A Detenta, o Ditador e a Liberdade

Na tela do metrô a bizarrice de um cientista chinês que se casou com a robô que ele mesmo projetou. À minha direita uma moça abana a cabeça incrédula. Nos olhamos e rimos em seguida.

Conversa banal até que ela revela, toda orgulhosa, que aquele era o seu primeiro dia de liberdade após 5 anos na prisão.

Eu: O que você aprontou, hein menina? (Risos)

Ela: Tráfico. Peguei 9 anos, tô no semiaberto. (Aponta para a tornozeleira eletrônica). Deixei meus meninos pequenos. O menor tinha acabado de começar a falar.

Eu: Mas agora aprendeu, né? Não vai mais fazer isso…

Ela: De jeito nenhum. Aquilo lá não é vida, moça. É muito ruim perder a liberdade.

Descemos juntas na mesma estação. Ela, bem falante e animada. Eu, caladinha, só ouvindo, absorvendo aquele tipo de experiência tão drasticamente distinta da minha realidade. E antes que cada uma seguisse seu caminho, lembrei de dizê-la:

Muito boa sorte e parabéns!

Trocamos sorrisos e um adeus.

O encontro mudou o meu dia. De repente, toda a relevância do que eu tinha pra fazer se esvaiu. Saí da estação remoendo:

“cinco anos presa” “cinco anos sem pôr o pé na rua” “cinco anos de privações de toda a ordem”

CINCO ANOS

Eu morreria!

Livro “A vida privada de Stálin”, uma biografia bem crítica e ousada sobre um dos piores ditadores da História.

AVidaPrivadaDeStalin

Peguei-o na prateleira de uma livraria por acaso. Minutos depois já havia lido 60 páginas.  As obscuridades humanas me atraem num nível pouco moderado.

Infância pobre, pai alcoólatra e violento. Mãe repressora. Inteligência acima da média, colégio interno, amor pelos livros, obsessão por conhecimento, adoração por Lenin, fome de grandiosidade, idealismo totalitário, devoção sobrenatural à causa para “libertar o povo do czarismo”, crueldade sem limites.

Na juventude, muitas prisões, exílios, fugas e privações. A pior delas durou uns 3 anos no meio da Sibéria, de lá não deu pra fugir.

Combateu o czarismo. Anos mais tarde, bem munido de poder e retórica, assumiu o lugar daquilo que arriscou a vida para combater, fez-se czar, sobrepôs-se a tudo e a todos.

Stálin chegou aonde queria, fundiu seu nome à história da Rússia e do mundo. Mas não sem um custo proporcionalmente desmedido.

Morreu só e vítima do esquema de conspiração, violência e indignidades que ele próprio arquitetou durante anos no poder.

Morreu escravo de si e da causa, sem liberdade e totalmente impermeável à vida comum.

Nenhum inimigo externo é mais vil que as nossas próprias fomes.

Nenhuma ação do meio é mais nefasta que o sim dado por cada um de nós para tudo aquilo que destrói a liberdade humana.

Morremos como vivemos

Colhemos o que plantamos

A tragédia é nunca saber o peso de nossas escolhas até que elas se materializem.

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Dane-se a Eternidade – Prefiro a Certeza do Fim!

Mais uma vez, uma seguidora  lamentou o fim do meu casamento com a seguinte frase: “A gente casa para durar para sempre, mas infelizmente….”.

Ao ler essas linhas eu pensei:

Mas eu não casei pensando que seria pra sempre…. Aliás, eu NUNCA fiz nada com essa ilusão e talvez seja por isso que vivo os momentos com tanta intensidade, bebendo até o último gole da experiência.

Vai ver é justamente essa minha certeza de que nada é eterno, exceto a mudança, que me permite fechar ciclos, trancar portas, olhando para trás bem raramente.

Não, eu não casei achando que duraria até que a morte nos separassem e acho que grande parte das pessoas pensa o mesmo (vide a alta taxa de divórcios), mas por uma questão de valores ou de etiqueta, nem todo mundo assume a realidade de que tudo na vida tem um quê de loteria – casamento, filhos, carreira, etc.

O investimento feito hoje pode se tornar completamente desastroso ou sem sentido daqui a alguns anos, pois na hora em que assinamos o contrato não fazíamos a menor ideia do montante final de riscos e sacrifícios requeridos, muito menos das circunstâncias novas que surgiriam com o tempo.

A Aline de hoje pensa, deseja e escolhe de acordo com o seu grau de consciência e necessidades. A Aline que irá colher o que está sendo plantado hoje pode não achar tão incrível essa decisão. Então, já desencanei dessa busca por coerência e linearidade. Pura furada, a vida é doida de pedra e eu não fico atrás.

No fundo, vivemos mesmo movidos pela esperança, a esperança de que continue valendo a pena e de que o bônus supere o ônus.

Enfim Só!

Eu nunca fui das mais sociáveis. As doses cavalares de solidão de que preciso para estar bem e uma certa preguiça em construir novos laços sempre foram meus pretextos para viver no meu casulo.

Hoje em dia, ao pensar em todos os filmes incríveis que não poderei ver e nos livros que mudarão minha vida, mas que ainda não descobri, me sinto tentada a hibernar eternamente no aconchego do meu quarto, dentro de uma roupa confortável e com a cara lavada.

Às vezes, também dá medo de endoidar (de vez) ou perder a conexão com o mundo lá fora. Daí me lembro que eu saio umas duas vezes por semana só para ver gente e converso com amigos e familiares com certa frequência.

O mais legal de preferir a solidão é que o contato com os outros ganha um significado mais exuberante.

Por passar a maior parte do tempo sozinha, uma simples viagem de metrô me distrai horrores e a conversa com alguém interessante reverbera dentro de mim por horas e horas  justamente por não ser algo vivido com tanta regularidade.

Aproveitando o assunto, deixo uma dica de livro para os amantes do voo solo.

Amor, Liberdade e Solitude – Osho.

Esse foi o primeiro livro que comprei de volta ao Brasil (fim de março de 2016). Muitas respostas me foram respondidas e novas perguntas suscitadas por ele. Recomendo para quem gosta de se analisar e curar.

Beijos e até a próxima! 😉

asl

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