Nada a ver como era antes

Um dia acreditei na permanência das coisas, do semblante no espelho a pessoas achegadas. Tudo um arquivo vivo de escaninhos feitos pra durar.

Um dia, que foi anteontem, pensava me conhecer como se fosse um cômodo por onde se faz inventário com os olhos das medidas, mobília, enfeites

e até da incidência de luz sobre o sofá de canto ou o quadro de fundo branco pousado meio torto parecendo dançar.

 

Hoje à tardinha, mudei de ideia.

Passei a acreditar que me conheço como a um bebê recém-chegado ao mundo de fora de quem pouco se sabe além de choros, mamadas, gracinhas e prisão de ventre;

e que vai mudando assustadoramente de um dia pro outro, se tornando outro e mais outro e ainda sendo o mesmo do primeiro instante lá no útero.

A essa altura já não sei se me conheço ou se só me percebo como vultos;

tudo ficção, tipo um amigo imaginário de quem se fica íntimo mesmo sem existir de fato;

ou como histórias dos tempos de criança que a mãe conta e a gente confirma como lembrança também nossa tão viva quanto a visão de um cômodo

por onde se faz inventário com os olhos das medidas, mobília, enfeites

e até da incidência de luz sobre o sofá no canto ou num quadro de fundo branco pousado meio torto parecendo dançar.

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A Paz dos 30 não Tem Nome nem Muros

É qualquer coisa de mais mansa e desafetada como chuva miúda que molha,

mas sem estrago.

 

Os dias vão ficando assim menos sensacionalistas, com o olhar se demorando um pouco mais em pormenores como se visse uma pintura momentânea e por isso agisse para estar alinhado, sorvendo suas tintas e lombadas.

É mais bonita a vista deste canto da mente.

Faz o espírito se espichar num tantão sem firmamento e eu só penso que acabei de entender que estou viva.

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Desmanche

Chega às vezes ao ponto do Nada

Aquela instância de viver em que não se pretende ocupar muito espaço no mundo porque o silêncio firmou-se como o auge, o absurdo de acúmulo em experiência tátil com a vida.

Vida…

Imediata, sem pontes nem grades….

Um diluir-se mesclar-se sujar-se

com os odores e volumes dos outros

Um curvar-se, entupir-se, rasgar-se

nas calamidades e belezas dos outros

 

Onde o pensar não mora porque é xucro, sempre perdido em fundamentos que discursam e discursam

rotulam, engavetam e discursam

sobre a impressão da coisa e nunca tocam, beijam ou mordem a coisa, que exige o mergulho profano em suas ruelas inéditas para que se faça manifesta, global de si mesma.

Mas nesse verdadeiro ponto de encontro, sem contato excessivamente civilizado e aferido, nossas camadas ameaçam ir embora porque algo de dentro morre para que um pouco da coisa entre e se acomode, promovendo o que, em última instância,

é a vida, o Tudo

feito de enlace-desmanche

que tanto encanta e apavora.

 

 

 

 

Um Manifesto de Amabilidades

Que sempre haja entre nós espaço para a minha e a tua naturalidade vingarem

E que todas as ideias de supremacia e dominação evaporem no exato momento em que meus olhos cruzarem com os teus.

Deixemos, então, os acessos de egoísmo esperando num canto da sala para brincar de ser dupla, liga e comunhão

fundidos numa atmosfera mística onde proliferam todos os tipos de amores e encantamentos avolumados.

E por fim, que as nossas almas se acheguem com clareza e docilidade

E que o recostar do meu mundo no teu produza uma explosão afortunada de vivências, texturas, sabores e pertencimento.

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Nos dias em que eu prefiro morrer…

Nos dias em que eu prefiro morrer, me tranco e me escondo nos cantos confusos de um mundo que é próximo e imenso, com túneis e ascendências; que é turvo, oco e mudo.

Nesses dias, outras gentes não fazem falta porque sou nada e com o nada não se conversa, não se achega.

Desencaixada em mil ladrilhos cintilantes, eu sumo pra ser sopro e sem bordas como um rio desgovernado à espreita e por toda a parte, farejando noutras formas inomináveis de gozo e sofrimentos.

Ali eu morro

envergo

expando.

Os dias em que eu prefiro morrer são eternos e circulares, me afundam a alma num redemoinho de raízes minhas e do mundo inteiro; memórias ludibriantes de uma vida que nem sei se vivo ou se invento com os olhos, nervos, pretextos e medos.

Esses dias tão adensados e roucos emergem (a toda hora  e a qualquer preço) à superfície dos poros porque é neles que moro desde o começo

num entendimento de que sou vida em decorrência e finitude.

 

Já os combati com fúria e mágoa

por me roubarem a ingenuidade e me rasgarem em lucidez irreversível.

Já os odiei sem travas

por me lançarem à solidão dos que duvidam em absurda permanência.

Hoje pouco importa o que imprimem em meus sentidos. Eu já não brigo nem me espanto porque sou eles desde o princípio.

Não vou fingir que te amo

Não vou fingir que te amo nem esperar que faça o mesmo por mim. Está tudo bem desse jeito bem rústico. E não seríamos os primeiros.

Amor verdadeiro é coisa tão tinhosa e se escora em tantas variantes, que não se mistura a essas cafonices sociais emporcalhadas de fingimentos convenientes.

Ele, o amor, é insubmisso de ponta a ponta e confia sua ternura apenas a encontros verdadeiros, empoderados por afinidades de alma e temperamento.

Ah, esses encontros.

Tão raros, roucos e prontos.

Deixam o juízo desarmado e os afetos positivos em alvoroço, querendo ser livres, querendo ser amplos.

Não se explicam nem se moldam a nenhum cabresto ou roteiro.

Não transbordam só porque somos mãe e filha, irmãs, vizinhas, parentes, amantes ou assíduos nos mesmos ciclos e recortes.

Também não se acanham porque somos de outros mundos, cores, idades, valores ou passaportes.

Esse amor, que em cada vivente se acomoda e engrossa de maneira exclusiva, é singelo, porém, espaçoso.

Não precisa de luxos nem contratos, mas há de se ter o peito largo e rendido, posto que é brasa e asas!

Desejo(s)

Dane-se qualquer script de linearidade!

A mim a vida toca pela anarquia dos afetos.

Vivo pelo que amo,

Como, compro, convivo, brigo pelo que amo

em mim e nos outros.

Pessoas, lugares, livros, ideias, cheiros, gostos, olhares….

É tudo obra dos afetos,

desejo de tato, boca, abraço

Vontade de suprimir as distâncias

entre o que sou e o que me falta

É tudo afeto, do ódio ao amor

do murro ao beijo

E eu me afeto!

Desculpe pela ausência, pessoal. Maratona de 15 dias com muita tradução, numa rotina de 10-15h diárias. Estava meio oca.

Beijos e feliz Páscoa.

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E se A gente Vivesse?

E se a gente vivesse

com largura e intento cada palmo de vida sem contar o amanhã?

E se a gente dissesse

“já vai tarde” pro ontem se embrenhando no hoje sem temer o amanhã?

Suspiros delírios passadas

Vivências

Cadências

Paradas

Em curvas

Carências

Lombadas

E se a gente crescesse

se entretendo no estudo de encontros e engenhos sem forjar o amanhã?

Sem domar o amanhã

Sem castrar o amanhã

E se a gente vivesse?

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