O que aprendi morando em um país muçulmano

Vivi quase 4 anos na Turquia, país onde mais de 90% da população é muçulmana, e pude traçar na prática um comparativo razoável entre Ocidente e Oriente, o qual compartilho com vocês agora.

Com cultura não se brinca

Ela norteia absolutamente todas as escolhas, valores e pontos de vistas que cada um possui. Portanto, não dá para conviver com um muçulmano sem respeitar e negociar diretamente com seu contexto social.

Sem tolerância recíproca, nada feito!

Ocidentais e orientais muçulmanos podem conviver harmoniosamente sim, contanto que haja muito respeito e ambas as partes saiam da sua zona de conforto para se encontrar num meio termo.

Um dos lados se sacrificando para que o outro prevaleça dificilmente resultará em algo que se aproveite.

 Os limites são concretos

Por mais que haja boa vontade, certas diferenças culturais nunca sairão da categoria “absurdos do outro”, não importa o tamanho do esforço. Em vários aspectos, os muçulmanos nos acham depravados e nós os temos como extremados em sua moralidade.

Outra coisa perigosa é medir o outro com a nossa régua. Uma coisa que muitas brasileiras tentam é inverter a ordem de prioridades de um homem muçulmano, o que quase sempre termina em esforço inútil.

Nos países de origem judaico-cristã, aprende-se que, após o casamento, o foco da vida dos dois é essa nova união. Portanto, os pais do casal passam a ter relevância secundária.

Já na cultura islâmica, a ordem quase sempre não se inverte. Mesmo depois de casadas, as pessoas continuam dando aos pais importância superior ou no mínimo igual àquela dada à nova família, pois foram educadas para isso e é assim que se sentem socialmente coerentes.

Qual modelo é o certo? Qual modelo é o errado?

Bom, eu não acredito em certo e errado em escala tão genérica. Só sei dizer o que funciona para mim e o que não me convém.

Que cada um escolha aquilo que lhe agrade e respeite. E ponto final.

O bem e o mal são democráticos

Há coisas melhores do lado de lá e outras, do lado de cá. Eu amo a comida brasileira, mas o café da manhã turco dá de 7×1 no nosso e a culinária árabe é um caso à parte; o hábito (turco) de presentear noivos e recém-nascidos com medalhas de ouro, as quais podem ser trocadas por dinheiro, é simplesmente genial. Quantas vantagens teríamos se essa moda pegasse por aqui…

No entanto, as liberdades individuais conquistadas pelo Ocidente são um paraíso em comparação à realidade oriental e eu não as troco por nada nesse mundo. Com todos os problemas e, até mesmo excessos resultantes dos nossos valores mais “frouxos”, acho o Ocidente muito mais palatável em termos de diretos e tolerâncias à diversidade humana.

O terrorismo também é democrático

Terrorismo é coisa de qualquer ser humano fanático e canalha. Então, não me venha com a tosquice de associar todos os muçulmanos a essa maldade tão destrutiva. Isso é coisa de gente ignorante e preconceituosa!

Matamos em nome de causas na banda de cá e na banda de lá, infelizmente. A diferença é apenas o modo de se classificar o que é terrorismo e o que não é. Ambos os lados são coniventes com os seus e implacáveis com o outro, e a imprensa de cada um reproduz com fidelidade esse padrão tendencioso.

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Capadócia, Turquia.

Gosto de compartilhar minhas experiências com vocês porque acredito piamente no poder que exemplos concretos têm de substituir ideias dogmáticas por uma visão mais lúcida e experimentada do mundo.

E o que distingue uma pessoa ignorante de alguém consciente não é diploma, dinheiro nem classe social, mas o esforço genuíno para enxergar a realidade tal como ela é ao invés de viver para reforçar suas crenças.

Leia, escute, pondere, desbrave!

O mundo é muito mais rico e múltiplo do que supomos!

A. Oliveira

O que Ficou da Turquia

Nem se eu quisesse, eu tornaria a ser apenas brasileira.

Entre idas e vindas, minha história com a Turquia já tem praticamente 7 anos.

Começou em Marmaris ou Kusadasi (não me recordo qual conheci primeiro), passou por Çanakkale, Gelibolu, Bodrum, Capadócia, Izmir, Ankara, Truva (Tróia) e se firmou na minha amada Istambul – a senhora de dois mundos (Ocidente e Oriente) – que tanto me afetava pro bem e pro mal.

Cheguei menina e fui criando raízes, somando experiências e lições; testei minha cultura, valores e visão de mundo; adquiri uma infinidade de novos pontos de vista, hábitos, preferências e senso estético. Enfim, virei outra. Virei meio turca, o que noto nas pequenas escolhas que faço no dia a dia, da comida à playlist.

A medida dos nossos afetos nasce no contato e se consolida na distância.

Passado 1 ano da minha partida, toda vez que troco mensagens com as minhas famílias turcas (Badem e Sahin), me lembro do que me fez ficar por tantos anos e porque pretendo voltar a passeio quantas vezes possível for:

amores, muitos amores!

Quando me divorciei, eu pensei: perdi TUDO. Todas as pessoas que amo. Estava enganada. Foi de onde eu saía que recebi mais apoio. No meu primeiro dia de Brasil, os áudios no Whatsapp eram da minha mãe turca dizendo que já estava com saudades, meses depois ela avisava: – quando vier nos visitar, você fica aqui em casa. Eu posso com isso? Não posso! 🙂

O melhor da vida são os vínculos que cultivamos a despeito de todas as incongruências.

Amo a Turquia pelos motivos óbvios: culinária, história, belezas, misticismo, pessoas queridas e hospitaleiras, etc.

Assim como detesto tudo nela que oprime e desrespeita: radicalismos, violência contra mulher, violação das individualidades, nacionalismo cego, autoritarismo político, superstições intransigentes etc.

E é dessa interação ambígua e sinuosa que nasceu tanto afeto e apego. É dessa forma tão plural e adensada que eu sinto a Turquia.

Que eu volte muitas e muitas vezes

E que ela continue sendo pra mim um solo de muitas lições e afagos

Turquia – Aşk Bitmez

Certos começos são o prelúdio de uma vida de reencontros que não cessam nem se perdem em sentido ou motivação. Por isso falar da Turquia é relembrar para onde volto em nostalgias sucessivas.

Ela me ensinou, do jeito mais rente e cortante, o que é saudade. De lá, chorei o Brasil distante repetidas vezes e de cá, o peito se aperta amuado pelo que ficou sem colo nas águas, aromas e tons de Istambul.

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Alguns amores são brandos e convenientes, se acomodam satisfeitos num espaço qualquer da nossa casa e ali moram sem grandes sobressaltos. Outros chegam trazendo a tempestade como aliada, reviram, desarmam e exigem para si o melhor quarto com mordomias em fila.

Assim foi com a Turquia e desconfio que só me resta aceitar; acatar que uma amante de história e temperamento tão intempestivos,  marcada por passionalidades viscerais e inexplicáveis, não poderia tocar sem cunhar.

Que o nosso próximo encontro (pelo qual espero com alegria) seja amplo. E que nele caiba a imensidão da minha fome.

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