Não é só cabelo

Como teve coragem de cortar o cabelo tão pequeno?”

Pesquisando bastante no YouTube, seguindo meninas sensatas que já tinham passado pela transição e respeitando o meu próprio tempo.

“Deve dar um baita trabalho cuidar de um cabelo cacheado assim, né?” 

De jeito nenhum. Só tive que ter um pouco de paciência pra descobrir do que ele gosta/precisa em termos de shampoo, hidratação e óleos.

“Você já sofreu discriminação?” Não que eu tenha notado, mas alguns olhares curiosos e insistentes sim, principalmente quando estou de turbante.

Se arrependeu?

Nem por um milésimo de segundo!

Não faço nem farei militância contra as alisadas ou relaxadas porque acho isso uma falta de respeito e um certo jeito cafona de tirania.

Mas deixar que meu cabelo cresça à sua maneira é um decidir me sentir bela na minha própria etnia;

Um dar de ombros para o que não me é naturalmente pulsante e que por isso agride minha SOBERANIA! Continuar lendo

Transição Capilar e Psicológica – desafios, recompensas e lições

Passei um bom tempo amadurecendo a ideia para me livrar de uns 16 anos vivendo sob o tormento de:

domar meu cabelo crespo com químicas para não ser estigmatizada,

como se ele fosse o errado….

Eu, como milhões de outras mulheres, nasci e cresci impregnada de conceitos preconceituosos e depreciativos de tudo que contrapõe o padrão europeu de beleza.

Eu, como milhões de outras mulheres, não tinha, na infância, consciência dessa lavagem cerebral tão indecente e, na fase mais crescidinha, não me dei ao trabalho de questionar e superar tanto desrespeito disfarçado de cultura e normalidade.

Até 8 meses atrás, quando decidi ser mais eu e menos a sociedade, com seus valores doentios e extremamente segregadores.

Rio, trinta de setembro de 2016.

Meu aniversário de 28 anos. Terminei uma tradução e passei a tarde no salão fazendo uma  progressiva; a última até o momento. Ali eu já estava quase pronta para o início, só me faltava um pouco mais de orientação prática.

São Paulo, alguns dias depois.

Horas e mais horas assistindo vídeos de transitetes no Youtube, horas e mais horas de conversas comigo mesma. Começava a transição psicológica que serviria de base e abrigo para a transição capilar.

Fui mexer nas minhas crenças, em tudo o que o mundo me ensinou sobre ser negra/crespa; sobre o conceito de belo e feio, rico e pobre, cafona e sofisticado profundamente enraizado na postura:

Dê um jeito nesse cabelo, menina!

Faça um relaxamento, uma progressiva. Vai ficar muito mais “bonito”, “arrumado”, com cara de rica.

Não se engane! Não é só sobre cabelo e estética. É uma questão de saúde psicológica e intelectual também.

Desafios

Como vai ser meu cabelo 100% natural?

Como vou cuidar dele?

Será que vou achá-lo bonito?

E se me ofenderem nas ruas?

E se eu pensar em desistir?

E se…..

Ansiedade e muito medo de não dar conta. Mas comigo o negócio é o seguinte:

missão dada, missão cumprida porque nasci metida a besta! 😉

No início, achava a coisa mais linda aqueles centímetros minguados de cabelo meu (só meu, sem um dedinho de química). Com o passar do tempo, fui me horrorizando com a cena. Eu parecia um demônio ao avesso com aquele tantão de raiz natural e todo o comprimento esticado, sem força e sem vida. Mas para cada choque, um gás extra de iniciativa, informação e produtos de qualidade; mais eu me esforçava para encontrar suporte psicológico e estratégico para atenuar o estrago.

Foi tudo muito ambíguo….

Houve momentos de me sentir a segurança em pessoa, me achando bonita e muito corajosa; noutros, nem passava na frente de um espelho pra não morrer de susto. 🙂

Vivi a fase zero escova e chapinha, depois fui cedendo nos momentos em que tinha algum lugar para ir. E para dar tempo de eu digerir tanta mudança e não me torturar desnecessariamente, dividi o meu big chop em 3 cortes.

Enfim, eu me poupei e respeitei o máximo que pude para que o processo fosse tranquilo e predominantemente positivo.

Todo desafio nos exige um preço a ser pago, mas isso não significa que precisamos vivê-lo sob a cultura cafona do “sangue, suor e lágrima” tão valorizada por estas bandas.

Sem dramas, sem problematização inútil. Mas com muita força de vontade, franqueza, paciência e sabedoria para passar por todas as fases sem surtar nem torná-las um fardo.

Aprendi horrores nesses meses e de todas as lições, a mais valiosa foi o AMOR!

Amor pelo meu cabelo tal como ele é e não como os outros esperam que seja;

amor pelos momentos de intimidade que cultivei cuidando dele;

amor pela minha origem africana (que já admirava antes, mas que agora é muito mais honrada);

amor pelo que a natureza escolheu para ser meus contornos externos.

Seja lá o que lhe ensinaram sobre você, não cometa o despropósito de acatar. Não sem antes investigar a fundo se essa história acolhe e respeita a sua essência e livre arbítrio.

#NinguémÉObrigado