O dia em que o rio jorrar

Por milênios se ensinou:

 

  1. Homens, as mulheres lhes pertencem!

 

É sua obrigação ampará-las, mas vocês também podem trancá-las, usá-las, domesticá-las, penetrá-las à força, despojá-las de toda autonomia e autoestima, impedi-las de conquistar o que quer que seja sem a sua supervisão e/ou consentimento.

 

  1. Mulheres, se curvem!

 

Abaixem os olhos e a alma até onde o seu senhor lhes disser que é o bastante.

Obedeçam, disputem umas com as outras, se vigiem, engolindo sua fome por liberdade a seco e em silêncio!

Que um dia tudo isso passe para que homens e mulheres não mais se rotulem e se espremam em modelos pouco abrangentes de masculinidade/feminilidade para que haja apenas presenças humanas das mais variadas formas, temperamentos, sexos, gêneros e vocações convivendo o tanto que der, do jeito que der sem a necessidade de um oprimido e um opressor.

 

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Minhas Bodas de Lã com a Tradução Técnica

Em setembro agora eu completo 7 anos traduzindo invenções.

Sete longos anos “lidando” com algumas das mentes mais brilhantes do mundo capazes de inventar e/ou aprimorar sistemas, aparelhos, software. Enfim, tecnologia de ponta que reconfigura a maneira como você e eu vivemos, comemos, somos operados, nos locomovemos.

Tenho preferência pelos textos da área médica que inovam em cirurgias minimamente invasivas, medicina diagnóstica e afins porque ser paciente às vezes dói, dói muito, na pessoa tratada e nos familiares que sofrem junto. Então, eu vibro em saber que há gente por aí se dedicando em nos operar sem cortes profundos e com menos riscos de complicações no pós-operatório.

Também gosto das novidades na indústria automotiva, de telefonia e TI. De alguma forma, estou fazendo parte desse mundão de avanço que temos por aqui mesmo sendo aquela que desmonta uma caneta e não consegue montar de volta e faz conta com um grau de dificuldade pouco recomendado.

Mas o que eu mais amo sem sombra de dúvidas é o que a mentalidade científica/pragmática/empreendedora desses engenheiros fez por mim, Aline, ser humaninho da área de Letras meio avoado.

Eles querem tudo melhor, menor, mais barato e simples. Eles querem a potência do universo condensada num grão de arroz! E eu apliquei esses valores na minha vida prática.

– Não tenho mais sonhos, só objetivos claramente traçados;
– Trabalho com prazos e metas;
– Evito desperdícios de recursos, tempo e energia.
– Invisto em conhecimento específico pra chegar lá.
– E aceito o preço inerente a toda conquista.

Ou seja, não é porque eu quero algo que ele vai despencar do céu bem no meu colo. Há desafios, erros de cálculos, imprevistos, escassez, contextos desfavoráveis pelo caminho e tudo bem. São essas pedras que me fortalecem e conscientiza.

Muito obrigada, Dannemann Siemsen pela oportunidade única. Eu simplesmente AMO prestar serviços pra vocês e ser ex-estagiária também. Essa oportunidade primeira, lá em 2008, mudou a minha vida pra melhor num grau que eu nem poderia mensurar. Que vocês continuem sendo esse gigante da área de patentes e marcas. Continuar lendo

Uma Tarde de Abril

Enche o peito e se desmonta no banco do canto com o rosto prensado no vidro.

Nos outros com seus momentos, ela nem repara.

Para pensar no que foi bom, apenas o chiar do ar se esgueirando pelo lado de dentro da pele, querendo sobrar bem no centro do corpo. A cena passada a limpo fala a fala, gesto a gesto e tremor – um susto gelado na boca do estômago bem quando tudo começou.

– Não quero que morra! Não posso com isso!

Deixa estar aqui por perto, rondando à minha volta para eu gastar até minguar como roupa surrada de tanto se amar.

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Blues and Beats

Você bem que podia ainda estar vivo pra eu te saudar pessoalmente e ouvir esses solos espichados de quem tem manha, de quem sabe o que faz, oh se sabe!

Eu te dançaria até encharcar a roupa e ver o suor escorrendo espinha abaixo com uma bebida qualquer na mão só pra molhar a garganta.
E quando o corpo cansasse, meu bem, eu pararia escorada num canto sorrindo o meu muito obrigada pelo seu gingado simpático tão rente, tão largo!

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I Believe To My Soul – BB King

Sabe-se lá no fundo

Da porta pra dentro, o que me engrandece é esta subjetividade bem construída e

amparada no que me parece genuíno.

Saber-me indivíduo solto e às vezes descontinuado da cultura, com vontades e demandas

próprias antes de seguir a manada porque o mundo e as ideias dos outros nem sempre

coincidem ou favorecem meu rumo.

Ah, este rumo que até eu desconheço, mas que num cessar de ruídos à volta, se agiganta

e me indica

É por aqui, Aline. Pode vir.

E eu vou desavisada do preço ou dos dedos apontados.

Eu vou de olhos cerrados e poros abertos, lançada ao que nem sei nomear, mas que intuo

ser meu, só meu.

Aprendi a viver assim, assentada em mim mesma

na alegria e na tristeza,

nos acertos e nas burradas (que não são poucas),

absorta em processos que me talham e estremecem;

compreendendo que por fim já bastam as delícias e tragédias que este corpo, mentalidade e desejos me permitem viver.

 

 

Paulistando Com Gosto

Faz quase dois anos que você me engole de um jeito intrigante.

Points artes caminhadas gramados lojas cinemas cursos eventos. Tudo tão diverso e simultâneo que chega a dar uma agonia só de pensar no que eu nem sei que perdi enquanto dormia, trabalhava ou lia As Aventuras de Sherlock Holmes jogada na cama.

Gosto quando está meio cinzenta, meio azulada. Essa sua indecisão faz a minha parecer mais normal e até dou risada.

Também faz bem quando me agrada com um de seus eventos de última hora, assim num lugar por onde eu passaria só por passar ou quando um friozinho se achega pelo fim da tarde e eu corro pro chá ou uma cuia de sopa.

Já me queixei da solidão que você exagera em escala faraônica

me irritei com o despropósito de gente que se espreme nos seus metrôs e cruzamentos em horários de picos

e muito me entristece a quantidade de pessoas morando em suas calçadas, praças, marquises e viadutos. Um desamparo que constrange e eu fico sem saber o que pensar. Nessas horas, bem que eu podia ser milionária ou herdeira da Rainha Elizabeth…

Mas o melhor de tudo são mesmos as pessoas. Quantos encontros bacanas você me arrumou hein? Nem daria pra contar.

Tudo bem que algumas foram pura furada, mas eu te desculpo porque o saldo está bem positivo.

Acho que sou uma sortuda no quesito metrópoles.

Istambul me acolheu como uma anfitriã que foi com a cara da hóspede.
Çok tesekkurler canim benim. En kisa surede geri donecegim.

E você tem compensado à altura mesmo não tendo aquele escândalo de paisagem às margens do Bósforos ou da zona sul do Rio.

Ah terrinha onde biscoito é bolacha… Nos pequenos e grandes contextos você me enriquece e por isso eu te amo assim do tamanho das marginais Pinheiros e Tietê juntinhas!

 

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Miss Fêmea Existe?

Assisti a um debate curioso entre uma ex-feminista e uma feminista vereadora.

Esperava mais das duas e também da mediadora.

Achei a conversa um pouco rasa e desorganizada. Mas já é um começo e nada nasce pronto.

Não faz muito tempo que tudo sobre nós era quase que exclusivamente pensado e divulgado por homens.

Da nossa alma ao que temos entre as pernas, eram eles a nos dizer e apontar peculiaridades, pequenez e/ou serventia.

Eram eles a nos estipular um caminho e também a delimitar os espaços geográficos e sociais por onde circularíamos, devidamente de acordo com a cor de nossa pele e o status da nossa casta, o que de certa forma, continua ainda vigente, porém, vem perdendo sua aura de sagrado.

Há muitos exageros e delírios nos discursos feministas que ando ouvindo por aí, assim como um mundaréu de disputas e acusações entre alas divergentes dentro e fora da mentalidade feminista.

Pra que essa gaiatice?

Faz-se muito mais por si e pelas outras no âmbito da prática e de debates não inflamados.

Mas acho importante esse fuzuê de pontos de vista e quero todas no balaio:

A dona de casa, mulher de um homem só

A solta no mundo com um milhão de aventuras e romances

A que gosta de macho

A que gosta de fêmea

A que curte qualquer ser humano que lhe encante

A que nasceu com xana

A que é mulher de alma…

E também os homens porque não acho graça em revanche e alternância de opressões.

Pra mim só não vale a estupidez da mentalidade estreita que julga como certo só o que cabe na sua própria cartilha e não estuda nem troca com o contraponto.

E muito bem me faz conviver com estilos mais à esquerda e à direita da minha própria trajetória porque num planeta com 7 bilhões de possibilidades existenciais, é uma burrice pensar que todos fluem de um mesmo leito e para um só destino.

 

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Não é só cabelo

Como teve coragem de cortar o cabelo tão pequeno?”

Pesquisando bastante no YouTube, seguindo meninas sensatas que já tinham passado pela transição e respeitando o meu próprio tempo.

“Deve dar um baita trabalho cuidar de um cabelo cacheado assim, né?” 

De jeito nenhum. Só tive que ter um pouco de paciência pra descobrir do que ele gosta/precisa em termos de shampoo, hidratação e óleos.

“Você já sofreu discriminação?” Não que eu tenha notado, mas alguns olhares curiosos e insistentes sim, principalmente quando estou de turbante.

Se arrependeu?

Nem por um milésimo de segundo!

Não faço nem farei militância contra as alisadas ou relaxadas porque acho isso uma falta de respeito e um certo jeito cafona de tirania.

Mas deixar que meu cabelo cresça à sua maneira é um decidir me sentir bela na minha própria etnia;

Um dar de ombros para o que não me é naturalmente pulsante e que por isso agride minha SOBERANIA! Continuar lendo

Era tão importante. Preferi que calasse

 

Ontem à tarde escrevi à mão num café qualquer me lembrando que nem tudo é

 

control+C, control+V

fast-food

fast-fashion

aplicativos

algoritmos.

 

Há muito de analogicamente orgânico pulsando por aí sem querer ser lido nem compartilhado. Como ecos de uma intimidade que dispensa plateia.

 

O lado de dentro da porta

a senha do banco

a roupa

de

baixo.

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