E se eu me contasse uma história?

A única liberdade que conheço é a aceitação do que sou onde o olho do mundo não chega.

Fora isso, persisto espremida neste Todo caótico, mas simbolicamente explicado que é pra’gente não morrer de desespero.

Às vezes, me dói. Às vezes, faz bem e há quando nem bem nem mal, nem útil ou inútil.

Em tempos mais serenos, fico olhando as coisas passarem devagar ou de pressa. Vivendo mais para dentro ou mais pra fora.

Já tentei seguir em linha reta: ou só para dentro, ou só para fora, mas nunca funciona. Parece que tanto o excesso de mim quanto o excesso dos outros envenenam esta natureza talhada pro eu-nós.

Então, desisto de fingir que controlo e me volto à correnteza, onde uma parte eu decido e a outra se decide por conta própria sofrendo influência de absolutamente tudo que coexiste para além do que sou capaz de perceber; dos lençóis freáticos aos mandamentos da Via Láctea (e muito mais acima e abaixo), há um sem fim que não alcanço, mas que me alcança,

me impulsiona, me esmaga, me mantém de pé, me protege as sensibilidades, me pega pela mão e ensina como devo ser e que um dia me destruirá. Primeiro, aos poucos e depois com uma única cortada de vida. E mesmo nesse dia (ou noite, ou madrugada), eu ainda não saberei

por quê?

pra quê?

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Uma Tarde de Abril

Enche o peito e se desmonta no banco do canto com o rosto prensado no vidro.

Nos outros com seus momentos, ela nem repara.

Para pensar no que foi bom, apenas o chiar do ar se esgueirando pelo lado de dentro da pele, querendo sobrar bem no centro do corpo. A cena passada a limpo fala a fala, gesto a gesto e tremor – um susto gelado na boca do estômago bem quando tudo começou.

– Não quero que morra! Não posso com isso!

Deixa estar aqui por perto, rondando à minha volta para eu gastar até minguar como roupa surrada de tanto se amar.

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Sabe-se lá no fundo

Da porta pra dentro, o que me engrandece é esta subjetividade bem construída e

amparada no que me parece genuíno.

Saber-me indivíduo solto e às vezes descontinuado da cultura, com vontades e demandas

próprias antes de seguir a manada porque o mundo e as ideias dos outros nem sempre

coincidem ou favorecem meu rumo.

Ah, este rumo que até eu desconheço, mas que num cessar de ruídos à volta, se agiganta

e me indica

É por aqui, Aline. Pode vir.

E eu vou desavisada do preço ou dos dedos apontados.

Eu vou de olhos cerrados e poros abertos, lançada ao que nem sei nomear, mas que intuo

ser meu, só meu.

Aprendi a viver assim, assentada em mim mesma

na alegria e na tristeza,

nos acertos e nas burradas (que não são poucas),

absorta em processos que me talham e estremecem;

compreendendo que por fim já bastam as delícias e tragédias que este corpo, mentalidade e desejos me permitem viver.

 

 

Miss Fêmea Existe?

Assisti a um debate curioso entre uma ex-feminista e uma feminista vereadora.

Esperava mais das duas e também da mediadora.

Achei a conversa um pouco rasa e desorganizada. Mas já é um começo e nada nasce pronto.

Não faz muito tempo que tudo sobre nós era quase que exclusivamente pensado e divulgado por homens.

Da nossa alma ao que temos entre as pernas, eram eles a nos dizer e apontar peculiaridades, pequenez e/ou serventia.

Eram eles a nos estipular um caminho e também a delimitar os espaços geográficos e sociais por onde circularíamos, devidamente de acordo com a cor de nossa pele e o status da nossa casta, o que de certa forma, continua ainda vigente, porém, vem perdendo sua aura de sagrado.

Há muitos exageros e delírios nos discursos feministas que ando ouvindo por aí, assim como um mundaréu de disputas e acusações entre alas divergentes dentro e fora da mentalidade feminista.

Pra que essa gaiatice?

Faz-se muito mais por si e pelas outras no âmbito da prática e de debates não inflamados.

Mas acho importante esse fuzuê de pontos de vista e quero todas no balaio:

A dona de casa, mulher de um homem só

A solta no mundo com um milhão de aventuras e romances

A que gosta de macho

A que gosta de fêmea

A que curte qualquer ser humano que lhe encante

A que nasceu com xana

A que é mulher de alma…

E também os homens porque não acho graça em revanche e alternância de opressões.

Pra mim só não vale a estupidez da mentalidade estreita que julga como certo só o que cabe na sua própria cartilha e não estuda nem troca com o contraponto.

E muito bem me faz conviver com estilos mais à esquerda e à direita da minha própria trajetória porque num planeta com 7 bilhões de possibilidades existenciais, é uma burrice pensar que todos fluem de um mesmo leito e para um só destino.

 

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Não é só cabelo

Como teve coragem de cortar o cabelo tão pequeno?”

Pesquisando bastante no YouTube, seguindo meninas sensatas que já tinham passado pela transição e respeitando o meu próprio tempo.

“Deve dar um baita trabalho cuidar de um cabelo cacheado assim, né?” 

De jeito nenhum. Só tive que ter um pouco de paciência pra descobrir do que ele gosta/precisa em termos de shampoo, hidratação e óleos.

“Você já sofreu discriminação?” Não que eu tenha notado, mas alguns olhares curiosos e insistentes sim, principalmente quando estou de turbante.

Se arrependeu?

Nem por um milésimo de segundo!

Não faço nem farei militância contra as alisadas ou relaxadas porque acho isso uma falta de respeito e um certo jeito cafona de tirania.

Mas deixar que meu cabelo cresça à sua maneira é um decidir me sentir bela na minha própria etnia;

Um dar de ombros para o que não me é naturalmente pulsante e que por isso agride minha SOBERANIA! Continuar lendo

Um Prego no Meio da Rua

A gente pensa que supera…

Para certas perdas não há tal coisa.

Comecei a ler este livro sem saber do enredo e, pra minha surpresa, ele começa com o drama de um senhor que acabou de perder sua esposa depois de 48 anos de casamento.

Como não lembrar do meu velhinho que se foi em 2016?
Impossível!

Chorei até ficar sem ar e ter que abandonar a leitura.

Fui me amuar no quarto pensando que o vazio e a dor nunca passam. Eles só se acomodam num canto menos evidente, vindo à tona quando algo ou alguém aperta o gatilho.

Mais adiante na leitura, ganhei um consolo:

“… um dia essa saudade vai ser benigna, a lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que nós nos orgulhamos de guardar, como um troféu de vida… que já não dói e que lhe traz apenas felicidade…”

Estou contando com isso de verdade.

Leiam muitos bons livros, pessoal.

Às vezes, machucam, mas também afagam porque dentro deles cabe toda a humanidade que temos, da miséria à glória, do lodo ao paraíso. E a gente vai ficando mais bem situado com esses estremecimentos da vida. Continuar lendo

Nada a ver como era antes

Um dia acreditei na permanência das coisas, do semblante no espelho a pessoas achegadas. Tudo um arquivo vivo de escaninhos feitos pra durar.

Um dia, que foi anteontem, pensava me conhecer como se fosse um cômodo por onde se faz inventário com os olhos das medidas, mobília, enfeites

e até da incidência de luz sobre o sofá de canto ou o quadro de fundo branco pousado meio torto parecendo dançar.

 

Hoje à tardinha, mudei de ideia.

Passei a acreditar que me conheço como a um bebê recém-chegado ao mundo de fora de quem pouco se sabe além de choros, mamadas, gracinhas e prisão de ventre;

e que vai mudando assustadoramente de um dia pro outro, se tornando outro e mais outro e ainda sendo o mesmo do primeiro instante lá no útero.

A essa altura já não sei se me conheço ou se só me percebo como vultos;

tudo ficção, tipo um amigo imaginário de quem se fica íntimo mesmo sem existir de fato;

ou como histórias dos tempos de criança que a mãe conta e a gente confirma como lembrança também nossa tão viva quanto a visão de um cômodo

por onde se faz inventário com os olhos das medidas, mobília, enfeites

e até da incidência de luz sobre o sofá no canto ou num quadro de fundo branco pousado meio torto parecendo dançar.

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A Paz dos 30 não Tem Nome nem Muros

É qualquer coisa de mais mansa e desafetada como chuva miúda que molha,

mas sem estrago.

 

Os dias vão ficando assim menos sensacionalistas, com o olhar se demorando um pouco mais em pormenores como se visse uma pintura momentânea e por isso agisse para estar alinhado, sorvendo suas tintas e lombadas.

É mais bonita a vista deste canto da mente.

Faz o espírito se espichar num tantão sem firmamento e eu só penso que acabei de entender que estou viva.

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Um Manifesto de Amabilidades

Que sempre haja entre nós espaço para a minha e a tua naturalidade vingarem

E que todas as ideias de supremacia e dominação evaporem no exato momento em que meus olhos cruzarem com os teus.

Deixemos, então, os acessos de egoísmo esperando num canto da sala para brincar de ser dupla, liga e comunhão

fundidos numa atmosfera mística onde proliferam todos os tipos de amores e encantamentos avolumados.

E por fim, que as nossas almas se acheguem com clareza e docilidade

E que o recostar do meu mundo no teu produza uma explosão afortunada de vivências, texturas, sabores e pertencimento.

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