Quando eu Canso de Brigar

  • Tento olhar a realidade com mais agudeza e amplitude;
 
  • Extrapolo as conveniências e tabus do meu lugar no mundo;
 
  • Construo um entendimento menos apaixonado e mais razoável das tantas formas distintas de se pensar, sentir e expressar a condição humana;
 
  • Aprendo a reservar um espaço para a dúvida e eventual mudança de opinião.


E conforme o tempo passa

  • Eu me habituo com o exercício reflexivo;
 
  • O desconforto em me perceber sem duplicatas vai se atenuando;
 
  • E a disparidade que de fato me distancia dos outros deixa de ser uma ameaça pra ser lida apenas como diferença!
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Amores forjados que nunca se esgotam

Volta e meia escuto:

“Eu quero ir embora do Brasil. Não aguento mais esse lixo!”

Eu entendo muito bem esse sentimento, pois fui a adolescente louca decidida em me mandar daqui porque só enxergava o lado ruim de ser brasileira.

Pra quem quer ir, eu digo que vá!

Se há uma boa chance (digna e legal), então aproveite.

Só não faça os planos e as malas com a ilusão de que conforto material e infraestrutura melhor dão conta de todas as suas necessidades de bicho homem afetivo e cultural.

O desterro de um expatriado dificilmente passa com o tempo porque viver apartado do solo que lhe formou da língua à mesa posta não é um desconforto de pele. Está mais para o luto profundo sentido por alguém que foi definitivamente amado.

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Dá ou não dá pra defender?

As pessoas são o que são. Eu sou o que sou dentro deste núcleo primordial e formador.

O estilo da roupa, eu mudo. O jeito de contornar a linha d’água do olho também, mas o modo de existir no sentido mais íntimo da coisa, aquele lado de dentro tão dentro que os outros nem notam, me é eterno ou pelo menos tão firmemente entranhado que só sairia de mim levando consigo pele e sangue juntos;

Não quero dizer que não mudo. Mudo sim e muito. Desde o dia da gravidez consumada até agora quase tudo se transformou veementemente, mas é um mudar previsto e coerente com algo anterior à própria mudança. É o mudar do meu código genético específico somado à rua onde cresci, ao colégio onde estudei e a todas as brigas, paixonites, crises, rupturas, encontros, desencontros, joelhos ralados, dores de barriga, menstruação, peitinhos crescendo e um tantão a mais, tão amplo e abarrotado que a memória até emperra.

E com eles (todo o restante da humanidade) acho que acontece o mesmo só que diferente rsrsrs. São da mesma espécie que eu, não são? Às vezes, tenho lá minhas dúvidas dado os absurdos biográficos e ideológicos que nos confrontam, mas partirei do princípio um tanto conciliador de que somos parentes, todos, absolutamente todos (inclusive a galera do Estado Islâmico, os violadores de criancinhas, estupradores, assassinos e amantes de sertanejo).

Todos parentes? Inclusive os piores, os menos ajustados a um código virtuoso de preservação da dignidade grupal? Sim. Todos e isso é no mínimo estarrecedor, o que me leva a concluir que não somos muito de confiança. Um bicho a se temer as paixões e os ódios inatos porque sabe matar com uma eficiência cirúrgica.

Ah como a gente odeia, ama, odeia de novo e ama mais um pouco!

Como a gente tem foco para erguer monumentos e também reduzir ao pó o  que outro coleguinha produziu motivado por essas mesmas pulsões.

Somos ridículos, eu sei. Não dá pra defender a nós mesmos assim com muita força, mas se somos o que somos e alguns de nós conseguem trilhar um caminho mais luminoso que os demais, então que o restante se inspire, se agarre de unhas cravadas a esse parentesco mais arrumadinho, tipo Jesus Cristo, Buda, Mahatma Gandhi, ou aquela senhora simpática que costura roupinhas para crianças carentes, o pai que suporta um trabalho de merda para que seus filhos prosperem mais do que ele, a mãe que dá a vida todo santo dia (e não apenas no momento do parto) pra que sua cria floresça levando adiante esse despropósito de mistério e caos que é a raça humana.

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O dia em que o rio jorrar

Por milênios se ensinou:

 

  1. Homens, as mulheres lhes pertencem!

 

É sua obrigação ampará-las, mas vocês também podem trancá-las, usá-las, domesticá-las, penetrá-las à força, despojá-las de toda autonomia e autoestima, impedi-las de conquistar o que quer que seja sem a sua supervisão e/ou consentimento.

 

  1. Mulheres, se curvem!

 

Abaixem os olhos e a alma até onde o seu senhor lhes disser que é o bastante.

Obedeçam, disputem umas com as outras, se vigiem, engolindo sua fome por liberdade a seco e em silêncio!

Que um dia tudo isso passe para que homens e mulheres não mais se rotulem e se espremam em modelos pouco abrangentes de masculinidade/feminilidade para que haja apenas presenças humanas das mais variadas formas, temperamentos, sexos, gêneros e vocações convivendo o tanto que der, do jeito que der sem a necessidade de um oprimido e um opressor.

 

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Minhas Bodas de Lã com a Tradução Técnica

Em setembro agora eu completo 7 anos traduzindo invenções.

Sete longos anos “lidando” com algumas das mentes mais brilhantes do mundo capazes de inventar e/ou aprimorar sistemas, aparelhos, software. Enfim, tecnologia de ponta que reconfigura a maneira como você e eu vivemos, comemos, somos operados, nos locomovemos.

Tenho preferência pelos textos da área médica que inovam em cirurgias minimamente invasivas, medicina diagnóstica e afins porque ser paciente às vezes dói, dói muito, na pessoa tratada e nos familiares que sofrem junto. Então, eu vibro em saber que há gente por aí se dedicando em nos operar sem cortes profundos e com menos riscos de complicações no pós-operatório.

Também gosto das novidades na indústria automotiva, de telefonia e TI. De alguma forma, estou fazendo parte desse mundão de avanço que temos por aqui mesmo sendo aquela que desmonta uma caneta e não consegue montar de volta e faz conta com um grau de dificuldade pouco recomendado.

Mas o que eu mais amo sem sombra de dúvidas é o que a mentalidade científica/pragmática/empreendedora desses engenheiros fez por mim, Aline, ser humaninho da área de Letras meio avoado.

Eles querem tudo melhor, menor, mais barato e simples. Eles querem a potência do universo condensada num grão de arroz! E eu apliquei esses valores na minha vida prática.

– Não tenho mais sonhos, só objetivos claramente traçados;
– Trabalho com prazos e metas;
– Evito desperdícios de recursos, tempo e energia.
– Invisto em conhecimento específico pra chegar lá.
– E aceito o preço inerente a toda conquista.

Ou seja, não é porque eu quero algo que ele vai despencar do céu bem no meu colo. Há desafios, erros de cálculos, imprevistos, escassez, contextos desfavoráveis pelo caminho e tudo bem. São essas pedras que me fortalecem e conscientiza.

Muito obrigada, Dannemann Siemsen pela oportunidade única. Eu simplesmente AMO prestar serviços pra vocês e ser ex-estagiária também. Essa oportunidade primeira, lá em 2008, mudou a minha vida pra melhor num grau que eu nem poderia mensurar. Que vocês continuem sendo esse gigante da área de patentes e marcas. Continuar lendo

Sabe-se lá no fundo

Da porta pra dentro, o que me engrandece é esta subjetividade bem construída e

amparada no que me parece genuíno.

Saber-me indivíduo solto e às vezes descontinuado da cultura, com vontades e demandas

próprias antes de seguir a manada porque o mundo e as ideias dos outros nem sempre

coincidem ou favorecem meu rumo.

Ah, este rumo que até eu desconheço, mas que num cessar de ruídos à volta, se agiganta

e me indica

É por aqui, Aline. Pode vir.

E eu vou desavisada do preço ou dos dedos apontados.

Eu vou de olhos cerrados e poros abertos, lançada ao que nem sei nomear, mas que intuo

ser meu, só meu.

Aprendi a viver assim, assentada em mim mesma

na alegria e na tristeza,

nos acertos e nas burradas (que não são poucas),

absorta em processos que me talham e estremecem;

compreendendo que por fim já bastam as delícias e tragédias que este corpo, mentalidade e desejos me permitem viver.

 

 

Temos Smart Phones, Mas e o Tato?

“As pessoas não se olham mais no metrô, nas ruas.”

Ouvi essa frase de uma senhora uns meses atrás e na época achei meio exagero. Que tonta, eu!! Ela estava coberta de razão.

O pessoal parece um zumbi hipnotizado pelo efeito smart phone, com a cara enterrada na tela como se o barato da vida se resumisse a notificações, mensagens e feeds na timeline.

Está aí a demência da nossa época. A tragédia dos nossos vínculos.

 

É tão gostoso marcar presença no agora…

Entrar num ambiente e senti-lo sem pressa, do cheiro aos sons, dos móveis às pessoas;

correndo os olhos pelo conjunto da obra, se fixando em um ponto singular para depois seguir adiante.

São nesses passeios que a gente percebe os detalhes de tudo e vai penetrando cada vez mais rente nas gradações de sentido, intenção e possibilidades do mundo.

 

Estamos intolerantes, polarizados, agressivos e mimados?

Em vários casos sim, talvez seja pela pressa em

  • consumir, descartar
  • curtir, repudiar
  • seguir, não mais seguir
  • amar, odiar

que passou a ser a tônica do momento.

Mas nada concretamente robusto brota da superficialidade de um clique.

É preciso que haja tempo investido, momentos sobrepostos e visão aguçada para assimilar o que quer que seja.

É preciso que haja TEMPO e que aprendamos a LER o entorno e o lado de dentro também. A nossa subjetividade depende disso para se desenvolver de um jeito saudável e atrelado às múltiplas realidades existentes.

Que essa histeria passe logo e a gente tome gosto em desfrutar em vez de simplesmente consumir.

Quem sabe um exílio no deserto do Saara ou numa jaula sem WiFi não ajude! 😉

 

 

Com a casa nas costas

Já me corroeu perceber que em parte alguma há um lar derradeiro;

aquele que me conteria com autoridade e esperança na infinitude.

 

Mas será que minhas noções de pertencimento podem ser assim tão convictas?

Se eu arranhar o topo dos afetos físicos e sutis que sinto a ponto de expô-los e revirá-los, o que sobraria?

 

Por que eu amo quem amo?

Por que eu volto para quem volto?

Por que ignoro certos caminhos e me lanço em outros?

O que sedimenta meus vínculos?

O que desmantela meu interesse?

 

É mais fácil apreender o que flui e agrega do que decifrar as trajetórias e critérios do que me causa repelência ou aproximação.

E por isso eu mudo e permaneço no mesmo lugar (sigo do mundo e continuo provinciana)

para que minhas andanças nunca me apartem de vez dos tesouros que já encontrei

e minhas permanências não me atrofiem numa jaula de marasmo e obsolescência

pois eu preciso

de

âncoras e asas

para me sentir

atada

e

diluída.

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E o livro sai quando?

Escrever em si é simples, principalmente, para quem faz disso um hábito há pelo menos duas décadas.

Mas pelo que escrever?

Que rumo e gosto dar às sucessivas correntes que me cortam?

E que propósito agregar a essa vocação?

Aliás, vale a pena ter uma finalidade clara e prática para minhas subjetividades?

Ou seria melhor apenas transmiti-las sem critérios nem ambições?

 

Será que eu tenho assim tanta coisa a dizer que mereça um livro?

Será que meus conteúdos seriam relevantes para os outros?

Que diferença faria mais um livro de mais uma jovem neste mundo tão bem servido de obras boas, ótimas, geniais, medíocres, ruins e péssimas?

Que impacto teria em mim finalmente me tornar uma autora?

Mas, um livro realmente precisa fazer diferença para merecer ser escrito? E se sim, como é que se mede o peso e a ressonância daquilo que nem veio a ser?

Será que as pessoas de ação e História foram tão minuciosamente reflexivas sobre suas biografias ou os fatos em suas vidas se sucederam mais ou menos planejados, mais ou menos atropelados?

Mente, criadouro eterno de problemáticas

que nunca se rendem

que nunca se bastam!

Essas e mais uma vastidão de outras questões me fazem companhia há tempos.

Já foram um tormento espinhoso, hoje apenas me lembram do quão ramificada é a minha relação com a escrita a ponto de eu oscilar entre extremos de pura devoção/ orgulho e de constrangimento/aversão por tudo que já imprimi em linhas.

Isso porque a Aline do texto de ontem não necessariamente é a leitora de hoje.

Isso porque em mim se abrigam entidades variadas que se hostilizam e competem com fúria e deboche.

Para começo de conversa, eu nunca sou a mesma e as manobras que faço raramente obtêm apoio unânime das forças que pensam, desejam e se movimentam dentro de mim.

Então, o livro sai quando?

Ele sai quando for inevitável.

Quando conquistar a maioria elegível dos votos.

Quando a vontade de escrevê-lo superar o acalento de não tê-lo na concretude.

 

Desculpa esfarrapada de gente preguiçosa e pouco arrojada?

Pode ser.

Condição caprichosa de quem vê mais afetos do que praticidade nessa empreitada?

Também.

 

Eu não sei e tenho raiva de quem sabe.

Porque desconfio que é esse jeito assim inacabado e fatalmente contraditório

que projeta no caminho à minha frente os contornos originais do que me define,

os motivos submersos que me propelem.

E assim, vou me contendo para continuar avançando

e me escancarando para não

engolir o último gole

porque me apavoro com o desespero

de um grande desejo saciado

e

prefiro que durem algumas de minhas fomes.

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