É Dia dos Pais Outra Vez

É seu este humor meio sarcástico, meio abobalhado que tenho, e também minha loucura por boa música. Como eu poderia amar Streets of Philadelphia e Bolero de Ravel? Como?

Toda vez que penso criticamente é a sua voz ecoando:

“Usa a cabeça que ela não foi feita só pra separar as orelhas!”

E talvez cada elogio que faço a uma pessoa querida seja uma réplica do seu orgulho confessado em palhaçadas e piadinhas sem graça.

Passei na Cefeteq e escutei:

“Agora vai aprender a fazer sabão, né? Já descobriu a fórmula da Coca-Cola?”

Saí de casa sabendo menos zero sobre cozinha e lá veio você com um pacote de arroz de saquinho Uncle Bens e strogonoff pronto debaixo do braço. “De fome não morre”.

Fui morar na Turquia e só ouvia:

“Já comprou sua burca? Vai ficar bonitinha”.

Memórias. São tantas, tantas.

Como eu queria ter tido mais tempo!

Se eu não fosse tão desgarrada haveria um tantinho a mais, não é? Mas como saber se a vida é sempre este maldito cheque em branco? Eu jurava que a sua ausência se adiaria por pelo menos mais 10, 20 anos. Jurava!

Revirando o que se passou nesses quase 3 anos, o único consolo que encontro foi ter conseguido te dar uma última alegria:

“Você voltou ao Brasil só pra me ver, só pra me ver”.

Sim! E voltaria quantas vezes pudesse.

Meu primeiro livro eu nem sei quando e como sai, mas com certeza o teu nome, José Médici, (vulgo meu velhinho) estará bem ali ao fim de uma dedicatória fatalmente insuficiente junto com uma dúvida:

Que gaiatice ele diria desta vez?

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Nada a ver como era antes

Um dia acreditei na permanência das coisas, do semblante no espelho a pessoas achegadas. Tudo um arquivo vivo de escaninhos feitos pra durar.

Um dia, que foi anteontem, pensava me conhecer como se fosse um cômodo por onde se faz inventário com os olhos das medidas, mobília, enfeites

e até da incidência de luz sobre o sofá de canto ou o quadro de fundo branco pousado meio torto parecendo dançar.

 

Hoje à tardinha, mudei de ideia.

Passei a acreditar que me conheço como a um bebê recém-chegado ao mundo de fora de quem pouco se sabe além de choros, mamadas, gracinhas e prisão de ventre;

e que vai mudando assustadoramente de um dia pro outro, se tornando outro e mais outro e ainda sendo o mesmo do primeiro instante lá no útero.

A essa altura já não sei se me conheço ou se só me percebo como vultos;

tudo ficção, tipo um amigo imaginário de quem se fica íntimo mesmo sem existir de fato;

ou como histórias dos tempos de criança que a mãe conta e a gente confirma como lembrança também nossa tão viva quanto a visão de um cômodo

por onde se faz inventário com os olhos das medidas, mobília, enfeites

e até da incidência de luz sobre o sofá no canto ou num quadro de fundo branco pousado meio torto parecendo dançar.

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Um Domingo na Paulista

Vencido o desafio da minha chegada à terra onde biscoito é bolacha, me vi pronta para zanzar por uma das avenidas mais apinhadas da capital paulista em sua versão “de folga” – sem automóveis, stress e correria. Ou se preferirem, no modo “também sei relaxar”, com patins, bikes, skates, famílias, cachorros e tudo mais de que é feito um dia de domingo agradável.

O sol faz as honras da casa oscilando os termômetros entre 23 e 28 graus, e um morador se exaspera ao telefone:

– Está uma fornalha aqui, mano! MUITO QUENTE!

Como assim?! Consulto minha experiência em matéria de calor vulcânico duramente acumulada em 20 poucos anos de Rio de Janeiro e me escapam risadinhas irônicas.

Se o inferno realmente existe, um dos seus centros de treinamento intensivo está localizado bem ali em solo carioca, com destaque merecido para as bandas da Baixada Fluminense onde brisa de mar é lenda urbana e a quentura do asfalto compete com a de um incinerador.

Exageros meteorológicos à parte,  me atenho agora ao vai e vem das pessoas. O balanço é bonito e bem versátil. Aos poucos toda a sorte de tribos vai se apresentando nas pistas espaçosas da avenida.

Na ala dos atletas, destaque para o pessoal esbelto e com cara de boa saúde. Shorts, tênis e regatas; passadas firmes, corridinhas ou pedaladas pela ciclovia. E então identifico uma nova categoria de trabalho: “bandeirinha de trânsito” – funcionário provavelmente da prefeitura que faz as vias de semáforo humano organizando os cruzamentos com uma bandeira vermelha.

Com cara de tédio, ele se põe resignadamente de pé em frente à faixa de pedestre e de tempos em tempos, suspende a bandeira com firmeza e certo ar de autoridade. Ciclistas e pedestres param ao sinal do rapaz para que as pessoas possam atravessar sem risco de colisão. Está aí uma boa ocupação para quem gosta de tarefas com baixíssimo grau de dificuldade.

Mais à frente uma senhorinha dança animada ao som de um cover tosco de Elvis Presley. Apesar da qualidade duvidosa, ela parece satisfeita e transportada para os tempos de sua juventude.

Crianças eufóricas com o tamanho do seu playground, cãezinhos se abanando de alegria e adultos em conversas animadas vão desfazendo, ou pelo menos atenuando, a imagem do paulistano workaholic e sempre apressado.

O entardecer vai se chegando morosamente e eu me deixo sentar numa das esquinas para assistir ao melhor que os meus olhos e ouvidos capturaram do dia. Um belo show de jazz. Boa música para embalar os corpos, despertar os ouvidos e acima de tudo, afagar a alma de quem por ali passou e ficou.

Aline Oliveira

 

Carolina Zingler & Nunvens

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