Nossos Atravessamentos Mais Preciosos

Eu não sabia.
Não fazia a menor ideia de que aqui dentro se escondia tanta coisa perniciosa…

 

Quanta raiva sufocada dos tempos de criança em que eu não conseguia processar o mal que me faziam; quanto choro engolido só pra fingir que não estava doendo até que tudo ruiu, ou melhor, implodiu sem pudor nem barreiras.

Às vezes, eu me pergunto:

Será que é só comigo? Será que foi mais fácil e fluido para os outros?

Não sei, mas sigo meu caminho de atravessamento desse rio enlameado na esperança de que aos poucos a água turva e opaca vá se transformando em transparência outra vez. Aliás, eu já vejo os meus pés tocando o fundo com tudo se renovando ao meu redor. Eu já sinto que o que se expande dentro de mim é predominantemente bom e saudável.

Três anos abrindo a caixa de Pandora, sentada em silêncio

Três anos meditando disposta a revirar meu estofo pra limpar as costuras emboloradas. Agora eu entendo porque a maioria se anestesia com mil e uma ocupações e dramas domésticos. Eles fogem desse silêncio que esfrega tudo na nossa cara, destruindo os muros e muletas que construímos pra que a gente se veja nu e sem máscaras.

Enquanto o barulho do mundo estronda lá fora conseguimos ignorar o desespero de dentro porque ninguém quer deixar doer e doer e doer. Ninguém quer se ver chorar até o ponto de secarem as lágrimas e se esvaírem as forças junto com a ilusão de grandiosidade. Mas a gente precisa parir, literalmente parir todo esse abismo de memórias represadas. Faz parte da vida, é o nosso percurso natural de amadurecimento.

E o mais belo de tudo isso é descobrir que aquele medo de não dar conta é pura bobagem. A gente aguenta sim! E como!

Não vai ser uma viagem à Disney, tá mais para um filme de terror meio trash com pitadas de dramalhão mexicano, mas depois que passa a gente até dá risadas.

É como voltar da guerra tendo feio a lição de casa sem pular nenhuma etapa. Ninguém retorna ileso e tendo gabaritando todas as provas, mas chega ironicamente inteiro pela primeira vez.

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5 Coisas que Descobri Olhando para Dentro

Para quem não sabe, eu medito diariamente há mais de um ano. Depois de um esgotamento emocional tenebroso que coincidiu com crise vocacional, divórcio, perda do meu pai e mudança de país (sim, tudo isso aconteceu ao mesmo tempo), eu fui obrigada a investigar o que estava me acontecendo para tentar juntar os cacos que sobraram.

Fiz terapia alternativa por 2 meses e a meditação complementou o tratamento com maestria. Aliás, acho muito pouco provável que aquela criatura, que já estava passando o dia inteiro debaixo das cobertas totalmente trancada nas suas loucuras internas, tivesse tido forças para se levantar sem um refúgio tão maravilhoso como esses.

Os primeiros meses de prática foram de alívio da tensão e liberação de muito conteúdo negativo.

E aí eu descobri a minha tendência em reprimir meus sentimentos em um nível tão violento que a impressão que dá é que eles nem existem.

Eu sei que eles estão escondidos em algum lugar porque o meu corpo dá sinais (boca amarga, refluxo, vontade de fugir, apatia, isolamento exagerado, etc.), mas eu tenho muita dificuldade em identificá-los e, principalmente, em deixá-los fluir livremente. Acho que trouxe isso da infância, pois eu era aquela garotinha que engolia o choro a todo custo para não confessar suas dores.

E só depois que eu me livrei desse lixo acumulado por muitos anos é que os outros benefícios da meditação surgiram. Foram e têm sido descobertas incríveis para mim e quero dividi-las com vocês.

  1. Eu sirvo de morada para pelo menos umas 10 personalidades diferentes e de 5 a 100, acho que tenho todas as idades. A brincalhona, a birrenta, a mimada, a sonhadora, a adolescente rebelde, a mulher de quase 30, a velhinha de 85 anos, a melancólica que luta contra a apatia (essa faz a festa na TPM) e por aí vai.
  2. Quando estou em paz comigo mesma, vejo o mundo com muito mais leveza. Se me afasto de mim ou deixo a cabeça lutar contra a minha natureza, a vida fica zoneada ao extremo. O que se passa aqui dentro reflete decisivamente nos acontecimentos lá fora.
  3. Quase tudo é transitório. Sentar em silêncio por alguns minutos me fez perceber que 90% do que eu penso que sou não passam de fogo de palha.São pensamentos, sensações, impressões, lembranças que vêm e vão como meteoros. Pura bobagem. E talvez 10% (número hipotético) representem algo de essencial e duradouro.
  4. O corpo denuncia TUDO o que se passa dentro de mim. Então, qualquer desconforto persistente eu considero como um sintoma de algo maior que está me acontecendo. Hoje eu sou capaz de ler minhas respostas corporais com muito mais clareza.
  5. Descobri meu ponto de equilíbrio na vida e ele não tem nada a ver com conquistas externas. Já viajei bastante pelo mundo, ganhei uma boa soma de dinheiro, cultivei amizades e alguns amores, tive ótimas experiências, mas NADA, absolutamente NADA disso me trouxe mais bem-estar e contentamento que a meditação. A sensação de conforto, paz e nutrição que sinto quando atinjo certo nível de relaxamento é indescritível. As palavras não alcançam porque a experiência não é deste mundo!

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