Pra que servem os homens?

Para preencher carnalidades pulsantes e pouco refutáveis;

violar nossas fachadas de santas imaculadas;

sucumbir à tentação convincente

de

tetas

coxas

quadris

vagina

e

lábios pintados?

 

Ou

para serem filhos amansados no quentinho de um amor naturalmente zeloso e vigilante?

 

São eles pais, tecedores de abrigos físicos e simbólicos contra os medos que sentimos de um abandono literal ou metafórico?

São eles amantes indiferentes às nossas carências mais ameninadas e desejosas de confirmações de fidelidade?

 

Eles nos amam? Nos odeiam?

Nos amam/odeiam?

Nos veneram? Nos usam?

Nos veneram/usam?

 

Melhor que sejam fortes para compensar nossas fragilidades

ou

inseguros para nos fazer suas donas incontestáveis?

Melhor que agucem nossas inseguranças mais histéricas e libidinosas ao cobiçarem as outras

ou

que nos pertençam em

olhos

peito

pau

e

se acabe então

a história

de

sedução

conquista

poder

e

disputas amorosas?

 

Para que servem os homens?

 

 

 

Fêmeas, Mulheres e Moldes

No último dia deste mês faço 3.0 com comemorações bem menos faraônicas do que eu imaginava para a ocasião.

Sim, é uma virada de página importante,  ritual de passagem e tal,

mas num plano alargado, não passa de um dentre milhares de simbolismos que criamos para decorar (ou complicar) a vida.

 

Que haja o essencial, então:

 

saúde, família

amigos

encontros

afeto

(E um pedido secreto atendido)

(E muita comida boa na mesa)

 

A crise dos 30 veio aos 28 porque eu gosto de precocidade.

 

É isso o que eu realmente quero da vida?

O que funciona pra mim?

Onde e com quem quero estar?

Isso vale? Não vale?

E o quanto vale?

 

Carreira divórcio sonhos  pazes com o passado

individualismo

generosidade

os outros

e

eu

LUTOS

choro cuspido

divã com o espelho

meu colo,

meu ninho

 

Hasodot é um filme israelense sobre mulheres e sua dinâmica asfixiada dentro de um mundo de homens.

“Como Nossos Pais” já marca a transição ou coexistência pouco pacífica entre os tempos de submissão e os de empoderamento feminino.

Tradições, feminismo, dramas familiares, sexualidade constrangida, amores,

tabus externos construindo amarras internas aqui,

ou encorajando transgressões ali.

 

Às vezes, a força do social entranha ainda mais correntes e trincheiras na alma das pessoas.

Em outros casos, o incômodo das feridas abertas é o que impulsiona nossos voos mais audaciosos.

 

Difícil saber o que vinga apoiado no quê.

Algumas mulheres são guerreiras por terem essência para isso ou pelo sangrar do chicote?

É uma questão de escolha ou falta dela?

Não faço a menor ideia…

 

Naomi e Michelle se apaixonam.

A primeira, austera e reprimida por fora. Filha exemplar, linda, inteligente, prendada, seca, impessoal, impermeável. Único traço de viço: a religiosidade.

Michelle = Criada na França, desbocada, presunçosa. Moderninha e rebelde por fora, tradicional e romântica por dentro. Quer casar e ter uma família normal. Abandona a amante por isso.

Para mim, a melhor fala do filme sai da boca de um homem – o noivo de Michelle.

“Não que eu seja especialista em assuntos do coração, mas entendo alguma coisa sobre música. Na música, você sempre aprende a tocar do modo tradicional, mas às vezes, o modo não tradicional é o certo”.

Um discreto “você e minha futura esposa podem se pegar à vontade”?

Talvez.

 

Amei esse trecho porque ele tem gosto de vida real e o que foi sugerido para questões amorosas/sexuais vale, na verdade, para tudo.

Quando acatar a hereditariedade dos costumes, normas e desejos?

Quando escrever uma nova história e ser revolucionária?

Está aí um prato cheio para os nossos nervos e neurônios.

 

Mulheres e homens de hoje vivem a angústia da liberdade, com seu mosaico de rotas e consequências que anima, desespera. É o drama do filme Efeito Borboleta vivido cada vez com mais nitidez para quem ousa notá-lo. Para todas as outras mulheres (e homens), a vida continua sendo como a de nossos pais.

 

Que cabelo é esse?!

“Agora prepare-se para as hostilidades, menina”

Foi o que eu disse à mim mesma depois de tosar a juba meio crespa, meio alisada.

Até entrar em transição, eu nunca tinha parado para analisar essa peculiaridade da cultura brasileira:

O cabelo que cresce cacheado ou crespo na cabeça de uma enorme parcela das brasileiras é adestrado e escondido por baixo de químicas drásticas e do calor de chapinhas

pra que ninguém nos perceba mestiças,

pra que todos nos julguem

mais brancas do que de fato nós somos.

 

E de onde vem esse tratar tão envergonhado e ressentido daquilo que enxergamos no espelho e carregamos no sangue?

 

Será que é da nossa TV artificialmente esbranquiçada?

Das favelas predominantemente escurecidas?

Das famílias e escolas, muitas vezes, resignadas?

 

Em que momento faltou um “não” às ofensas?

Em que lugar desovamos o “sim” ao nosso amor próprio e que transpõe as hierarquias falsamente construídas e preservadas entre negros/índios e brancos?

Que cabelo é esse, menina?!

É o que cresce naturalmente na minha cabeça com vigor e liberdade para ser o que ele tem pra ser.

Por que você cortou aquele cabelão liso lindo?

Para ter um cabelão crespo igualmente lindo!

 

Nossa, e se ele crescer pra cima?

Eu deixo! 😉

 

Cabelo liso, ondulado, cacheado, crespo….

Pele branca, negra, amarela ….

Altos, baixos, magros, gordos….

Somos todos diversos

Somos todos humanos à nossa própria maneira e contornos.

 

Pra que esse pensamento retardado de que a beleza se restringe à meia dúzia de tipologias?

Por que tapar nossos olhos para a vastidão do humano, que é único, diverso e obrigatoriamente heterogêneo?

 

Deus me livre me achar puramente alguma coisa!

Eu sou preta, branca, índia, latina, portuguesa….

Eu sou HUMANA.

 

You Gotta Be

 

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Quero Fazer Transição e Agora?

Transição Capilar e Psicológica

 

Nos dias em que eu prefiro morrer…

Nos dias em que eu prefiro morrer, me tranco e me escondo nos cantos confusos de um mundo que é próximo e imenso, com túneis e ascendências; que é turvo, oco e mudo.

Nesses dias, outras gentes não fazem falta porque sou nada e com o nada não se conversa, não se achega.

Desencaixada em mil ladrilhos cintilantes, eu sumo pra ser sopro e sem bordas como um rio desgovernado à espreita e por toda a parte, farejando noutras formas inomináveis de gozo e sofrimentos.

Ali eu morro

envergo

expando.

Os dias em que eu prefiro morrer são eternos e circulares, me afundam a alma num redemoinho de raízes minhas e do mundo inteiro; memórias ludibriantes de uma vida que nem sei se vivo ou se invento com os olhos, nervos, pretextos e medos.

Esses dias tão adensados e roucos emergem (a toda hora  e a qualquer preço) à superfície dos poros porque é neles que moro desde o começo

num entendimento de que sou vida em decorrência e finitude.

 

Já os combati com fúria e mágoa

por me roubarem a ingenuidade e me rasgarem em lucidez irreversível.

Já os odiei sem travas

por me lançarem à solidão dos que duvidam em absurda permanência.

Hoje pouco importa o que imprimem em meus sentidos. Eu já não brigo nem me espanto porque sou eles desde o princípio.

Prostituição e a Manutenção da Espécie

Numa entrevista para o Bial, o médico Drauzio Varella relata uma cena muito tocante. Depois de ser tratada de uma doença ginecológica e se sentir muito agradecida, a detenta diz:

“Como é que eu vou agradecer esse homem que me ajudou tanto, ele que tem tudo e eu que não tenho nada? Então, eu decidi que daria pro senhor a única coisa que eu tenho pra dar [o corpo]”.

Trecho a partir do minuto 15:30.

Prostituição vai muito além da troca tradicional de sexo por dinheiro, o que nos leva a 2 categorias básicas de prostitutas (o que também se aplica, obviamente, a homens):

1.Prostitutas Comerciais – No Ocidente, são as discípulas de Maria Madalena e atendem em casas de prostituição, ruas ou fazem book rosa , testes do sofá, etc.

Foco principal: dinheiro.

2. Prostitutas Relacionais – São, ou pelo menos devem aparentar ser, propriedade de um homem só, preenchem vagas de amantes, namoradas e esposas abertas por clientes interessados em comprar companhia feminina de um jeito menos tosco e socialmente respeitável.

Foco principal: amparo psicológico e/ou ascensão social/existencial –  Subir na vida, ter filhos legítimos, fugir de uma situação familiar degradante, ganhar liberdades sociais, ter vida sexual ativa sem perseguição, etc.

E aqui chegamos num ponto extremamente crítico. Se prostituição significa prática sexual em troca de algo (e não apenas dinheiro), que mulher, em nível absoluto, escapa ilesa? Quem nunca, jamais?

Hummm, prefiro nem comentar…

Comercializar o corpo, assim como qualquer outra coisa, significa a existência de um contexto padrão:

demanda + oferta

numa ponta = desejo ou necessidade de algo.

no meio = a frustração da escassez. Eu quero ou preciso disso, mas não o tenho à minha disposição.

na outra ponta = uma fonte real ou imaginária contendo exatamente aquilo que eu quero ou desejo.

É preciso que alguém seja (ou pelo menos se sinta) pobre de algum bem de valor material ou imaterial e ao mesmo tempo tenha algum atributo relevante para decidir, consciente ou inconscientemente, se vender.

E como a lista de carências reais e imaginárias do ser humano é tão múltipla quanto a própria vida, e carregamos em nós um impulso imperioso de trocar, dar, receber, o mercado da prostituição explícita e velada está devidamente resguardado e com vigência correspondente à permanência humana sobre a Terra.

Quero Fazer Transição – E agora?

Por onde começar? O que fazer? O que NÃO fazer? O que esperar? O que não esperar?

É óbvio, mas faço questão de frisar que:

CADA CASO É UM CASO

porque

CADA CABEÇA É UMA CABEÇA

E as crenças e rotas que o SEU juízo escolhe é o que dá o tom de todo o processo.

Este post não é um passo a passo da transição em si. Isso você encontra aos montes na Internet. O que eu quero compartilhar aqui são dicas de cuidados psicológicos indispensáveis para uma transição bem feita e sustentável.

Aviso

Transição capilar é coisa delicada e bem radical. Não comece se seus argumentos ainda estiverem fracos porque é preciso um grau razoável de convicção par aguentar todos os contras internos e externos.

Facilitadores da Transição

Mente saudável- Voltar às origens significa libertação e isso não tem NADA a ver com se punir e/ou se submeter ao julgamento dos outros.

Assisti a vários vídeos de meninas que sofreram horrores (vibe “sangue, suor e lágrima”) justamente por não terem preparado bem o psicológico para a transformação.

Não precisa ser da forma mais tortuosa e inconsciente. Você pode chegar lá pelo caminho mais curto, SIM! Basta querer e investir em INFORMAÇÃO E COMPROMETIMENTO.

Minhas Dicas

Cabelo Saudável – Antes de parar com a química, gaste um bom tempo fortalecendo o seu cabelo, caso ele não esteja em bom estado, pois a tendência é a sua raiz crescer toda zoada e, aos poucos, o visual ir se transformando em algo bem bizarro. Tipo isso aqui:

page
Fase de antenas biônicas. Que miséria da moléstia!
3
Pode usar para espantar as baratas de casa.

Invista em hidratação, reconstrução e umectação ANTES, DURANTE e PRA SEMPRE (inclusive depois de morrer) porque é esse cuidado regular que vai deixar seu cabelo bonito e maleável.

Aceitação Realista – O cabelo da coleguinha é DELA. O seu é o SEU. Não adianta querer que os seus fios tenham a mesma textura daquela blogueira mega famosa, linda e bancada por marcas porque cada um é cada um.

Existem cabelos lisos, ondulados, cacheados com raiz lisa, cacheados crespos e, por fim, crespos com pouco ou nenhum cacho.

Descubra qual é o seu e abrace a ideia!

E se você já sabe, mas tem vergonha, melhor trabalhar a cachola primeiro porque o autopreconceito é uma desgraça. E eu nem preciso dizer que ele vai crescer junto com o seu cabelo e lhe afogar num mar de lágrimas (Ê Maria do Bairro!!!)

Como disse neste post aqui, a transição também é psicológica.

Sabedoria – A transição é demorada, chata e nos coloca em várias saias justas. Portanto, quanto mais paciência e cuca fresca você tiver, melhor. Faça o melhor que puder, supere os transtornos que surgirem e CURTA cada fase porque vale muito a pena! É um mundaréu de descobertas e aprendizados que você levará pra vida.

Ótimas Referências – Siga pessoas SENSATAS que já passaram por essa fase no Youtube, Instagram, Facebook etc., pois esse patrocínio visual ajuda bastante.

Eu mesma já nem me lembrava como era ter cabelo cacheado e estranhei bastante no início da mudança. Até porque não convivo com crespas e cacheadas naturais. Mas à medida que comecei a receber feeds de meninas assumidas, fui naturalizando toda a coisa e me animando com o dia em que chegaria a minha vez também.

E quando a mente está sã, todo o resto flui que é uma beleza.

Hoje vivo a fase do curtinho natural, período pós big chop, e estou amando.

Parecendo até gente. Oh meudeuso!

Semana passada, comprei um lenço aramado e aprendi algumas formas de usá-lo. Nada muito expressivo, pois me falta coordenação motora pra isso, mas eu chego lá.

Ainda tenho uns caminhos de rato nas laterais, não sei muito bem como finalizá-lo, tenho um milhão de dúvidas sobre como será quando o black crescer. Mas para todos os pontos de interrogação na minha mente, dou a mesma resposta:

Quando chegar lá, a gente vê!

Amor é aquilo que prevalece, transpassa e perdura, mesmo com todas as dúvidas, medos e cansaços. E porque eu não sou perfeita, todos os meus “eu te amo” dividem espaço com os meus “apesar de”.

Que venham todas as fases, fáceis e difíceis.

E que eu continue encontrando a rota  certa para acolher o que o espelho me revelar.

Transição Capilar e Psicológica – desafios, recompensas e lições

Passei um bom tempo amadurecendo a ideia para me livrar de uns 16 anos vivendo sob o tormento de:

domar meu cabelo crespo com químicas para não ser estigmatizada,

como se ele fosse o errado….

Eu, como milhões de outras mulheres, nasci e cresci impregnada de conceitos preconceituosos e depreciativos de tudo que contrapõe o padrão europeu de beleza.

Eu, como milhões de outras mulheres, não tinha, na infância, consciência dessa lavagem cerebral tão indecente e, na fase mais crescidinha, não me dei ao trabalho de questionar e superar tanto desrespeito disfarçado de cultura e normalidade.

Até 8 meses atrás, quando decidi ser mais eu e menos a sociedade, com seus valores doentios e extremamente segregadores.

Rio, trinta de setembro de 2016.

Meu aniversário de 28 anos. Terminei uma tradução e passei a tarde no salão fazendo uma  progressiva; a última até o momento. Ali eu já estava quase pronta para o início, só me faltava um pouco mais de orientação prática.

São Paulo, alguns dias depois.

Horas e mais horas assistindo vídeos de transitetes no Youtube, horas e mais horas de conversas comigo mesma. Começava a transição psicológica que serviria de base e abrigo para a transição capilar.

Fui mexer nas minhas crenças, em tudo o que o mundo me ensinou sobre ser negra/crespa; sobre o conceito de belo e feio, rico e pobre, cafona e sofisticado profundamente enraizado na postura:

Dê um jeito nesse cabelo, menina!

Faça um relaxamento, uma progressiva. Vai ficar muito mais “bonito”, “arrumado”, com cara de rica.

Não se engane! Não é só sobre cabelo e estética. É uma questão de saúde psicológica e intelectual também.

Desafios

Como vai ser meu cabelo 100% natural?

Como vou cuidar dele?

Será que vou achá-lo bonito?

E se me ofenderem nas ruas?

E se eu pensar em desistir?

E se…..

Ansiedade e muito medo de não dar conta. Mas comigo o negócio é o seguinte:

missão dada, missão cumprida porque nasci metida a besta! 😉

No início, achava a coisa mais linda aqueles centímetros minguados de cabelo meu (só meu, sem um dedinho de química). Com o passar do tempo, fui me horrorizando com a cena. Eu parecia um demônio ao avesso com aquele tantão de raiz natural e todo o comprimento esticado, sem força e sem vida. Mas para cada choque, um gás extra de iniciativa, informação e produtos de qualidade; mais eu me esforçava para encontrar suporte psicológico e estratégico para atenuar o estrago.

Foi tudo muito ambíguo….

Houve momentos de me sentir a segurança em pessoa, me achando bonita e muito corajosa; noutros, nem passava na frente de um espelho pra não morrer de susto. 🙂

Vivi a fase zero escova e chapinha, depois fui cedendo nos momentos em que tinha algum lugar para ir. E para dar tempo de eu digerir tanta mudança e não me torturar desnecessariamente, dividi o meu big chop em 3 cortes.

Enfim, eu me poupei e respeitei o máximo que pude para que o processo fosse tranquilo e predominantemente positivo.

Todo desafio nos exige um preço a ser pago, mas isso não significa que precisamos vivê-lo sob a cultura cafona do “sangue, suor e lágrima” tão valorizada por estas bandas.

Sem dramas, sem problematização inútil. Mas com muita força de vontade, franqueza, paciência e sabedoria para passar por todas as fases sem surtar nem torná-las um fardo.

Aprendi horrores nesses meses e de todas as lições, a mais valiosa foi o AMOR!

Amor pelo meu cabelo tal como ele é e não como os outros esperam que seja;

amor pelos momentos de intimidade que cultivei cuidando dele;

amor pela minha origem africana (que já admirava antes, mas que agora é muito mais honrada);

amor pelo que a natureza escolheu para ser meus contornos externos.

Seja lá o que lhe ensinaram sobre você, não cometa o despropósito de acatar. Não sem antes investigar a fundo se essa história acolhe e respeita a sua essência e livre arbítrio.

#NinguémÉObrigado

Padrões de Beleza- Somos Nós que Bancamos

Todo mundo fala da ditadura da magreza, mas poucos ousam mencionar que as mulheres mais fora desse “padrão ideal” são as que sustentam o esquema, seja por indução, seja por vontade própria.

Faça as contas comigo: se no Brasil, a minoria usa manequins 34, 36 e 38, como é que musas fitness e famosas globais têm milhões de seguidoras nas redes sociais?

Quem está endossando esse negócio?

Quem está enchendo o cofre dessas beldades?

Se as mulheres são assim tão passivas nesse sistema opressor, por que as produtoras de conteúdo mais influentes do Youtube Brasil (plataforma supostamente mais democrática que a TV) reproduzem exatamente os mesmos padrões das outras mídias:

pele branca ou pelo menos não tão escura, feições europeias ou pelo menos não tão “africanas”, corpo esbelto ou pelo menos não tão distante dos manequins 36-38, nascidas ou moradoras das regiões sul/sudeste, classe média/média alta?

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Será que o problema está só na sociedade?

Do que mesmo esses veículos sobrevivem?

 Público = Patrocínio = Dinheiro = Poder Social.

Sem o nosso apoio, nada disso se sustentaria. Simples assim.

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Prêmio Geração Glamour
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Casa do Youtube Brasil

Então, precisamos falar com franqueza sobre algumas verdades.

O padrão esbelto e europeu é o mais cobiçado e, portanto, mais rentável socialmente não por força do destino, mas porque nós trabalhamos por isso ao longo da História. Uns impondo, outros acatando. É assim que se estabelece a ilusão de superioridade racial. É assim que continuamos fazendo no Brasil e no mundo. A hegemonia branca continua em pleno vigor e nada mudará até que as pessoas se conscientizem desse absurdo e comecem a fazer escolhas diferentes.

Não há nada de errado em ser branca, magra, rica e famosa. A perversão está na imposição desse perfil em detrimento de todos os outros. O que precisamos é de uma abertura para que os espaços públicos reproduzam com mais coerência a diversidade humana. Só isso.

A mudança só acontece de dentro para fora. Só acabamos com a escravidão porque os indivíduos resolveram dar um basta e se organizaram para isso.

O conceito de beleza é relativo, cultural e elástico. Portanto, quando começamos a nos expor a biotipos mais variados, a nossa opinião sobre o que é belo ou feio se transforma. Então, cuidado com os referenciais de beleza que você anda seguindo.

O mais inteligente é se inspirar em quem lhe serve de espelho mais ou menos imediato.

Ou seja, se você é negra e 90% do conteúdo que consome são de mulheres não negras isso provavelmente vai detonar a sua autoimagem.  O mesmo para as branquinhas que só acompanham mulheres bronzeadas, as mais encorpadas que seguem as magrinhas, as magrinhas que seguem as saradonas. É bom ter cuidado com esses desvios porque a exposição contínua a uma realidade muito distante ou até inalcançável acaba minando a nossa autoconfiança e a sensação de normalidade.

Já existem pesquisas sobre o quão piores as pessoas se sentem ao acompanhar os feeds de seus amigos nas redes sociais. E sabe por quê?

Porque sempre compartilhamos o melhor ou o menos pior de nossas vidas. E todo mundo acaba acreditando que os outros são mais felizes. Um ciclo vicioso que só promove inveja, competição e ressentimento.

O mesmo acontece com a ideia que temos de gente rica e famosa. Inconscientemente, todo mundo julga que a vida dessas pessoas é melhor, o que não necessariamente é verdade.

Então, faça um favor à sua sanidade:

Reveja seus referenciais, hábitos e consumos.

Antes de comprar uma ideia, se pergunte:

Isso vai me ajudar ou atrapalhar?

Isso é saudável para a minha noção de bem-estar e adequação?

Não adianta culpar o mundo e muito menos esperar que ele se conserte para que você possa viver em paz.

Cada um de nós precisa aprender a se gerir de forma autônoma, sábia e realista, ponderando sobre nossos desejos, ideais, frustrações e, principalmente, sobre o rumo que estamos dando para nossa vida.

Quem se sente vítima do mundo precisa de um espelho, precisa de consciência sobre si mesmo e das relações de causa e efeito.

Ou você se governa ou morrerá sendo massa de manobra de qualquer contexto à sua volta.

#NãoSomosObrigados

Neuroses Femininas

  1. Recriminar a si e as outras mulheres por não terem um homem. Estamos no século XXI, mas grande parte das nossas crenças são medievais. Pra muitas, mulher competente é mulher com um macho do lado, ainda que ele seja um traste que não agrega.
  2. Confundir parceiro amoroso com um tapa-buracos existencial. O cara tem que ser psicólogo, Dom Juan, caixa eletrônico, coach, melhor amigo, pai, filho e outras coisas mais. A pessoa não faz nada por si e quer achar um super-herói pra carregá-la nas costas.
  3. Casar-se com o casamento e não com o marido. A guria fixa na mente um ideal de relacionamento e de homem, sai à caça de um exemplar e gruda no primeiro desavisado que topar a encenação.
  4. Renegar seu passado e individualidade quando encontra o “príncipe”. Antes dele, ela dava valor às amizades, tinha hobbies, sonhos, vontade própria. Depois de fisgá-lo, o mundo passa a girar em torno do “seu” homem.
  5. Fazer de tudo para customizar o boy. Mulher não resiste a essa tara. Mal engata um relacionamento e já começa com a listinha de tudo que pretende mudar na vida dele. Estilo de se vestir, amizades, hábitos e até mesmo objetivos de vida. Quantas não colam num cara galinha e tentam convertê-lo a pai de família?
  6. Amar mais a aliança no dedo e o sobrenome no RG do que o seu próprio bem-estar. O número de mulheres que permanecem num casamento infeliz só pelo conforto e status de casada é incalculável. Todo mundo à volta dela sabe que ela odeia a vida que leva (até porque a própria desabafa quando a coisa fica insuportável), mas ninguém tem a menor esperança de vê-la virar a página porque o apego fala mais alto.
  7. Sofrer da síndrome de mulher decente. Não faço isso ou aquilo não porque me desagrada, mas porque sou “de família” e preciso defender a classe. Querida, a quem você pensa que engana?
  8. Segregar as diferentes. As mais tradicionais apedrejam as liberais, as liberais debocham das tradicionais e assim por diante. Gente, tem mercado pra todos os gostos. Relaxa.
  9. Ver as outras como concorrentes/inimigas. E assim nasceu a classificação universal mais antiga entre a população feminina: ou é fura-olho ou é invejosa.
  10. Criticar a ditadura da magreza e da beleza no Facebook, mas se juntar com “azamiga” pra detonar aquela mulher fora dos padrões. Nós mulheres somos infinitamente mais cruéis e exigentes com a nossa aparência do que qualquer homem por aí.

É fácil culpar a sociedade, os homens (que também fazem um monte de merda) de tudo o que está errado conosco, mas e os nossos furos?

É possível uma mulher minimamente razoável e com senso crítico não se identificar com pelo menos 3 dos itens acima?

Somos tão evoluídas como quase sempre bancamos ser?

Eu acho que não.

Pelo que analiso em mim e nas outras, estamos todas na adolescência (algumas até na primeira infância) existencial posando de super maduras porque temos mais de 18 anos, emprego e podemos votar.

Maturidade nunca é acidental.Ela é fruto de esforço.

A gente só aprende se dando ao trabalho de refletir sobre as experiências que vivemos e enfrentando os desafios do trato conosco e com os outros. Caso contrário, a vida bate, reboca e o máximo que conseguimos é chorar e postar textão nas redes sociais se achando a vítima do mundo.

Mulherada, vamos acabar com as neuroses.

A vida fica muito mais leve e agradável quando apostamos na sabedoria e amorosidade.

Beijos, especialmente, para as mulheres que me leem! 😉