente porque esse tipo de coitadismo me afunda numa vala de mediocridade e chororô patético.

Eu prefiro a esperança convicta de que tudo vai dar certo, CONTANTO QUE eu invista em:

 

esforço

conhecimento

paciência

 sabedoria

e

FOCO

na direção daquilo que eu quero.

CONTANTO QUE eu pague o preço pela encomenda.

 

Porque é assim que tem funcionado pra mim desde sempre.

E mesmo se der tudo errado, estarei no lucro, pois a bagagem de experiência que os tombos me trazem se transforma em trunfo para todas as empreitadas futuras e me torna muito mais à vontade com as inseguranças da vida.

Deixar de apostar naquilo que se quer é o caminho mais curto para o desgosto e a impermeabilidade existencial.

Assim como os rios, nós somos um leito que demarca as divisas do que nos cabe de fixo e repetitivo.

Assim como os rios, nosso conteúdo é fluido, escorre, evapora, abaixa e transborda sob o efeito de ciclos e confrontos diversos que nem sequer compreendemos.

 

 

 

Estado Islâmico – Mais Uma Podridão Humana

A noite começa com uma comovente reportagem do jornalista Yan Boechat sobre a guerra no Iraque.

Auditório lotado em plena quinta-feira para ouvir sobre disputa de poder, religião e política na Casa do Saber.

Compreender as disputas e reviravoltas no Oriente Médio em duas horas de palestra estava fora de cogitação. Com sorte, em alguns anos de estudo minucioso eu chegaria a uma ideia mais ou menos encorpada sobre o que anda acontecendo por lá. Mas os relatos do Yan me ajudaram a atenuar, de uma maneira bem franca e panorâmica, essa visão monocromática que acabamos tendo sobre o assunto.

Cheguei curiosa, saí ainda mais convicta de que, quando queremos,

nós somos a escória do mundo!!

A magnitude da nossa baixeza é catastrófica e imperdoável, posto que temos cérebro e bilhões de neurônios.

Por poder territorial, político, religioso e econômico

perseguimos torturamos matamos estupramos

fabricamos órfãos e viúvas em série

dizimamos famílias

devastamos sociedades

cunhamos nas vítimas que sobram

uma obsessão por vingança que renova anos após anos,

décadas após décadas o mesmo vício

de dor

destruição

e

sangue

de polo a polo

 

Eu adoraria acreditar na possibilidade de um mundo sem guerras e disputas intratáveis, mas COMO?

Sob qual pretexto?

 

O que falta ao bicho homem pra que ele pare de construir sua fortuna à custa da miséria alheia?

O que lacra a sua capacidade de ver o seu semelhante como alguém igualmente merecedor de respeito, liberdade e dignidade?

 

Onde termina o fundo desse poço?

Como se preenche a vacuidade dessa alma?

 

Eu não sei!

menino

 

 

E se tudo der errado?

Os desejos mais entranhados acalentam e desesperam

porque são ninho e nudez.

Se vivemos apenas sua forma encenada, que reside nos sonhos a olhos despertos, mas que em nada modifica o transcorrer da vida, eles simplesmente amornam a frieza dos dias banais multiplicados em lotes na rua, na cama e no trato com os outros;

Se os queremos mais sólidos e infiltrados na realidade, toda a sorte de aflições e fatalismos perfura a mente ao pensarmos na dor do fracasso.

 

E se tudo der errado?

Se eu falhar na rota?

Se minha carência de método me deixar exposta?

Se o peso da minha ignorância me arremessar num abismo?

Se eu não for competente o bastante, o que eu faço?

Se todos me verem tombar, o que eu digo?

 

Digo que sou HUMANA e isso pressupõe, rigorosamente, uma natureza aberta a aprimoramentos, onde o erro mora ao lado do acerto e as ambivalências são a matéria-prima de cada átomo que compõe minha substância.

Jamais serei 100% forte, serena e coesa

Jamais serei 100% frágil, vulnerável e passiva

porque meu destino é ser múltipla, híbrida.

 

Sou feita de choro e desgostos;

sou feita de risos e dádivas.

E que assim seja até o último suspiro.

 

Eu, que sou o centro do universo, merecia muito mais da vida

Na cabeça, um ideal de família; utópico, enfático e apartado dos seres envolvidos; no peito, uma revolta ruminada por anos sem fim nem critério:

Se minha mãe fosse mais competente,

se meu pai fosse menos omisso (ou não tivesse me abandonado),

se meus pais fossem menos protetores,

se eles fossem mais presentes,

se eles se amassem,

se eles não se odiassem,

se eles amassem menos um ao outro e mais a mim,

se eles se ocupassem mais de si e me deixassem em paz,

se eu fosse filha única,

se eu tivesse irmãos,

Se minha família não fosse tão medíocre em relação à grandiosidade da minha própria existência de semideusa erroneamente condenada à vida na Terra (e com esses pobres diabos), tudo seria perfeito!

E eu seria e teria tudo aquilo que “mereço” por direito supremo e soberano.

Como não é bem assim, eu me arrasto pela vida costurada a um pedestal de vítima do mundo, exigindo pateticamente ser ressarcida por cada lágrima, decepção e ofensa sofrida;

porque eu MEREÇO mais da vida!

Porque minha dor e carências são maiores que as deles (os pais) e de todo o resto da humanidade viva, morta, apodrecida desde o início da espécie.

Sem contar que eu, no lugar deles, seria mais amorosa, responsável, provedora, consistente e coerente com meus filhos; ou não cometeria a estupidez de tê-los já que parir é tão cafona e ultrapassado.

Mas se um dia,  meu “eu faraônico” parar de odiar e/ou competir com meus pais, talvez eu me banhe na fonte da sabedoria, que é translúcida, pura, desapaixonada e serena, e volte para o convívio com eles e os outros mais humilde e razoável.

E então, com uma percepção mais panorâmica (e menos egocêntrica) do que é a Vida  cunhada em seres humanos que pensam, amam, odeiam, sangram, ferem, temem e agem sempre à luz da sua própria ignorância/consciência (que é deles e não minha), eu finalmente entenda que cada um (inclusive eu) dá aquilo que tem e nunca o que os outros, por alguma razão legítima ou caprichosa, esperam receber. E que relações vividas a partir de uma negociação realista de demanda/oferta e afinidades são muito mais prazerosas e significativas.

Rótulos, papéis e hierarquias à parte, somos apenas presença humana diante de outras presenças humanas. E o amor só nasce quando essas presenças humanas se notam e se aceitam com clareza de olhos e almas. Em todos os outros casos, tudo não passa de formalidade e cegueira generalizada.